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Se negro não vota em negro, evangélico vota em evangélico?

Se negro não vota em negro, evangélico vota em evangélico?

É sabido que o movimento evangélico ganhou muita notoriedade com o advento da eleição de Jair Messias Bolsonaro à Presidência da República, em 2018. Com tal eleição, cotidianamente é possível vermos e ouvirmos menções a tal segmento religioso, justificando até mesmo frases contra a laicidade do Estado, algo antes impensado pelas lideranças políticas do país.

Embora os evangélicos sejam bem pulverizados quanto a denominações e, consequentemente, a usos e costumes, é importante lembrar que a grande maioria se aloca nos segmentos pentecostal e neopentecostal, grupos que apoiam quase que cegamente a cartilha bolsonarista, o que nos faz pensar nas consequências eleitorais disso para as próximas eleições, sendo importante lembrar que não foi o segmento evangélico sozinho o responsável pela eleição de Bolsonaro em 2018, uma vez que, quantitativamente, não conseguiria fazê-lo, precisando, então, de um antipetismo construído para que mais eleitores embarcassem na agenda pentecostal catapultadora da candidatura do até então deputado federal.

Assim, o intuito aqui é comparar algo que aconteceu com o movimento negro na história eleitoral do Brasil, para ver se, assim como se pensava que “negro vota em negro”, refletir sobre a possibilidade de um “evangélico vota em evangélico”, embora Bolsonaro nunca tenha se identificado como evangélico, mas como católico, ainda que tenha solicitado batismo no segmento protestante e siga, em vários momentos, os passos da esposa em tal adesão religiosa.

Começando nossa análise comparativa, então, voltamos aos anos 1980, que começaram com uma série de trabalhos acadêmicos que pareciam querer recolocar a discussão racial em voga, trazendo o debate sobre uma plataforma eleitoral negra para o centro das discussões sobre a formação de um específico eleitorado na sociedade brasileira, uma busca pela resposta à questão negro vota em negro?

Nos anos 1980, alguns estudos buscaram analisar o posicionamento de determinados partidos em relação às demandas do segmento negro, outros analisaram a possível arregimentação político-eleitoral deste segmento racial, e outros, ainda, buscaram estudar o relacionamento de políticos negros com os militantes dos movimentos negros, bem como surgiram também análises sobre o movimento negro como grupo de pressão política, tal como acontece hoje com o movimento evangélico.

Lançando mão de um recorte geográfico que contempla a cidade de São Paulo, a antropóloga Ana Lúcia Valente1VALENTE, Ana Lúcia Eduardo Farah. Política e relações raciais: o negro e as eleições paulistas de 1982. São Paulo: FFLCH/USP, 1986. compromete-se com uma visão mais antropológica, no intuito de não lançar para segundo plano os conjuntos de representações e valores que os indivíduos têm de si e do mundo, conjuntos estes que as metodologias mais teóricas e quantitativas da Sociologia e da Ciência Política não intentam muito contemplar.

Assim, no intuito de contribuir com análises que contemplam discussões sobre a cultura, a identidade cultural e a manipulação da etnicidade, Valente lançou mão de observação participante, análise de históricos de vida e de entrevistas informais, aplicando tal arsenal antropológico em três momentos bem escolhidos: o momento que antecedeu as eleições de 1982, o próprio momento da eleição e o momento que a sucedeu, buscando contato com grupos negros de reivindicação política, que estavam bastante dispostos a debater a questão racial e a questão política de então.

Deste modo, a autora passou o ano de 1982, começando já em março, participando de conferências de grupos negros e de partidos políticos, sobretudo o PMDB, que estavam interessados em debater as questões de tal grupo étnico, apresentando ao mesmo os programas de governo e as respostas para as demandas de um segmento racial que cada vez mais interessava à forte cúpula peemedebista e também à de outros partidos.

Nesta fase, através de questionário para 540 votantes negros e negras, Valente procurou responder a alguns questionamentos, ainda que entendendo que os grupos negros têm estratégias diferentes na busca por respostas às suas demandas. Embora haja diferenciação entre os diferentes grupos, no entanto, a autora mostra que, para não haver enfraquecimento diante do inimigo comum, os movimentos negros ideologicamente se apresentavam com um todo unido contra as mesmas mazelas: a discriminação e o preconceito.

Assim, apresentando-se como um grupo unido e único, os negros se mostravam como um contingente bastante interessante de votantes, o que fez com que, numa busca pelos votos de um segmento que parecia bastante relevante em números e bem unificado, “todos os partidos, independentemente de tendências ideológicas, procuraram atraí-los para os seus quadros. Ao que tudo indica, eles estavam interessados nos eventuais votos que poderiam ser conseguidos no meio negro”.2VALENTE, op. cit., p.44.

Com um discurso repetido hoje acerca dos evangélicos, para alguns militantes, os partidos desejavam apenas ter os negros como massa de manobra. Para outros, porém, a grande luta pelo voto de tal segmento racial significava um avanço de tal grupo étnico, já que a legitimação da cidadania dos negros e negras, denegada desde o processo de escravização dos mesmos, segundo Souza3SOUZA, Cleinton. Sim, somos racistas: análise sociológica do racismo à brasileira. Curitiba: Editora Appris, 2015., teria de obrigatoriamente passar por uma valoração do que os negros tinham a oferecer. Por isso, apesar das grandes divergências internas dos movimentos negros, a maioria entendeu que seria fundamental ocupar o espaço que estava sendo oferecido pelos partidos, exatamente como passou a acontecer com os adeptos das religiões evangélicas após os anos 1990, já que as reivindicações específicas de tal segmento racial pareciam depender de tais canais de expressão, tal como os acontece hoje com os evangélicos e sua bancada no Congresso.

Por conta disso, de forma entusiasmada, os militantes negros se lançaram à campanha e, segundo Valente, passaram a construir mecanismos ideológicos visando à mobilização de seu segmento racial e defendendo a existência do voto racial e da escolha por candidatos negros comprometidos com a questão racial, o que também se percebeu ulteriormente com os evangélicos. Além disso, e por conta do fracionamento imposto pela mudança para o sistema pluripartidário, os movimentos negros optaram pela construção de uma organização suprapartidária, no intuito de que essa organização agisse como um “grupo de pressão”, visando à concretização das reivindicações específicas da “comunidade negra”, já que a pulverização de candidatos negros em vários partidos poderia enfraquecer o movimento com um todo4Idem, p.46..

Em busca, pois, do voto de tal segmento racial, vários partidos lançaram candidatos negros, totalizando nas eleições paulistas de 1982 um contingente de 54 candidaturas negras, divididas em: 9 candidatos pelo PDS, 14 pelo PTB, 9 pelo PDT, 13 pelo PMDB e 9 pelo PT. Deste modo, embora a situação daquela época tenha contribuído com 16,7% dos candidatos negros, a oposição abarcou a expressiva cifra de 83,3% dos candidatos, o que alimentou a ideia e crença de que os negros devem atuar politicamente no que seria a oposição aos donos do poder, fazendo lembrar a tese de Amaury de Souza5SOUZA, Amaury de. Raça e política no Brasil urbano. Rio de Janeiro: Revista de Administração de Empresas, outubro-dezembro/1971, XI: 61-70. de que o voto negro é um voto eminentemente trabalhista, já que, se os candidatos negros estavam na esquerda, entre os chamados partidos populares, é para lá que deveriam seguir os votos das negras e negros brasileiros.

Para referendar tal tese, os resultados das eleições de 1982 são bastante significativos, pois os candidatos negros conseguiram 373.159 votos, sendo que o PDS (partido de situação e chamado “de elite”) conseguiu apenas 9, 5% dos votos dados aos seus candidatos negros, ao passo que o PTB conseguiu 11,2%, o PDT conseguiu 1,3%, o PMDB6É importante lembrar que o PMDB da época era fruto do MDB, um partido eminentemente popular e de oposição, um partido considerado de esquerda mesmo. conseguiu 54,7% e o PT conseguiu obter 23,3%. Assim, é possível explorar a articulação das teses de Amaury de Souza e Ana Lúcia Valente, uma vez que na oposição os candidatos negros obtiveram 90,5% dos votos, enquanto que na situação, obtiveram apenas 9,5%.7Idem, p.76.

Mesmo com números que parecem expressivos, dos 54 candidatos negros, apenas 2 conseguiram ser eleitos, sendo ambos do PMDB: Benedito Cintra, deputado estadual, e José Maria Rodrigues Alves, vereador. Curiosamente, não tiveram como base eleitoral o segmento racial, visto que suas propostas políticas, segundo Valente, focavam a população em geral, embora Benedito Cintra estivesse ligado à FRENAPO. O candidato, refutando a articulação com a raça, disse que foi eleito para atender aos pobres em geral, já que suas bases de campanha foram as portas de fábricas e as periferias da cidade.8VALENTE, 1986:77.

Já José Maria Rodrigues Alves, reconhecidamente negro, teria sido eleito por conta de ser popular nos meios esportivos como jogador de futebol, o Zé Maria, do Corinthians. Sua plataforma política não era racializada, uma vez que o foco de sua campanha foi a ocupação dos espaços vazios da cidade com quadras esportivas para a população. Assim, como Mário Américo, ex-massagista da seleção brasileira de futebol, José Maria Rodrigues Alves teve um trunfo que dispensava a racialização do voto, que, curiosamente, pareceu não funcionar em 1982.9Idem, p.78.

Por conta do insucesso dos candidatos negros, o Movimento Negro buscou explicações, chegando à conclusão de que: 1) houve vinculação e manipulação dos votos; 2) os candidatos negros não tinham condições financeiras para uma campanha; 3) não havia proposta política clara, por conta da imaturidade e inexperiência dos candidatos; 4) houve boicote feito pelos próprios partidos; 5) existia um elitismo e academicismo do Movimento Negro, além de pouca atuação e trabalho contínuo com a comunidade negra; 6) o desmembramento dos candidatos negros entre os partidos atrapalhou; 7) havia desunião dos grupos negros em torno da questão política; 8) o discurso era demasiadamente específico, em muito desvinculado das questões políticas mais gerais; 9) negro não vota em negro.10Ibid., p.79.

Segundo Valente, a vinculação dos votos foi interpretada com uma medida casuística do governo, pretendendo com isso garantir uma vitória expressiva do PDS. Por essa medida, todos os candidatos escolhidos por um eleitor deveriam pertencer ao mesmo partido, caso contrário os votos seriam anulados. Assim, mesmo com os candidatos dos pequenos partidos tentando ensinar o preenchimento da cédula durante a campanha, tais partidos, com pouco dinheiro e pouca penetração no seu eleitorado, não tiveram como evitar um duro golpe da situação.

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A manipulação dos votos, por outro lado, também não era impossível de ter acontecido, pois em vários estados tinha ocorrido e São Paulo não teria nada de diferente para ser imune às fraudes. De todo modo, é importante também lembrar que tal movimento não prejudicava apenas os candidatos negros.

A inexperiência e o discurso muito desvinculado das questões mais gerais foram admitidos como empecilhos pelo próprio Movimento Negro – embora a maioria dos candidatos já tivesse participado tanto do Movimento quanto de eleições anteriores, o que acabou por mostrar que a inexperiência apontada era mais uma ingenuidade e um desconhecimento do jogo político.

Para além disso tudo, e também para justificar uma das conclusões apontadas pelo Movimento Negro, segundo Valente, “estudiosos apontam que entre os negros há uma ideia de que os maiores inimigos dos negros são os próprios negros”. Assim, tal crença explicaria a prática política de negro não votar em negro, uma das mais duras conclusões a que chegou o Movimento Negro após o pleito de 1982.11Ibidem, p.82.

Focando especificamente no candidato que mais lançou mão da questão racial naquela eleição, Ana Lúcia Valente aponta para Milton Barbosa, candidato a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, que, focando reformas estruturais na base da sociedade, acabou por não conquistar um bom número de votos, já que os negros brasileiros, segundo aquela autora, têm receio de um discurso que aponta apenas nessa direção, uma vez que posições “radicais” não encantam a maior parcela do eleitorado negro, visto que estes indivíduos optaram pela acomodação, e não pela revolução estrutural, como técnica de conquista social.12VALENTE, op. cit., p.83.

Por conta de tais resultados, Valente defende que, dentro ou fora da estrutura partidária, a questão negra não pode se resumir a uma discussão de uma causa de natureza apenas racial, já que a complexidade da questão clama por outros níveis de elaboração ideológica, partidária ou não. Por conta disso, a autora defende que é no nível do discurso ideológico que as melhores explicações para o insucesso dos candidatos negros deveriam ser buscadas. O mesmo, obviamente, deverá ser pensado acerca do movimento evangélico e sua relação com as próximas eleições.

Assim, num universo de 540 negros e negras entrevistados, 76,9% não votaram em candidatos negros, o que referendou a tese de Valente que mostra que negro não vota em negro, bem como a de José Arthur Gianotti, que defende que “muitos poucos confiam e votam em pessoas iguais a elas próprias” 13GIANOTTI apud VALENTE, op. cit., p.94.. Já entre os que votaram em candidatos negros, as explicações foram: identificação racial (29,6%), por serem “bons candidatos” (20,0%) e por conhecerem os candidatos (24,0%), o que demonstra o caráter personalista do voto.

A autora mostra que 415 negros de sua amostra não votaram em candidatos negros. Dentre eles, 166 (40%) afirmaram que não conheciam tais candidatos e 79 (19%) afirmaram que não tiveram um motivo especial para não terem votado em negro. Deste modo, se somados esses números absolutos aos 125 que votaram em negros, chegar-se-á a uma cifra de 370 indivíduos. Por esta linha de pensar, se um trabalho organizado de orientação do voto negro tivesse sido feito, como era a proposta inicial do Movimento, 65,5% dos negros desta amostra teriam provavelmente votado em candidatos negros. No entanto, como bem mostra Valente, para que isso acontecesse, “seria necessário que a distância entre militantes e bases fosse diminuída, o que, entre outras coisas, significa que militantes negros deveriam lidar com conceitos mais conhecidos da grande massa negra”. 14VALENTE, op. cit., p.96.

À luz do acima exposto quanto à questão racial, é também interessante esperar o que se pode ter com as próximas eleições, a fim de que, ainda sob o calor do bolnonarismo religioso, possamos verificar se evangélico vota em evangélico, guardando que, para que se possa esperar novo êxito eleitoral para tal segmento religioso, será necessário que haja um conhecimento a respeito do candidato (e nisso caberá um importante papel das igrejas), um motivo especial para que evangélicos votem em evangélico (no que os líderes ajudarão bastante, além do uso das redes sociais virtuais e dos discursos de caráter messiânico) e, por último, mas não menos importante, que os conceitos utilizados pela liderança política sejam conhecidos da grande massa de votantes evangélicos, algo em que os políticos com tais discursos, indivíduos bastante voltados à comunicação de massa, parecem dominar bem.


Notas

  • 1
    VALENTE, Ana Lúcia Eduardo Farah. Política e relações raciais: o negro e as eleições paulistas de 1982. São Paulo: FFLCH/USP, 1986.
  • 2
    VALENTE, op. cit., p.44.
  • 3
    SOUZA, Cleinton. Sim, somos racistas: análise sociológica do racismo à brasileira. Curitiba: Editora Appris, 2015.
  • 4
    Idem, p.46.
  • 5
    SOUZA, Amaury de. Raça e política no Brasil urbano. Rio de Janeiro: Revista de Administração de Empresas, outubro-dezembro/1971, XI: 61-70.
  • 6
    É importante lembrar que o PMDB da época era fruto do MDB, um partido eminentemente popular e de oposição, um partido considerado de esquerda mesmo.
  • 7
    Idem, p.76.
  • 8
    VALENTE, 1986:77.
  • 9
    Idem, p.78.
  • 10
    Ibid., p.79.
  • 11
    Ibidem, p.82.
  • 12
    VALENTE, op. cit., p.83.
  • 13
    GIANOTTI apud VALENTE, op. cit., p.94.
  • 14
    VALENTE, op. cit., p.96.