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Nossa Senhora do Rosário é a luz que alumeia o mar de kaiaia

Nossa Senhora do Rosário é a luz que alumeia o mar de kaiaia
19 de março de 2020 Ana Luzia da Silva Morais

Quem é este povo negro coroado que leva um rosário de contas de lágrima no peito, que diz trabalhar noite e dia, subindo morro e descendo ladeira tocando tambor, ganzá (Instrumento de percussão tocado com as mãos pelos dançadores do terno de Catopé.), gunga (Instrumento de percussão tocado com os pés pelos dançadores do terno de massambique) e patangome (Instrumento de percussão tocado com as mãos pelos dançadores de massambique)? Por que venceu a escravidão, rompendo a travessia do Atlântico, a Colônia, o Império, chegando na República e ainda resiste? Muitas questões são levantadas acerca da Festa do Rosário e mediante à complexidade de tais questões, não pretendemos responder a cada uma delas, mas levantar e discutir alguns elementos históricos e religiosos que fazem dessa festa uma importante manifestação cultural e religiosa do povo negro em Minas Gerais.

Os negros que deram origem à Festa de Nossa Senhora do Rosário em Minas, eram a maioria de origem bantu, originários do sul da África principalmente de Angola, Congo e Moçambique. Para Guilherme Monteiro na obra A origem e o povoamento dos Bakongos em Angola (2014), os bantu são povos generalizados das regiões dos grandes lagos e tem tradições de origem nórdica que possuíam o segredo do ferro.  Esses povos antes mesmo da colonização e da diáspora negra, eram povos pluralmente formados e influenciados por várias culturas diferentes. Para Linda Heywood na obra Diáspora Negra no Brasil (2019), o processo de crioulização proporcionou a interpenetração religiosa da cultura centro-africana durante o século XVIII, e essas regiões foram habilidosas em integrar seletivamente elementos da cultura europeia e como isso resultou também na africanização dos colonizadores portugueses.

Foto: Sidney de Almeida – Prefeitura de Oliveira MG

Esses negros Reinadeiros de origem bantu, souberam com maestria manter a tradição oral do seu povo, pois ela ensina, transmite a essência, fixa e forma toda filosofia do africano. A história da aparição de Nossa Senhora do Rosário transmitida oralmente entre as gerações é o conto fundante da fé dos Reinadeiros.  Esse conto não é reconhecido oficialmente pela Igreja Católica, e ele fala justamente de uma santa que apareceu no mar e que aceitou o negro da forma como ele sabia se comunicar com a divindade, cantando, dançando e tocando seus tambores. Em Oliveira (MG), a Doutora em saberes tradicionais e Capitã do terno de Massambique de Nossa Senhora das Mercês Pedrina de Lourdes Santos conta que ouvia de seu Pai, o velho Capitão Leonídio, a seguinte narrativa:  A época da escravidão, Nossa Senhora apareceu. Os brancos, por várias vezes, tentaram levar a imagem até a igreja, com procissão e banda de música. Iam, mas no outro dia a imagem estava lá no mesmo lugar da aparição. Até que um terno de negros (o termo é da época da escravidão, em que se vendiam os negros em leilão público e anunciavam, “aqui tem um terno de negros vindos de tal região africana…”) se ofereceram para buscar a imagem, com seus tambores, cantos e danças. Foram ameaçados por seu Senhor, que achava que queriam mesmo era se livrarem da labuta. Os negros disseram que caso não obtivessem sucesso, não temeriam o chicote no lombo. E lá foram os negros, dançando o massambique, com suas roupas simples, pés no chão, seus tambores, seus cantos, sua dança. Nossa Senhora gostou e os acompanhou e ficou na Igreja e por isso que o massambique escolta coroa.

Que Nossa Senhora é essa que aceitou o negro escravizado? Que Nossa Senhora é essa que saiu do mar, assentou em tambor e aceitou ir para a igreja só com os negros? Certamente, na visão do negro africano é uma santa muito diferente daquela propagada pelo colonizador. Nos processos de estruturação do catolicismo popular no Brasil, a Mãe d’água se torna também Nossa Senhora com seus vários títulos variando de região. Edison Carneiro (1991) ao analisar os estudos de Manuel Querino, evidencia que o culto a Iemanjá é equivalente à Senhora do Rosário e que essa associação tem desaparecido das manifestações religiosas dedicadas a santa virgem com essa titulação. Bárbara Altivo, em sua tese Rosário dos Kamburekos – Espirais de cura da ferida colonial pelas crianças negras no reinadinho (Oliveira-MG),(2019), explica que na perspectiva da capitã (Pedrina) o Reinado é um grande trabalho espiritual que realiza o cortejo dos mi’nkisi de África: Nossa Senhora do Rosário, também chamada de Santa Manganá, é Kaiaia/Iemanjá…  Parece-nos que essa Nossa Senhora do povo bantu ama e aceita todos os seus filhos, independente da sua crença e etnia. Essa santa que apareceu no mar aos negros, não anda sozinha pois aceitou caminhar com as divindades da natureza para a sobrevivência e vivência em plenitude de seus filhos.

Entendemos que existe dentro da Festa do Rosário ternos que consideram a festa unicamente católica, por isso negam ou desconhecem qualquer relação ancestral ao culto a Nossa Senhora e outros que fazem questão de mostrar e deixar evidente a presença ancestral africana e de outras culturas religiosas que a constituíram. Para Talita Viana e Sebastião Rios (2016), ao analisarem o projeto Memórias e cantos do Moçambique do Tonho Pretinho da cidade de Itapecerica (MG), o projeto visou explicitamente enfrentar um problema muito comum com respeito às percepções externas sobre o congado, que terminaram por deixá-lo “sem lugar no mundo”. Para eles, o clero romano muitas vezes vê o Congado como uma prática sincrética e alguns movimentos negros vinculados principalmente ao Kandomblé Ketu não percebem o congado como religião afro-brasileira por entender que ela seria apenas católica.

Esse povo de Rosário que se considera Reinadeiro e Congadeiro, é hoje um povo pluralmente religioso, que realiza um trabalho espiritual em louvor a Nzambi, a Nossa Senhora do Rosário, aos santos padroeiros e aos Nkisi, por meio da orientação da ancestralidade. Individualmente, cada Reinadeiro e Congadeira vivem os seus conflitos e seus processos de identificação com essa ancestralidade, esses conflitos refletem no grupo que tem na sua história memórias de proibições da Festa por parte da Igreja Católica. O mais rico e importante da Festa do Rosário é a prática espiritual comum de pessoas de diferentes crenças religiosas que se consideram Reinadeiros e Congadeiros, que estão em processo de restabelecer suas fronteiras com as raízes ancestrais, em trabalho pela liberdade dos negros e pela liberdade de todos aqueles que se sentem chamados pelo soar dos tambores, por isso a festa resiste ao tempo, aos conflitos, a toda violência e intolerância.

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