Juventude Espírita

Juventude Espírita
25 de outubro de 2017 André Luiz Martins de Pádua

Juventude Espírita

Por André Luiz Martins de Pádua 

Esse texto aborda a realidade do/a Jovem Espírita. Nele não há qualquer pretensão de esgotar esse assunto. Ao contrário, o seu principal interesse, além de divulgar as ações e a movimentação da  juventude espírita, é de expressar a diversidade que envolve a proposta.

A pesquisadora Cleusa Colombo, em texto de 1998, afirma que a primeira mocidade espírita do mundo foi iniciada em Nova Iorque, no dia 25 de janeiro de 1863. “Os espíritas podem agora começar como reais pensadores e filantropos, a trabalhar nas verdadeiras raízes da sociedade” afirmava Andrew Jackson Davis, que iniciou o movimento de jovens espíritas. De acordo com a mesma autora, “no Brasil, a 22 de maio de 1932, moços espíritas se reúnem em São Paulo, no Centro Maria de Nazareth pela primeira vez. Em Santos, (Estado de São Paulo), a 14 de junho de 1934, foi fundado o segundo núcleo brasileiro: Luís Gomes da Silva foi o iniciador deste movimento no Brasil. Em 1936, outras entidades seguiram o modelo paulista, e grupos de jovens começaram a surgir no Rio de Janeiro. Hoje, todos os estados do Brasil possuem mocidades espíritas. Nos anos 60, as mocidades espíritas reuniam mais ou menos 10 mil jovens no Estado de São Paulo.” (p. 120)

Além dessa breve indicação de como nasceram os movimentos juvenis espíritas, que contextualiza este fato de modo mais institucional, é pertinente uma reflexão: seria o/a jovem espírita aquela/aquele participante de uma mocidade/juventude espírita? Participante de um grupo de estudos da casa espírita?  Jovem participante das reuniões públicas (palestras) da casa espírita? Ou, seria o/a jovem espírita aquela/aquele que estuda as cinco principais obras de Allan Kardec e outras subsidiárias em casa com a família ou sozinho (a) por meio de livros e outros meios diversos disponíveis? Ou, seria o/a jovem espírita constituído(a) pelo conjunto de respostas possíveis a essas indagações?

Para dimensionar essa diversidade, é interessante perceber e trazer um pouco dos estudos de Novaes e Fonseca, em artigo presente na revista Juventudes: outros olhares sobre a diversidade (2007). Nesse, a identificação do/a jovem, adepto/a do espiritismo é caracterizado apenas como jovem espírita. Já em 2013 na revista Agenda juventude Brasil, leituras sobre uma década de mudanças, Novaes (2016) indica uma mudança na nomenclatura. Além de “jovem espírita”, aparece a designação espírita kardecista. Em nota de rodapé, a autora informa, “finalmente, espíritas kardecistas também serão citados apenas como espíritas.” (pg. 238) Uma análise possível de se fazer dessa afirmação é a de que a diversidade na juventude espírita brasileira ainda é pouco explorada e conhecida academicamente.

A pesquisa disponibilizou alguns temas específicos pra serem escolhidos por ordem de relevância, para o/a jovem espírita. Dentre os valores éticos, a pesquisa destaca: respeito à diferença e igualdade de oportunidades. Dentre as principais causas de incômodo, estariam: corrupção, a grande desigualdade entre ricos e pobres, o racismo e outras formas de discriminação. Dentre os temas que mais representam pontos positivos no Brasil, os jovens destacaram: a possibilidade de estudo, liberdade de expressão e ter democracia.

Além dessa pesquisa, a editora Lorenz organizou o livro O jovem espírita quer saber. São questionamentos levantados por inúmeras mocidades espíritas de diversos estados a partir de temas selecionados pela editora, na primeira edição temos: namoro, sexo, homossexualidade, alimentação, drogas lícitas e ilícitas, timidez, depressão, suicídio, morte, aborto, pais adolescentes, gravidez na adolescência, família, conflito de gerações, casa espírita, mediunidade, arte, esperanto, mídia, violência, sociedade, lazer, liberdade, filantropia, meio ambiente e terra, mundo de regeneração. Na segunda edição, além dos temas já citados, outros temas contemplados foram: liderança, literatura espírita, causas e consequências da evasão das mocidades espíritas, jesus/natal, a internet, o jovem e a globalização, unificação, cidadania, bulling. Na primeira edição participaram 25 escritores espíritas, na segunda, 31.

Essas informações são importantes para contextualizar o que vêm sendo o objeto de reflexão de grande parte da juventude espírita, cuja grande tarefa é exercitar a interpretação do conteúdo presente nas principais obras da Doutrina Espírita, organizadas por Allan Kardec, e obras subsidiárias que estabelecem coerência com as principais obras que formam o corpo doutrinário do espiritismo e aplicar sua compreensão sobre o conteúdo na realidade, em outras palavras, exercitar a vivência de todo esse conhecimento.

Tanto a interpretação quanto a vivência se articulam de diversas formas, dentre elas podemos destacar a arte espírita, – que agrega uma diversidade ampla de expressões, principalmente a cristã, mas que se comunica com outras variadas expressões vinculadas à espiritualidade -, como umas das expressões contemporâneas de se perceber e viver a Doutrina Espírita.

Na arte espírita, dentre suas expressões, se têm: a música, o teatro, a poesia e outras gêneros da escrita, a dança, o desenho, a escultura, a linguagem, o artesanato, etc. Nessas tantas expressões, todo trabalho sempre é elaborado com a proposta de reflexão permeada por diálogos sempre construtivos e propositivos, o que é sentido principalmente dentro das instituições espíritas, através de mocidades e juventudes.

Ao esmiuçar com mais detalhes a ideia de arte espírita, a proposta é de divulgar o potencial criativo do jovem espírita que alicerçado nas obras da codificação espírita e subsidiárias arquitetam vastíssimos recursos de expressão cientifica, filosófica e religiosa/moral.

O modo como o/a jovem espírita atua, se movimenta, questiona e percebe a fé é muito diversificado por todo o Brasil, tanto por grupos de jovens tanto pelo/a jovem em si. Por exemplo, o/a jovem espírita universitário/a que aprofunda o diálogo sobre ciência e espiritualidade, principalmente, os estudantes de psiquiatria, psicologia, medicina e outras denominações vinculadas à psicoterapias. Dentro das ciências sociais, exatas e da física igualmente existe um aprofundamento do estudo sobre ciência e espiritualidade. Em ambos os casos existe a tentativa de se fazer a vinculação entre instituições espíritas e a academia.

Antes da entrada em algum tipo curso universitário, a vivência do movimento espírita em uma micro região de Minas Gerais nos permite indicar que a movimentação da/o jovem espírita se dá de maneira a aproveitar o máximo possível o conhecimento que a Doutrina Espírita oferece oportunizando reflexões e atividades nas instituições espíritas e o movimento espírita como um todo, na medida em que há abertura das mesmas. Além disso, o/a jovem espírita também se vincula às mocidades espíritas, às reuniões de estudo mais aprofundadas e reuniões públicas, exercitando a oratória e a escuta, também participam da elaboração e mediação de estudos doutrinários, além de sua vinculação ao trabalho social.


Referências

COLOMBO, Cleusa Beraldi. Ideias Sociais Espíritas. São Paulo. Editora Comenius e IDEBA, 1998.
Agenda juventude Brasil: leituras sobre uma década de mudanças. Org. NOVAES, R.; VENTURI, G.; RIBEIRO, E. e PINHEIRO, D.  Rio de Janeiro: Editora Unirio, 2016.
FONSECA, B. A.; e NOVAES, R. Juventudes Brasileiras, Religiões e Religiosidade: uma primeira aproximação. In: ABRAMOVAY, Miriam; ANDRADE, Eliane Ribeiro; ESTEVES, Luiz Carlos Gil. (Org.) – Juventudes: outros olhares sobre a diversidade. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade; Unesco 2007.
O jovem espírita quer saber: questionamentos de inúmeras Mocidades, que 25 escritores espíritas responderam. 2.ed. – Rio de Janeiro: F.V Lorenz; Grupo de Esperanto Pac-horo, 2011.
O jovem espírita quer saber: questionamentos de inúmeras Mocidades, que 31 escritores espíritas responderam. 2.ed. – Rio de Janeiro: F.V Lorenz; Grupo Espírita-Esperantista Pac-horo, 2015.