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Cura gay? Religião e Tortura Psicológica

Cura gay? Religião e Tortura Psicológica

É comum ouvirmos de algumas pessoas que religião é algo que não se discute e que isso faz parte do foro íntimo de cada pessoa e comunidade de fé. Essa compreensão conduziu e ainda tem conduzido a opressões, práticas fundamentalistas e até à morte.

A religião, enquanto modus operandi de parte da sociedade, está presente e influencia a vida privada e pública. Está presente na política, no judiciário, no executivo, no legislativo, na educação, na saúde, na academia, na mesa de jantar, na relação sexual, nos bares, no whatsapp, em tantos outros lugares.

A Senso vem construindo, há mais de quatro anos, um point de diálogo com pesquisadoras e pesquisares, religiosos e não religiosos, buscando formas de compreender as diversas formas de crer e não crer e, dessa forma, construir pontes de diálogo, superação de intolerâncias e construção de uma cultura de paz.

Aqui, na Senso, a partir dos Estudos da Religião sob o olhar de múltiplas áreas do saber, com ênfase nas Ciências da religião, assumimos nossa responsabilidade como habilidade resposta para o bem viver, como escrito no texto de Alexandre Oviedo Gonçalves, nesta edição.

Como possibilidade de concretização dessa responsabilidade, trazemos para o público, no mês da visibilidade LGBTIA+, um dossiê que se propõe a pensar as religiões a partir de sua ambiguidade de libertadora e opressora das diversas maneiras de se vivenciar as sexualidades, gêneros e modos de ser. Privilegiamos na edição não somente propostas teóricas, a partir de pessoas envolvidas na academia, mas trouxemos, também relatos que ajudarão às leitoras e aos leitores a compreender essa ambiguidade.

Além de estarmos no mês da visibilidade LGBTIA+, a pertinência do presente dossiê também se justifica diante do cenário nacional. Um genocida LGBTfóbico na presidência, um serial killer preso por assassinar homens gays, um jovem estuprado e tatuado com frases homofóbicas, além da morte do ator Paulo Gustavo, pela qual um pastor orou. Diante disso, ressoa em nossos ouvidos como algum alento o questionamento do teólogo Marcelo Barros, “Como pode não estar com a mente doente um pastor que diz orar pela morte do ator Paulo Gustavo, ainda imaginando estar defendendo a causa de Deus?”. Este é um pouco desse cenário ambíguo: uma mão abençoa, a outra amaldiçoa.

É nessa arena de ambiguidade que a edição aprofunda o diálogo sobre o que ficou popularmente conhecido como “Cura Gay” e apresenta a relação entre “Religião e Tortura psicológica”.  Aqui não se trata de fazer apologia a qualquer postura de crença ou de não crença, mas compreender como as religiões podem ser instrumentos de opressão ou libertação e ser para a leitora e para o leitor uma possibilidade de interpretar essa realidade.

Diante desse cenário de ambiguidade, de uma necropolítica, de um governo genocida, de uma sociedade LGBTfóbica, cabe a nós resistir. Recordando aqui o ator, o qual homenageamos, bem como as diversas pessoas LGBTIA+ que tombaram diante da violência e do preconceito, queremos reafirmar, para nos esperançar: “Rir é um ato de resistência. […] a gente não vai deixar de sorrir, não vai deixar de ter esperança. Contra o preconceito, a mentira, a tristeza, já existe vacina. É o afeto, é o amor.”

Trazer as pessoas LGBTIA+ para a cena da reflexão, visibilizar suas lutas, suas vidas, é gesto revolucionário, como afirmamos em alguns de nossos editoriais. E para fechar – sim, porque fechação faz parte de nossa realidade – “eles não vão vencer, e nada há de ser em vão”, como canta Jhonny Hooker.


TEXTOS

Denunciando o que não é legal e assassina sorrisos: Por uma Psicologia da Diversidade Sexual

A “cura gay” na cultura das identidades e os discursos soft de redução da subjetividade

A cura pelo diálogo

Tentativas religiosas de repressão da sexualidade e as terapias de conversão

Para além da cura e da medicalização – direito, justiça e vida digna na vivência da diversidade sexual e de gênero, em nome de Jesus!

Que tipo de cura pode curar quem quer curar gay? A profecia do cuidado LGBTQI+

LGBTIQ+: como o budismo reage a esse assunto?

Nosso Lar É No Arco-íris – A Trajetória das LGBTQIAP+ no Espiritismo

Candomblé: Corpos, orientação sexual e fé

SENSO INDICA – Terra sem pecado: documentário de egressos mostra realidade de indígenas LGBTQ+

Quem, de fato, precisa ser curado/a? Reflexões sobre a construção do inimigo pelo heteroterrorismo

A patologização do corpo não heteronormativo em um cenário de violências

A tal da cura gay e o discurso político-religioso

Afinal, o que estão dizendo quando falam em ‘cura gay’?

Igreja des/viada: breve narrativa sobre a fundação das Igrejas da Comunidade Metropolitana

Diversidade Sexual e de Gênero e Diversidade Religiosa

E o ódio? Tem cura?

Judaísmo e Homossexualidade na Antiguidade e na Contemporaneidade

Um ensaio sobre a psicologia, LGBTIS e a cena evangélica brasileira

RELATOS

O Exorcismo de Oliver Black (ou quase isso) – um relato LGBT+

O que você tem é casta maligna – Da demonização à identidade trans. O que a religião tem a ver com isso?

Preciso de mais espaço dentro de mim

“Ninguém manda nessa raba”: a fronteira entre a mulher de pau e a mulher de vagina

 leia também

Agasalho Colorido

A minha oração era simplesmente: “me liberta ou me mata”

Wicca: Saindo do armário com a vassoura em uma mão e a bandeira do arco-íris na outra

Umbanda e orientação sexual: Uma decisão própria!

Umbanda: a arte de curar

Budismo: Relato de um cidadão gay cis

Entre o Arco-íris e a estrela de David: Como viver um judaísmo LGBT sem contradições

Eu e minha professora de religião.

Entre saias e saberes, rondas e rodas sociais

Sou Bissexual: relato de uma estudante do colégio adventista

Neopaganismo, espiritualidade filosófica para todxs

A centésima ovelha

Da morte para a vida: a autoaceitação de um bissexual e sua transição de uma igreja evangélica para um terreiro de umbanda

Experiência de um pastor gay

Querida igreja, eu sou Jonathan e quero dizer que nós existimos

Ser religioso e LGBTI, é possível no budismo?