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Religião e festividade no distrito rural do Maruanum

Religião e festividade no distrito rural do Maruanum
26 de novembro de 2019 Ana Cristina de Paula Maués Soares

O trabalho teve como objetivo  investigar os aspectos religiosos presente no distrito rural do Maruanum. Os dados foram coletados através do levantamento de fontes documentais e pesquisa de campo, com visitas ao distrito do Maruanum. A técnica adotada foi a aplicação de formulários com perguntas abertas e fechadas realizadas com treze informantes moradores do locus da pesquisa.

Foto: André Rodrigues/ Secom Portal AP

A intenção do trabalho é a de contribuir para a análise sociológica do fenômeno religioso em Macapá, em especial no distrito de Maruanum, tendo em vista que este espaço se destaca por apresentar pouca produção científica do conhecimento.

Este trabalho está estruturado em quatro itens: O primeiro é esta introdução; o segundo apresentar o lócus  de observação, o distrito rural do Maruanum, examinando alguns aspectos históricos do espaço da pesquisa; o terceiro tópico apresenta os dados pesquisa, tratando dos aspectos religiosos do Maruanum e o quarto se estabelece as considerações finais.

 O DISTRITO RURAL DO MARUANUM

O Distrito do Maruanum reside uma comunidade originária de remanescentes de quilombo, da época do Brasil Colônia, pessoas afrodescendentes que representam um contexto cultural e ecológico muito rico, integrado as belezas exuberantes da Amazônia. Quanto a origem do nome Maruanum há várias versões sobre a origem, todas elas produzidas pelas pessoas da região, versões adquiridas e passadas pela transmissão oral de seus moradores.

De acordo com Arcangelo (2011), a origem do vocábulo Maruanum, não se encontra em qualquer literatura do planeta, porém é reproduzida pelos moradores da comunidade, através de uma lenda, cuja a qual contam que os primeiros moradores do local, eram um casal de índios denominados de Maru e Anum.

O acesso ao distrito acontece de duas formas: via terrestre, pela rodovia – Br 156, que interliga Macapá à Laranjal do Jari e via fluvial através do Rio Maruanum, um dos braços do Rio Matapi.

FALAM OS DADOS

Ao elaboramos um trabalho acadêmico é importante relatar o processo que permitiu sua realização. Faz-se necessário salientar que o ofício do cientista social é árduo, pois o material utilizado na construção de trabalhos acadêmicos, não é ―fixo‖ e nem ―estável‖ aguardando para serem coletados e analisados. Muito pelo contrário, a realidade social é complexa e composta pelo um emaranhado de teias de significados, como afirma Max Weber (1999, p. 93):

O traço distintivo das ciências do homem em relação às ciências da natureza é dela se confrontar a seres conscientes que agem em função de valores, de crenças, de representações, de cálculos e que não se limitam a reagir aos estímulos do meio ambiente.

Max Weber evidencia o ato de compreender como atitude que exige uma interpretação que vai além da simples observação empírica, indo em direção de uma reconstrução interior e buscar o ―sentido da ação em questão.

Desta forma, no presente estudo optou-se pelo uso da metodologia qualitativa e também quantitativa. O estudo implicou em construir as observações de campo em associação com dados secundários advindos de outras contribuições acadêmicas, que têm se debruçado sobre temas complementares como religião e cultura no Brasil e na Amazônia.

O trabalho de campo ocorreu nos meses agosto e setembro de 2012, em que foram entrevistadas 13 mulheres participantes e não participantes de organizações e movimentos sociais.  As técnicas de pesquisa foram da observação direta  e de entrevistadas, nesta última  optou-se pela utilização do formulário, contendo perguntas abertas e fechadas.

A pesquisa revelou que no Maruanum há praticantes de religiões católica e da evangélica.  De acordo com os dados de campos,  92,3%dos moradores afirmaram que praticam a religião católica, 7, 7%, evangélica.

Os rituais religiosos e celebrações na igreja católica acontecem sempre aos domingos pela manhã. Na Igreja evangélica há mais frequência de encontros semanais e geralmente os rituais ocorrem no horário da noite.

Entre as atividades festivas foi possível observa que no cotidiano da comunidade há forte manifestações do catolicismo com as comemorações e festejos em homenagem aos santos da religião católicas, envolvendo rituais religiosos e danças típicas da região em estudo, como batuque e marabaixo, que representam formas culturais de afirmação da identidade negra e quilombola.

“No ciclo do Marabaixo”, os participantes da festa são de idades variadas, dançam em torno dos tocadores, cantando em coro o “ladrão [1]” ou o “refrão”, tirado por um cantador ou cantadora.

O marabaixo tem suas raízes no povo escravo negreiro e sua iniciação no período colonial. Documentos e relatos revelam que apesar do árduo trabalho realizado, os negros não abrandavam e encontravam nessa manifestação cultural uma forma de superar a tristeza, o cansaço e a saudade que sentiam de sua pátria africana e principalmente da sua condição de homem e mulher livre. Na dança do marabaixo, os movimentos e os passos rítmicos são lentos assemelhando ao arrastar dos pés presos pelas correntes da escravidão, o canto se configura em lamentos do cotidiano e recordações nostálgicas da África.

O marabaixo significa uma manifestação católica popular, que ocorre sem intervenção do catolicismo oficial ( OLIVEIRA, 1999). E de acordo com Maués ( 1995), na Amazônia há o predomínio da religião católica, fruto da presença dos jesuítas na época do Brasil Colônia, mas as superstições e as crendices também ocupam espaços importante no cotidiano dos povo da Amazônia, legados da raça indígena e negra que viveram e vivem na região.

A composição do marabaixo contém ladainha, missas, danças, cantorias, bebidas e comida típicas.  Na visão de Videira (2006) é um ritual transmitido pela oralidade dos moradores mais antigos para os mais jovens, em que as mulheres ocupam a posição de dançadeira e cantadeira ( além de assumirem a responsabilidade com alimento servido na festa), quanto aos homens cabe a tarefa de tocar as caixas, dançarem e alguns cantam o ladrão  de marabaixo.

No ciclo de ocupação do vilarejo temos as comemorações litúrgicas do catolicismo, tendo como santo mais comemorado Santa Luzia e a sua festividade ocorre no dia 13 de dezembro, com cânticos acompanhados de procissão, são rituais onde a música atua como meio de oração, hasteamento do mastro [2] e lazer. Há outros Santos adorados na comunidade com São Raimundo, Santo Antonio, Nossa Senhora da Conceição e Santa Ana dentre outros. Sendo expressão de concepções coletivas de uma rotina ritualizada.

De acordo com relatos de moradores, as festividades são organizadas por lideranças locais da igreja católica. As festividades têm duração de dois dias e a comunidade receber os convidados, durante o período de comemoração são oferecidos jantares reforçados para dar energia aos participantes do evento. Observou-se que o marabaixo não representa apenas o espaço da fé e da oração, mas, também, do encontro, do entretenimento feminino e da valorização da identidade cultural.

Além da religião católica, há na comunidade 7,7%  de informantes que são praticantes da religião evangélica.  Os membros da igreja evangélica se reúnem inúmeras vezes durante a semana.

Os rituais na religião evangélica mais expressivos, de acordo com informantes, são o batismo e a ceia. O batismo é o ritual de purificação onde a pessoa se compromete a viver de acordo com as regras daquele grupo. A ceia é o momento que remete à lembrança da última ceia vivida por Jesus Cristo, onde o pastor e as pessoas, chamadas de fiéis, comem pão e bebem o vinho em pequenas quantidades. A ceia geralmente ocorre uma vez por mês. Nas reuniões, chamadas de cultos, as pessoas cantam e frequentemente fazem leituras da bíblia.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O distrito rural do maruanum é um espaço originário de remanescentes de quilombo, da época do Brasil Colônia, pessoas afrodescendentes que em sua maioria professam a religião católica. Homens e mulheres que trabalham juntos durante as festividades e as cerimônias religiosas, com atenção especial aos grupos de marabaixo que são organizados para as comemorações de santos católicos e para a valorização da identidade afrodescendente  com costumes, tradições, hábitos, ideias e sentimento de pertencer ao povo africano.

Notas

[1] De acordo Videira(2006), os ladões do Marabaixo são rimas e versos improvisados que embalam o marabaixo.
[2] O mastro é feito de madeira vinda da mata e pitando com as cores da Santa Luzia.

Referências

ARCÂNGELO, José. Carmo do Maru Anum. Revista Nossa Gente. ed.08. out., Macapá, AP, 2011.
MAUÉS, R. H. Padres, pajés, santos e festas: catolicismo popular e controle eclesiástico. Belém: Cejup, 1995.
OLIVEIRA. M.S.S.. Religiosidade popular em comunidades estuarinas amazônicas: um estudo preliminar do marabaixo no Amapá. Scripta: Nova: Revista Electrónica de Geografía y Ciencias Sociales da Universidad de Barcelona, v. 45, n. 49, 1 de agosto de 1999. Disponível em : www.ub.edu.
VIDEIRA, P. L. . A Dança do Marabaixo: Expressão da Cultura Afroamapaense. In: MATOS, Kelma Socorro Lopes de (Org.). Cultura de Paz, Educação Ambiental e Movimentos Sociais: Ações com Sensibilidade. Fortaleza: Expressão Gráfica, 2006, v. 1, p. 17-273.
WEBER, M. Economia e Sociedade. Brasília: UnB, 1999.

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