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Ambiguidades pandêmicas: Pensar a morte e a vida, repensar as relações

Ambiguidades pandêmicas: Pensar a morte e a vida, repensar as relações
12 de agosto de 2020 José Reinaldo F. Martins Filho

A tragédia não é quando um homem morre.

A tragédia é o que morre dentro de um homem

enquanto ele ainda está vivo.

(Albert Schweitzer)

 

 Rompemos os limites do novo ano que se iniciou repletos de coragem e otimismo para superarmos as dificuldades que se impusessem, singrando a novos patamares de qualidade e de comprometimento com a nossa função em meio à sociedade, aos papeis que desempenhamos no interior dos pequenos grupos aos quais estamos inseridos – a família, o trabalho, as relações de fraternidade e amizade –, na persecução de nossos propósitos e metas sempre renováveis (a ânsia por quilos a menos ou a mais, por novos hábitos alimentares ou de cuidado à saúde, sonhos e aspirações de toda sorte). Ao vislumbrarmos a divisa da segunda década do terceiro milênio, contudo, fomos surpreendidos por um cenário completamente atípico e fora de nosso controle: ameaçados pelo flagelo da peste onipresente, na iminência do colapso econômico com letalidade equivalente, afastados das ordinárias formas de apoio – sem a materialidade dos outros, expulsos dos espaços sagrados, derivantes na crença de propósito e de presença do grande Outro.

Tudo graças ao efeito nocivo de um vírus já conhecido, embora ignorado. A pandemia prevista, antevista e até esperada no último quarto de século, mas cuja concretização tomou de assalto até os mais previdentes. Para dizermos de forma mais objetiva: abateu-se sobre nós um fato. Curiosamente simples e translúcido. Cravado das características que lhe são atinentes, a irreversibilidade e a imprevisibilidade, sua condição de dado, de estabelecido, de feito. Quanto à sua duração, ainda não se pode dizer. Quais serão suas consequências, para bem ou para mal, tampouco se pode mensurar. Chegou sem ser convidado e insiste em permanecer, como visita malquerida, malogro lançado e fixado, insidia exitosa de que ninguém pode furtar-se.

Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

Cientificamente chamaram-no COVID-19, com referência à raiz genética da qual é derivado e ao ano em que se estabeleceu, recôndito e distante, em meio a populares do outro lado do mundo. Outros preferem tratá-lo da forma majestática pela qual também é conhecido, em polidos termos latinos, sempre grafados em itálico: Corona vírus. Em português claro, significa “vírus coroado”, recorrendo outra vez ao fato ante o qual ninguém expressa a menor indignação ou dúvida. Certamente destronou os demais males do último século, deixando sem tronos pequenos e grandes, massas regidas pela força ditatorial do povo/nação ou maiorias vangloriantes de liberdade de escolha e consumo. Todos, sob o mesmo jugo, devotados à soberania de quem chegou e assumiu o controle, armou a sua tenda e banqueteou-se de sua conquista: a humanidade, oferecida numa bandeja.

Também é verdade, porém, que, em tal estado de calamidade, há quem se saia melhor ou pior. Há quem se preste ao diálogo compreensivo, iluminado pela lucidez da razão, pela tomada de medidas sanitárias eficazes, resultantes da experiência dos que souberam aprender com seus próprios erros, de predomínio da pesquisa qualificada, de juízo assertivo. Concorrendo com o imperium hominium, profetizado por Bacon, com predomínio científico sobre a mera discursividade, há, todavia, o grupo dos que apostam na sentença já consolidada: “salve-se quem puder!” Esse se subdivide em duas seções prioritárias – notadamente, com suas respectivas nuances: a) os que confiam no poder do dinheiro, afiançam sua esperança nos bens que possuem, na possibilidade de ter a tempo e à hora a satisfação de suas urgências, como se o tal vírus estivesse disposto a alguma barganha; ou b) os que blasfemam os piores horrores contra os céus, relegando à força de intervenção divina a responsabilidade do mal que nos sobrevêm – e como sempre, pretendem-se de mãos limpas e coração puro, sem mover-se à esquerda ou à direita, esperando que o Altíssimo lhes caia sobre a cabeça.

Procurando no cenário mundial, exemplos diversificados não faltam. A princípio, exigiu-se a extinção dos facínoras carnívoros que há séculos se alimentam do extermínio de suas pobres vítimas – “comam pasto!”, bradavam enfurecidos os seus detratores. “Banhos a vapor e vodka”, testaram outros mais ao norte, para não perderem o deleite de seus pequenos prazeres cotidianos. Ocorre que, em nosso caso, vivemos no Brasil, e a “pátria amada” não se mostrou tão benevolente neste tempo de pandemia. A despeito do crescimento exponencial de casos letais, testemunhamos atônitos a consequente onda de abominações, seja no campo da administração geral, ou nalguns furtos e desvios descarados, distribuídos acolá por quem tem perícia na apropriação do bem alheio e, sendo lobo, mostra-se confortável em sua pele de cordeiro.

No alto patamar do poder executivo, um führer cujo potencial de liderança só pode ser comparado ao “moleque dono da bola”, figura tradicional nos internacionalmente conhecidos campeonatos de “pelada de rua”. Não bastasse os atropelos de sua inexperiência – já que a falta de inteligência não pode ser imputada como passível de responsabilização pelo sujeito: “O fardo nunca é maior que a carroça!”, dizem os antigos – também não soube servir-se de um qualificado cortejo de subalternos: note-se a dança das cadeiras na educação, a alternância de performances e expressões faciais na cultura, o jogo de deserção e suspeita na segurança, a oscilação temperamental dos colapsos nervosos na economia, o desequilíbrio de crenças e inexpressivo dom da vidência (se soubessem aproveitá-lo!) na cidadania e, como coroamento degenerado de tal estado absurdo, a vacância de gestão técnica na saúde em plena realidade pandêmica.

Sobre esse último aspecto, explicita-se o já prefigurado por Descartes nas primeiras páginas do seu famoso Discurso do método, no início do século XVII e considerado por muitos como fundador da modernidade: “bom senso é a coisa melhor distribuída no mundo, ao ponto de todos sempre pensarem ter o suficiente para si mesmos, desejando-o aos outros”. Aliás, é possível que o anúncio para candidatos à vaga de Ministro da Saúde no Brasil atual traga entre seus requisitos: “… – seja desprovido de bom senso e devotado a obstinações personalistas…”. Só isso explicaria o fato de que os que por ali passaram, minimamente dotados de autonomia fossem, o caminho da rua seria o seu único desfecho (foi assim com Mandetta, foi assim com Teich, seria assim com Ivanovski e Pasteur e, provavelmente, será assim com quem quer que seja). Enquanto isso, o estado de vacância e perpetuação da interinidade resta como único consolo do controle despótico, regado a coquetéis de cloroquina e ivermectina: conquanto morram os pobres diabos, morram com a barriga livre de vermes!

Ocorre que aqui não pretendo perder-me nem na análise, nem na descrição da absurda realidade política do Brasil atual, marcada pela mensuração de forças. Enquanto as entidades públicas se digladiam, fazendo do interesse comum e da prerrogativa de seus cargos o invólucro no qual camuflam suas reais intenções – interesses espúrios, moções egoístas –, o restante do país continua a sorver o amargo fluido da morte, fazendo com que nos tornemos epicentro de infectados e de vitimados. Até o momento em que escrevo este texto, beiramos o quantitativo de 80 mil óbitos, o que certamente será ultrapassado, a julgar por como tem sido conduzido caos social por aqui e o nosso senso de competitividade com o que há de pior no mundo. São perdas noticiadas de longe, mas também sentidas de perto, na dor de vizinhos e amigos, na falta de nosso próprio sangue.

A indiferença dos que a princípio lançaram dúvidas sobre os dados apresentados pelos noticiários, foi há muito substituída por nomes e sobrenomes, rostos, profissões, perfis individuais, ambições, projetos… Todos encerrados precocemente, seja em que etapa da vida estivessem – crianças, jovens, adultos e idosos. Famílias desfeitas, histórias interrompidas, corações e vidas que restaram em pedaços. E mesmo os sobreviventes, que com força sobre-humana atingiram o outro lado do fosso, para menos ou para mais, com o que poderão contar? Sua resistência terá valido à pena? A realidade que os espera é digna de ser vivida? Há reais garantias de bom êxito e solução definitiva, ou apenas a interrupção provisória de um ciclo que constantemente irá se repetir? Entre essas e outras, a emergência da situação permite que deixemos de lado a pandemia tomada unicamente em seu aspecto sanitário e reflitamos sobre seu alto potencial efetivo para repensarmos a condição humana, da qual também participamos.

Ao propor este conceito no início da segunda metade do século passado, imediatamente após o terrível episódio da II Guerra Mundial, Hannah Arendt, pensadora alemã, de origem judia, ajudou-nos a distinguir entre uma concepção de humanidade como projeto dado e acabado de uma vez por todas, e, em contrapartida, o entendimento de que o ser humano é, na verdade, uma condição, passível de uma série de contingências, de situações que fogem do seu controle, e, ainda assim, capaz da elaboração de um projeto grandioso no tocante à sua própria identidade e à construção do mundo comum. É verdade que a condição humana é uma dádiva, mas, para além da recepção gratuita que lhe é radicalmente adstrita, também permanece como o resultado de nossas iniciativas. Perguntar, portanto, pelos direcionamentos da moral e da ética é o mesmo que reaver a nossa condição: e o que estamos fazendo?

A resposta para essa demanda traz em si a chave para a leitura do rumo das sociedades no tempo presente, das eventuais consequências da crise atual num mundo pós pandemia, do legado positivo (e toda história sempre é construída sobre aspectos positivos e negativos) que deixaremos aos nossos sucessores. Não sem que nos deparemos com uma reflexão sobre quem nós somos e qual é o mundo que estamos construindo. Para mim, qualquer um dos direcionamentos tomados, quaisquer que sejam as variáveis, toda tentativa de resolução irá esbarrar na ambiguidade do que vivemos, na condição de ambiguidade como traço determinante da realidade pandêmica. Portanto, seguindo o fluxo do que disse até aqui, não pretendo construir um argumento teoricamente robusto, assegurado pela avaliação das diferentes categorias conceituais, pelo debate com meus pares e com outros autores pertinentes (o que deve estar sendo feito por alguém mais competente neste momento!). Apenas apresento a minha leitura pessoal do atual estado de coisas, ao qual me atrevo a referir sob o crivo de três ambiguidades – relacionadas entre si como os vértices de uma pirâmide.

Talvez o primeiro e mais importante vértice do colapso em que nos encontramos seja o da dimensão social-relacional. Digo o mais importante não para tentar diminuir o impacto dos dois outros, que talvez possuam as piores consequências em termos pragmáticos, mas porque, de acordo com o meu ponto de vista, os demais devem ser compreendidos como desdobramentos desse primeiro, que tomo por fundamental. Para mim, o primeiro impacto sentido pela pandemia do COVID-19 no Brasil deu-se no tocante às relações sociais. A relação intersubjetiva tem sido apontada pela psicologia, pela educação, pela sociologia, ou, mesmo, pela filosofia, como dimensão indispensável na consolidação da identidade pessoal. Somos o que somos, ou melhor, somos quem somos, porque fomos atravessados pela diferença, pela presença do outro que nos provoca ações e reações. Em termos mais profundos, seja perseguindo a tese aristotélica do animal político ou, ao contrário, admitindo algumas das últimas contribuições da antropologia, é possível afirmar que a nossa dimensão humana é aprendida/apreendida da humanidade.

Nossos comportamentos, nosso modo de pensar e até mesmo nossas emoções são humanamente aprendidas, com destaque para as distintas nuances culturais, regionalismos interpostos por diferenças de clima e geografia, entre outros fatores. Entretanto, se o dado relacional é comum a todas as sociedades humanas, algumas delas atribuíram especial significado à convivência com os outros, à vida partilhada e empreendida em conjunto. Este é o caso do Brasil, o qual poderíamos traduzir na seguinte expressão: “vida boa é a vida vivida com os outros”. Na categoria “outros”, nesse caso, pretendemos incluir desde o pequeno círculo doméstico de convivência, ao qual estamos diretamente vinculados, aos demais grupos sufragâneos com os quais nos relacionamos na medida de nossas necessidades: os colegas de trabalho, os amigos de fim de semana, os vizinhos menos conhecidos etc.

Aqui ainda quero incluir o trânsito migratório, internamente comum a um país de dimensões continentais como o Brasil. A busca por novas oportunidades, por uma melhor colocação no mercado de trabalho, por ascensão social, leva milhares de pessoas a singrarem rumo a horizontes distantes de sua casa paterna. Nesses casos, o originário vínculo familiar é geralmente substituído por novos círculos de pertencimento, de exercício das relações acima apontadas como necessárias para a concretização da condição humana que somos. De acordo com o meu entendimento, justamente esse âmbito foi o primeiro atingido pela crise estabelecida a partir da pandemia. Os círculos de relacionamento – sejam eles familiares ou não – foram interrompidos abruptamente, retirando o seu papel de suporte para o enfrentamento dos desafios cotidianos. Assim, as vivências que eram tidas na constante companhia dos outros, transferiram-se para a esfera da solidão individual, desencadeando uma série de consequências em nível emotivo e afetivo, as quais também incidem sobre a dimensão social em sentido mais amplo.

Ainda sobre esse aspecto, entretanto, o inicial estado de isolamento e distanciamento social, apontado como a única iniciativa efetivamente capaz de retardar a disseminação do vírus, enquanto a ciência se encarrega de descobrir um antídoto adequado (e mandem para o lixo a pilhagem de notícias falsas transmitidas e repassadas de círculo em círculo!), desencadeou uma série de tentativas de interação por meio remoto, subsidiadas pelas mídias de comunicação digital, pelas chamadas redes sociais, de acesso gratuito. Essas, viram-se quase que instantaneamente sobrecarregadas pelo grande quantitativo mundial de indivíduos no exercício de suas vivências, ansiosos por partilhá-las com outros, ávidos pela relação que mantinha e dava sentido ao seu fluxo de vida.

Neste ponto podemos estabelecer uma comparação com o que Zygmunt Bauman problematiza a respeito das comunidades. Para o autor, as atuais comunidades, ineficazes na formulação de conexões duradouras, marcadas pela efemeridade nas relações e instabilidade nos vínculos – ao ponto de poderem ser conhecidas pela expressão “comunidades cabide” –, têm sua origem e manutenção no desejo ancestral de ligação, de relacionamento, que, embora não seja mais possível nos termos das comunidades do passado, permanece como motivo constante para as do presente. A presença do outro, já muito explorada pelos mais jovens a partir das tecnologias de comunicação, foi completamente reformulada, donde é possível lograr uma série de conquistas, mas também alguns prejuízos. Assim, a ambiguidade pandêmica a que me referi anteriormente, expressa sua marca na dimensão social-relacional, fazendo com que dois extremos se toquem: a impossibilidade do outro como presença efetiva, concreta e qualitativa e, em contrapartida, a transfiguração de sua presença em termos quantitativos a partir dos mecanismos de interface. É claro que sempre será possível questionar a qualidade dessa presença-ausência digital. Mas também é fato que a pressão do isolamento acabou por extrapolar-se em formas alternativas de vinculação que, ao menos provisoriamente, arrefecem a nossa sede por sentido.

O segundo vértice ao qual aqui pretendo me referir toca a dimensão social-econômica, que, embora também envolva o aspecto social, distingue-se da anterior na medida em que preconiza a subsistência, isto é, que se constitui como o conjunto de condições necessárias à manutenção da sobrevivência. Aqui deixo clara uma distinção que me tem sido fundamental – como explicitado em outras oportunidades: há uma enorme lacuna entre viver e sobreviver. O Brasil é um país conhecido internacionalmente por seus índices de desigualdade. Embora tenha havido algum aprimoramento nas últimas três décadas – mormente, a partir da redemocratização no final da década de 1980 – o percentual de cidadãos brasileiros que vivem à margem das condições mínimas de dignidade permanece gritante. Num contexto assim, os efeitos de uma crise sanitária como a que vivemos são ainda mais devastadores, acentuando o estado de subdesenvolvimento e miséria de muitas famílias, retirando acesso a direitos fundamentais como a saúde, o emprego, a segurança.

Justamente por isso, o drama estritamente epidemiológico, movido pelo contágio em larga escala, em nenhum momento pode ser desassociado de sua incursão sobre o cenário econômico, já que o colapso da economia irá representar a ruína de toda a estrutura social. Neste ponto se dividem discursos que pretendem se colocar de um lado ou de outro, sem reconhecer a ambiguidade que pervade o problema de uma ponta à outra. Os mais pobres são obrigados a arriscar-se na lida cotidiana, muitas vezes sem contar com as condições básicas de segurança à sua saúde e à saúde dos outros com os quais esbarram. Não por escolha, mas por falta dela. Eis, portanto, a diferença entre viver e sobreviver. A sobrevivência está ligada ao ciclo biológico e fisiológico, ao funcionamento do corpo e atendimento de suas necessidades. Apenas pode viver o indivíduo que tem segurança de sua sobrevivência, e, por isso, goza de liberdade de escolha, da possibilidade de gerir o seu tempo livre, de acesso aos pequenos prazeres que também fazem parte da condição humana. Ocorre que a grande maioria dos brasileiros se encontra no nível da manutenção da vida. Esses, não vivem – em sentido pleno, aberto a possibilidades resultantes de sua própria deliberação –, apenas sobrevivem; cumprem o fardo cotidiano de assegurarem a sua sobrevivência e, não raro, a sobrevivência de outros que deles dependem. Essa é a situação de grande parte da população brasileira, que, não obstante as dificuldades que sempre experimentara, fora agora submetida à pandemia da COVID-19.

Em comparação com outros países, vemos a importância da gestão pública numa situação como essa. No caso do Brasil, apesar de o Supremo Tribunal Federal ter reconhecido a competência de estados e municípios na regulamentação das medidas de contenção da disseminação do contágio e na implementação de estrutura hospitalar adequada, em termos econômicos a resposta para os problemas ocasionados é de prerrogativa federal. Nesse caso, como é sabido por todos nós, a “solução” (com aspas, mesmo!) custou a chegar. Em outros países, em que houve mais agilidade na elaboração de um plano de contingência e de auxílio para os necessitados, a restauração da crise econômica já está em curso (como na Alemanha e na França, por exemplo). Mesmo nos Estados Unidos, epicentro de casos de contaminação, os danos à economia foram bem menos incidentes que em comparação com a realidade brasileira. A par disso, também por lá o maior percentual de óbitos tem sido contado entre imigrantes e pobres, que em geral não têm condições de arcar com os altos custos de manutenção de um seguro saúde.

No caso do Brasil, não é possível ignorar que o inicial quantitativo de 20 milhões de cidadãos a serem amparados pelo “auxílio emergencial”, proposto pelo governo federal, tenha posteriormente ultrapassado 70 milhões. Não que todos esses se encontrem na faixa da miséria, mas certamente impedidos de acesso às condições básicas de sobrevivência, entre as quais deveria estar inscrita a seguridade social. Destaco, nesse caso, a ambiguidade persistente entre um projeto governamental de precarização do trabalho e incentivo da iniciativa privada, a maximização do laissez-faire liberal, com pouca intromissão do Estado sobre a economia, e, diante de um contexto de calamidade como o que experimentamos, a urgência em se defender os mecanismos de seguridade que se mostram condição de subsistência de tantas famílias e, mais que isso, condicionantes do desenvolvimento de um mercado de trabalho pautado pelo direito social: trabalhadores devidamente registrados, assegurados em todos os seus direitos. No caso brasileiro, a deflagração da pandemia chama nossa atenção para o papel do Estado que, embora não deva elevar-se sobre todos como força hegemônica – conduzindo a uma nova forma de totalitarismo – sempre terá o seu papel garantido e a sua parcela de responsabilidade reconhecida. Não fosse a solidariedade, celebrada como uma importante característica do povo brasileiro, muitas famílias certamente teriam definhado, tornando a situação socioeconômica geral ainda mais devastadora.

Em terceiro e último lugar, e de algum modo como o termo desta teleologia, sugiro o ponto comum a que os demais vértices estão unidos, o acabamento necessário para o equilíbrio da pirâmide. Identifico-o, propriamente, na ambiguidade entre vida e morte, sempre presente ao funcionamento das sociedades humanas e, num contexto de pandemia, particularmente relevante. Aqui chamá-la-emos de dimensão vital. Na minha opinião, nenhuma outra realidade pôde ser melhor realçada pela crise do COVID-19 que a relação, sempre ambígua, temida e esperada, rejeitada e acolhida, que o “fio de aço”, o ponto limítrofe, entre vida e morte. Isso porque, para mim, é justamente a morte o que nos torna completamente humanos. O “ser humano perfeito”, pretendido por muitos, somente está disponível sob a lápide: “aqui jaz um ser humano!” – esta é a inscrição sob a qual poderemos vislumbrá-lo.

Enquanto vive o ser humano ainda está em fase de construção. Enquanto vive, busca dar sentido à sua existência, não meramente fazendo-se presente, mas habitando o mundo; deixando a marca de sua presença, como o que é gratuito, dadivoso, mas também duradouro, para além de seu final material. Assim, experimentamos nossa própria existência e a existência das pessoas que têm alguma importância para nós sempre em perspectiva de morte. Somente porque morremos damos o valor que damos às coisas, à banalidade do dia, transformado em “tempo de graça”. Apenas porque morrermos amamos tão intensamente, dedicamo-nos radicalmente a uma causa, escrevemos livros, plantamos árvores, frutificamo-nos em filhos e projetamos o nosso anseio de eternidade nas demais formas seminais pelas quais influenciamos o mundo à nossa volta. No fim das contas (e fim aqui não tem uso aleatório!), a ambiguidade entre vida e morte é responsável pela manutenção da realidade tal qual a conhecemos, estabelecendo limites e ensejando conquistas.

Mas uma coisa é pensar a morte como a “terceira margem do rio”, sempre a se oferecer, mas também sempre a esvair-se em sombras, como miragem que custa a ser crida. Outra, bem diferente, é termos a vida tomada em prova, desafiada por uma condição realmente fatal, como no caso da pandemia. Embora seja a única possibilidade realmente possível a que está submetido um ser humano – para falarmos com Heidegger, de quem roubamos pontos cruciais para nosso argumento neste momento – em geral tomamos a morte como uma fatalidade banal. Sabemos de sua realização pela morte dos outros, que soa distante, como um convite que sempre pode ser rejeitado. Bem diferente é a morte de alguém que nos é próximo, oportunidade de nos sentirmos pessoalmente interpelados pela morte e pela possibilidade de morrer. No caso da pandemia, começando de longe, a morte nos alcançou a todos, pequenos e grandes, pobres e ricos, de todas as cores, em todas as idades e classes sociais, pertencentes a todas as profissões, sem exceção. Eis o caráter absolutamente democrático do vírus, mesmo que não possamos dizer o mesmo sobre os mecanismos de prevenção (sempre mais disponíveis a uns que a outros!).

A ambiguidade que quero aqui salientar, no entanto, não está propriamente situada nos limites da tensão entre vida e morte, mas na abertura de uma particular oportunidade de repensarmos a vida, em perspectiva da morte. É como se pudéssemos fazer uso da metáfora defendida por Emmanuel Lévinas para as grandes decisões de nossa existência: diante de qualquer escolha, decida-se em companhia da morte, pergunte-a qual é o melhor caminho, pois tudo irá passar. A realidade de pandemia, nesse caso, estimulou nossa capacidade de diálogo, redundando em um nível mais aprofundado de consciência a respeito da vida, de suas condições, das pessoas com as quais nos relacionamos, dos nossos próprios limites, capacidades e pontos de aperfeiçoamento. Em outras palavras, chamou nossa atenção para o que realmente importa.

É claro que aqui, amparados pelo vértice anteriormente mencionado, devemos excetuar aqueles que não têm a oportunidade de viver, apenas sobrevivendo às investidas do mundo que os circunda. No caso do Brasil, infelizmente esses constituem um enorme círculo de pessoas. De todo modo, porém, prefiro acreditar na possibilidade de transformação e de mudança, fazendo jus à conhecida sentença de Ariano Suassuna, conforme a qual o “otimista é bobo e o pessimista é chato”, mas o “realista esperançoso” pode trazer o futuro em suas mãos. Com este pensamento inclino-me à conclusão desta breve reflexão, confiante que o sol voltará a nascer e dias melhores virão. Não que o “normal” se restabeleça, já que jamais gostei dessa expressão, a “normalidade”, isto é, a formatação de todos à mesma bitola. Ao contrário disso, que a vida volte a florescer sem deixar de lado as marcas colhidas desse tempo excepcional. Que o “novo normal” nos surpreenda com votos de solidariedade e colaboração entre pessoas e sociedades, com acesso por parte de todos às condições essenciais de sobrevivência, com a garantia de direitos e sua plena possibilidade de realização, pois somente assim valerá a pena viver!

 Até o presente momento, carregamos a dor e o luto por aqueles que sequer tiveram a oportunidade de se despedir. Sofremos junto aos que são desafiados pela carestia e pela impossibilidade de previdência pessoal e familiar. Tentamos aplicar nossa parcela de contribuição e amenizar sofrimentos, como gota d’água jorrada numa floresta em chamas, ansiosos por um tempo novo de tranquilidade e segurança. Tal experiência radical poderá converter-se em tempo de espera transformadora, movida por ambígua tensão: se, de um lado, a morte se instaura irônica, de outro a vida explode plena e ilimitada, desobrigada – ao menos provisoriamente – dos fardos que a humanidade impôs ao planeta; enquanto a saudade, como resultado do isolamento social, assola o nosso espírito e machuca a nossa alma, descobrimos novas formas de nos tornarmos próximos dos que realmente importam e, talvez com salutar acuidade, ressignificamos a experiência e o valor dos outros e de sua presença em nossa própria vida; enquanto a fragilidade social e o contexto de desigualdades nos envergonha e clama por soluções efetivas e urgentes, desvelamos a face generosa e solidária que nem sempre trazemos à vista, somos inventivos nas formas de resistência, damos vasão ao poder do amor que a tudo pode alcançar.

Tudo isso, porém, só será possível caso nos deixemos interpelar pelo momento presente, vivendo cada instante como se fosse o último e cientes de que, como tudo, também as dificuldades de hoje passarão e se tornarão história lembrada, narrada às próximas gerações como ensinamento de valor – como justificação para o quanto seremos humanamente melhores. A vida e a condição humana continuarão pervadidas por ambiguidades, como no ensinamento oriental de que também as catástrofes guardam felizes surpresas.

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