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Editorial 16ª Edição

Editorial 16ª Edição
15 de maio de 2020 Dalvani Fernandes

Sagrado é uma ideia envolta em mistério que permeia a consciência da humanidade, passível de se projetar naquilo que chamamos de Espaço Sagrado. Há inúmeras concepções para o sagrado, tanto quanto para espaço. O conjunto de textos aqui reunidos é resultado das reflexões de pesquisadores e pesquisadoras que se debruçam sobre esses temas.

Você terá oportunidade nessa breve apresentação de espiar o que cada um desses pensadores e pensadoras preparou para o Dossiê Espaço Sagrado.

Iniciamos a viagem pelo Dossiê com o texto de Sylvio Fausto Gil Filho que enriquece nossa discussão epistemológica apresentando diferentes concepções de espaço sagrado. Nessa revisão nos é apresentado a perspectiva de Mircea Eliade, Rudolf Otto e Ernst Cassirer. “A religião como fornecedora de sentido ao mundo é condição do cunho estruturante da realidade,” aponta o autor.

Seguindo essa linha investigativa “Espaço Sagrado”, temos a contribuição de Clevisson J. Pereira que aponta que “o espaço sagrado é um dos elementos mais evidentes da religião. Seja por sua aparente expressão visual, contemplativa e quase sempre material; ou por sua inerente dimensão existencial e por vezes, inclusive, devocional.”

Edile Maria Fracaro Rodrigues, escreveu sobre “Espaços sagrados – possibilidades de leitura das cidades”, para ela “a leitura do Sagrado é a leitura do cotidiano e nesse contexto, então, é preciso propor o exercício de não somente ler o religioso, mas ler o ser humano em sua diversidade de manifestações. Uma leitura que permita ir além da superfície das coisas, acontecimentos, gestos, ritos, normas e formulações, para uma profunda compreensão da realidade da humanidade, da cultura e da cidade.”

Temos aqui também recortes mais específicos, como no texto “Fé Bahá’i: uma religião moderna”, no qual Emerli Schlögl traça os contornos de um espaço sagrado concebido no Oriente Médio onde se projetam os princípios da igualdade entre os gêneros e a crença de que “Deus é um só para toda a humanidade, porém aparece com nomes diferentes em diversas culturas do mundo.”

A geografia desse dossiê nos possibilita uma viagem do Oriente Médio até a ancestralidade da África-mãe. Daniela Calvo e Marcelo dos Santos Monteiro nos trazem “a sacralidade da natureza e a sacralização do espaço no Candomblé”, onde aṣẹ (axé) e sagrado se misturam construindo um espaço onde o mundo físico (aiyé) e o mundo espiritual (òrun) se tocam. Nesse texto você aprenderá que “o terreiro de candomblé é o principal espaço de reterritorialização da memória dos afro-descendentes, onde são transmitidos e mantidos vivos valores, conhecimentos, práticas e formas de viver”.  Seguindo o fluxo do axé, Jefferson Olivatto da Silva se concentra na potencialidade educativa das narrativas candomblecistas. No texto, poderemos compreender “que a vivacidade do Candomblé estrutura suas dimensões religiosas, respondendo por aprendizagens conforme as demandas sociais e da rede de apoio do Movimento Negro.” Ainda no ritmo africano, Francesca Bassi fala dos terreiros de Candomblé como espaços de axé, “os terreiros de Candomblé se reconhecem pela bandeira branca, que sinaliza de longe a moradia dos orixás. Chamados também de ilê axé (casa do axé, isto é, casa do poder ‘sagrado’)”. É nessa casa onde o saber ancestral se renova, o espaço sagrado transborda para narrativas, corpos e gestos dos filhos e filhas de santo.

A cartografia do sagrado impressa neste dossiê, nos leva a navegar até as “Práticas e Representações no Espiritismo Brasileiro”, escrito por Cleusa Maria Fuckner onde aprendemos que “a prática espírita se concentra em ações como palestras públicas, o passe mediúnico, o uso da água fluidificada, os grupos de estudo e ação na área da saúde, tanto que existem associações de médicos espíritas de caráter nacional, bem como representações em outros segmentos profissionais.”

Marcando território, Lourival Andrade Júnior demarca em seu texto que Umbanda, também pode ser entendida como Umbandas, no plural, trata-se de “uma religião híbrida por ser constituída por práticas religiosas que também fazem parte dos ritos e crenças de outras matrizes religiosas.”

Nessa espacialidade religiosa brasileira, faz-se necessário falarmos e refletirmos também sobre os cristãos e sua influência no arranjo social. Para isso entra em cena Diogo da Silva Cardoso falando sobre as ondas de secularização no movimento evangélico brasileiro.  Em sua análise mostra as nuances por trás desse movimento indicando uma epistemologia da complexidade para melhor compreendê-lo e dessa forma pensar também as dinâmicas da nossa sociedade tão plural.

Marcos Torres contribui com sua reflexão sobre “A música e a espacialidade religiosa”, apontando caminhos que indicam que “o gospel aproxima a música religiosa cristã da música secular, tornando-o popular e inserindo a narrativa religiosa em diferentes lugares para além dos templos.”

Taciane Jaluska, aparece com dois trabalhos. O primeiro é “Experiências de aprendizado por meio da arte de Cláudio Pastro no espaço sagrado de Aparecida/SP”, onde abordará as contribuições da arte na espacialidade do sagrado. Em seu segundo texto, “O uso do espaço sagrado para a formação continuada de professores na secretaria municipal de educação de Curitiba”, a autora enfatiza o turismo educacional “como instrumento e estratégia para a construção do conhecimento no Ensino Religioso do Brasil.”

Dátames Acastro Egg Segundo, por sua vez, faz uma abordagem singular. Ele pesquisou “Os evangélicos e as crianças bruxas da Nigéria”, seu texto chega a ser emocionante pois projeta diante de nossos olhos a seguinte realidade “em casos mais graves, crianças estigmatizadas são jogadas vivas em fogueiras, queimadas com ácido, espancadas com paus, canos, ou mesmo mortas a pauladas ou golpes de facão”. Segundo o autor “a estigmatização de crianças permanece, assim como o silêncio da comunidade cristã ao redor do mundo, com raras e louváveis exceções.”

Das tragédias para os transes, explorando o dossiê vamos parar no texto de Vladimir Luís de Oliveira, “O Transe, a Loucura Sagrada e os Estados Místicos de Consciência”, sua reflexão nos impele a pensar sobre o porquê “setores tradicionais das religiões são recalcitrantes ao imperativo da ampliação de vivências do sagrado fora dos limites institucionais.”

Após visitar todos os textos convido você leitor e leitora para uma espiada na aula que preparamos, o tema escolhido foi: “Espaço Sagrado e Fundamentalismo Religioso”. Uma aula pensada para gerar reflexão, trata-se de uma pequena contribuição para focarmos mais naquilo que nos une, do que aquilo que nos separa.

Nesta edição um espaço para o sagrado se abre diante dos seus olhos. Sente-se confortavelmente e descubra seus mistérios. Boa leitura!

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