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Os evangélicos e as crianças bruxas da Nigéria

Os evangélicos e as crianças bruxas da Nigéria
15 de maio de 2020 Dátames Acastro Egg Segundo

Uma breve contextualização

A história do cristianismo no continente africano inicia-se, já, no primeiro século da era cristã. O historiador John Baur atribui a entrada da fé cristã no norte da África por egípcios e etíopes ao ano 36 e a implantação da primeira igreja cristã ao ano 62. Nos séculos seguintes, o cristianismo se disseminou pelo continente a ponto de reinos africanos o terem tornado sua religião oficial, como é o caso da Núbia no século VI[1] e a Etiópia no século XIII[2]. As tensões e disputas entre cristianismo e islamismo que iniciaram a partir do início da evangelização africana perduram, de forma bastante intensa em algumas regiões, ainda hoje[3].

Com o aumento do interesse europeu pela exploração comercial da África – em um primeiro momento direcionada a produtos e insumos e logo mais pela criação do hediondo e lucrativo negócio de sequestro e escravização em massa de vidas africanas – a presença europeia no continente aumentou no século XV, mesmo período em que se percebe uma intensificação das incursões missionárias.

Foi a partir da invasão europeia no século XIX[4], porém, que o cristianismo realmente se espalhou no continente. A colonização cultural é inseparável da colonização religiosa nesse período[5], tendo agora como principal agente o movimento protestante. Nesse período, formam-se também muitas igrejas independentes africanas, que tentavam minimizar a evidente perda de identidade cultural resultante da implantação do cristianismo adaptando a fé cristã à cultura ancestral.

Em 1980, chega à África o movimento neopentecostal, uma nova vertente do cristianismo evangélico, que tem como algumas de suas características a “teologia da prosperidade” (promessa de recompensas materiais aos fiéis), o conceito de “batalha espiritual” (combate às forças demoníacas) e a forte ênfase ao crescimento numérico. Uma das regiões mais impactadas pelo evangelismo neopentecostal do final do século XX foi a Nigéria subsaariana. Enquanto o norte do país permanece majoritariamente islâmico, o centro-sul aderiu em massa ao neopentecostalismo pregado por evangelistas europeus como Daniel Kolenda[6] e Reinhard Bonnke[7].

Crianças-Bruxas

O encontro entre a teologia cristã neopentecostal e os conceitos da religiosidade ancestral africana, porém, produziu um fenômeno alarmante. A religião ancestral Azande tem como elemento-chave para explicação dos fenômenos naturais e sociais a bruxaria e a feitiçaria, ensinando que esses elementos estão em toda a parte e organiza a convivência social a partir desses conceitos.

O antropólogo Evans Pritchard, após minuciosa investigação sobre a religiosidade Azande, explica:

Dizer que a bruxaria estragou a colheita de amendoim, que espantou a caça, que fez fulano ficar doente equivale a dizer, em termos de nossa própria cultura, que a colheita de amendoim fracassou por causa das pragas, que a caça é escassa nessa época e que fulano pegou uma gripe. (EVANS-PRITCHARD; GILLIES, 2005, p. 50).

Nas novas interpretações para os mesmos termos, porém, a questão da bruxaria não é tratada com tanta naturalidade, estando totalmente relacionada à influência e possessão demoníacas. Para pastores evangélicos como Helen Ukpabio[8], até mesmo (e principalmente) crianças podem ser possessas por espíritos de bruxaria e, uma vez contaminadas, espalharem desgraça e infortúnio por onde passam. Ukpabio é nigeriana e autora do livro “Unveiling the Mysteries of Witchcraft[9], no qual afirma que crianças podem ser possuídas e ensina como reconhecer sintomas de bruxaria mesmo em recém-nascidos. Para ela, “se uma criança de menos de dois anos chora à noite sem motivo aparente, ela é um agente de Satanás” (UKPABIO 1999, p. 03). Através de seus livros, suas pregações e conferências e dos filmes produzidos por seu “ministério”, Ukpabio tornou-se uma das principais vozes de uma espécie de reedição da caça às bruxas da idade média, tendo como principal alvo, porém, não mais mulheres adultas, mas sim crianças.

Um dos aspectos percebidos por Pritchard em sua pesquisa de campo a respeito da religiosidade ancestral Azande, refere-se ao fato de que “uma criança nunca é acusada de assassinato, e nem mesmo moças e rapazes crescidos são suspeitos de bruxaria séria.” (EVANS-PRITCHARD; GILLIES, 2005, p.39). Mesmo que um oráculo apontasse uma criança como praticante de bruxaria, ele não teria crédito:

Disseram-me que havia casos raros em que, depois de se consultar em vão o oráculo a respeito de todos os adultos suspeitos, um nome de criança era posto diante dele, sendo confirmado como bruxo. Mas disseram-me que, se isso acontecer, um ancião irá sugerir um erro, dizendo: ´Um bruxo pegou a criança e colocou-a na frente dele como escudo para proteger-se´. (EVANS-PRITCHARD; GILLIES, 2005, p.39).

A obra de Pritchard é fundamental para se estabelecer as diferenças entre a cultura tradicional dos povos africanos na região onde se situa a Nigéria e a cultura que tem sido imposta nas últimas décadas pela colonização cultural-religiosa através de novos conceitos que se utilizam dos mesmos termos, ressignificando-os. Além da distância entre as concepções tradicionalmente africanas e as evangélico-pentecostais a respeito de bruxaria, a relação de crianças com suposta prática de bruxaria é fato recente que tem sido alimentado pela pregação evangélica neopentecostal.

Em artigo publicado em 2008, a pesquisadora Luena Nunes Pereira, descrevendo o funcionamento do mesmo fenômeno na Angola, afirma que:

as igrejas pentecostais e proféticas conformam uma nova linguagem que rearticula, numa chave dualista, as concepções locais sobre poder invisível. Esta é empregada na acusação de feitiçaria contra uma categoria social ao mesmo tempo fragilizada e ambígua: as crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo, oferecem uma solução ao tratar a criança feiticeira através de rituais de purificação e exorcismo. Estes rituais acontecem no espaço da igreja, com a participação da comunidade de fiéis. Os pastores constroem uma atualização da interpretação, identificação e cura de feitiçaria, elaborando rituais combinando elementos do âmbito cristão, mas retraduzindo papéis e práticas locais, vista a semelhança dos rituais com os empregados pelos curandeiros tradicionais. (PEREIRA, 2008).

É comum que as crianças acusadas assumam a condição de bruxas e sua “confissão” torne-se o atestado final de culpa perante seus acusadores. Mesmo que neguem, uma vez acusadas, passam a viver estigmatizadas. A culpa de qualquer infortúnio sofrido pelas famílias, amigos, colegas ou vizinhos recai sobre elas. Os pastores que acusam também oferecem a cura através de rituais de exorcismo que apresentam um custo financeiro. Como a maioria da população vive em condições bastante precárias e não possui meios para pagar pelo “tratamento espiritual” da criança, muitos optam por expulsá-las de casa. Em casos mais graves, crianças estigmatizadas são jogadas vivas em fogueiras, queimadas com ácido, espancadas com paus, canos, ou mesmo mortas a pauladas ou golpes de facão (CIMPRIC, 2010; FOXCROFT, 2009).

Figura SEQ Figura * ARABIC 1 – Crianças vítimas de acusações de bruxaria - Fonte: http://thenationonlineng.net/akwa-ibom-chilitches-still-endangered/

Os relatórios “The causes and prevalence of accusation of witchcraft among children in AkwaIbom State[10] e “Children Accused of Witchcraft[11], publicados pela Unicef em 2008 e 2010, corroboram a afirmação de Pereira.

Em 2008, uma grande visibilidade foi dada ao fenômeno da estigmatização de crianças na Nigéria em todo o mundo a partir do lançamento do filme documentário “Saving Africa’s Witch Children”[12], produzido numa parceria entre as ONGs Stepping Stones, CRARN e os documentaristas Mags Gavan e Joost Van Der Valk. Nas palavras de Gary Foxcroft, presidente da Stepping Stones:

(…) por mais de seis meses, uma equipe de filmagem independente produziu para nós um documentário que mostra claramente os terríveis abusos que esses inocentes sofrem devido a essa crença errônea, difundida por muitos supostos cristãos na Nigéria(…) Contudo, não imaginávamos que esse filme viria a causar um impacto tão profundo e abrangente(…) Apesar disso, o que nos pareceu estranho foi a falta de reação da comunidade cristã, que emudeceu. Considerando que essa prática era baseada em uma interpretação pervertida da bíblia, esperávamos que muitos grupos cristãos nos procurassem para oferecer auxílio”. (FOXCROFT, G. apud QUINTELA, M. 2011.  p. 185 – 186)

Atualmente, duas pequenas ONGs têm se dedicado ao trabalho de prevenção de acusações, acolhimento e educação de crianças estigmatizadas no sul da Nigéria[13].  Passados 11 anos do lançamento do documentário e das primeiras publicações da Unicef, a estigmatização de crianças permanece, assim como o silêncio da comunidade cristã ao redor do mundo, com raras e louváveis exceções.

Notas
[1] Ver História Geral da África, Vol II. Brasília: Unesco, 2010. p.333 a 349
[2] Ver BAUR, John. 2000 anos de cristianismo na África: uma história da igreja africana
[3] Ver História Geral da África, Vol VII. Brasília: Unesco, 2010. p.604 a 610
[4] Ver História Geral da África, Vol VII.Brasília: Unesco, 2010.p.21
[5] Ver História Geral da África, Vol VII. Brasília: Unesco, 2010. p.25, p.596 e p.610 a 624.
[6] www.cfan.org.br/kolenda.html
[7] www.cfan.org.br/reinhard-boonke.html
[8] Líder da igreja Liberty Church, que tem o combate à bruxaria como uma de suas principais ênfases.
[9] Tradução: “Revelando os Mistérios da Bruxaria”
[10] Tradução: “As causas e prevalência de acusações de bruxaria entre crianças no estado de AkwaIbom”. Disponível em: http://cdn.modernghana.com/images/content/report_content/unicef_nigeria_child_witch_report_and_crarn_work.pdf
[11] Tradução: “Crianças Acusadas de Bruxaria”. Disponível em: http://www.unicef.org/wcaro/wcaro_children-accused-of-witchcraft-in-Africa.pdf
[12] www.imdb.com/title/tt1883606/
[13] www.waytothenations.org , www.dinnoedhjaelp.dk/en/
Referências Bibliográficas
ANDERSON, Allan. El pentecostalismo. El Cristianismo carismático mundial, Madrid: Akal, 2007.
BAUR, John. 2000 anos de cristianismo na África: uma história da igreja africana. Lisboa: Ed. Paulinas, 2002.
CIMPRIC, Aleksandra. Children accused of Witchcraft. Dakar, 2010. Disponível em unicef.org/wcaro/wcaro_children-accused-of-witchcraft-in-Africa.pdf. Acessado em 20/01/2016.
EVANS-PRITCHARD, Edward; GILLIES, Eva. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azende. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
FOXCROFT, G. Witchcraft accusations: A Protection concern for UNHCR and the wider humanitarian community? Abril, 2009. Disponível em http://www.crin.org/docs/Stepping_stones_witchcraft.pdf. Acessado em 20/02/2017 .
FOXCROFT, G.; SECKER, E. Report on accusations of witchcraft against children in AkwaIbom state, Nigeria. Stepping Stones Nigeria, 2010. Disponível em: http://www.experts.com/Articles/Accusations-of-Witchcraft-Against-Children-By-Gary-Foxcroft. Acessado em 20/01/2020.
NWADINOBI, Eleonor. The causes e prevalence of accusation of witchcraft among children in AkwaIbom State. 2008. Disponível em http://cdn.modernghana.com/images/content/report_content/unicef_nigeria_child_witch_report_and_crarn_work.pdf. Acessado em 20/01/2020.
OPOKU, Kofi Asari. A Religião na África Durante a Época Colonial. In: História Geral da África.vol. 7. Brasília: UNESCO, 2010. p.591 – 624.
PEREIRA, Luena Nunes. Crianças feiticeiras: reconfigurando família, igrejas e estado no pós-guerra angolano. Rio de Janeiro: 2008. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-85872008000200003&lng=en&nrm=iso. Acessado em 20/01/2020.
QUINTELA, Marcelo. Missão, salvar crianças-bruxas: diário fotográfico de uma expedição brasileira à África Ocidental. Brasília: Associação Humanitária Caminho Nações: 2011.
UZOIGWE, Godfrey N. Partilha europeia e conquista da África: apanhado geral. In: História Geral da África.vol. 7. Brasília: UNESCO, 2010. p. 21 – 50.

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