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Notas sobre o racismo religioso

Notas sobre o racismo religioso

Foto: Tiago Zenero/PNUD Brasil

Algumas pessoas julgam desnecessário trazer à luz a discussão sobre o racismo religioso. Para elas, não faz sentido dizer que há racismo nessa modalidade e que a preocupação que gira em torno da intolerância religiosa abarcaria todas as questões que materializam o ódio em relação às diferentes experiências religiosas. Podemos, no entanto, nos perguntar: numa realidade tão assimétrica e ambígua como a nossa, marcada, sobretudo, por espectros colonizadores, é realmente desimportante abandonar uma discussão sobre as violências – inclusive a de intolerância religiosa – sem trilhar pelas marcações de raça?

A liberdade de crença, como todos nós sabemos, é um direito constitucional, a demarcação de um Estado Laico. Ela se sustenta na promoção do espaço comum e da diversidade. Todo ato que fere esse princípio é designado como intolerante. Chamamos a atenção, no entanto, para as nuances dessa quebra do direito à liberdade de consciência religiosa e, mais, grifamos que os ataques, as relativizações, expropriações e perseguições não se dão da mesma forma. No instante em que notamos a construção de um discurso sui generis em relação às religiões de matrizes africanas, sobretudo em relação ao Candomblé, percebemos que a sua prática, sua realidade, cosmovisão e sacralidade são constantemente atacadas, não por denotarem uma experiência de fé que cinde com as narrativas hegemônicas, como tantas outras, mas em razão de sua ancestralidade e sua raiz genuinamente negra.

Não raro, os elementos que transitam pela experiência negra são destituídos de prestígio o que, de modo pontual, faz com que as cenas da realidade social sejam marcadas por um arranjo simbólico de hierarquização. É possível que notemos nessas cenas uma estrutura ideológica que desliza pelos meios de comunicação, pela indústria cultural, pelos espaços de construção de conhecimento e que incide sobre os corpos negros e sobre a sua identidade. A ideologia, como aponta Marilena Chauí em seu texto Ideologia da competência, “é um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros de uma sociedade como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar”. A ideologia se torna, nesse sentido, um complexo interpretativo do mundo, não só descritivo, mas organizacional, no instante em que todo esse complexo é reforçado, como nos ensina Silvio de Almeida em sua obra Racismo estrutural,  “pelos meios de comunicação, pela indústria cultural e pelo sistema educacional”  e se materializa nas ações concretas dos sujeitos.

A partir dessa base simbólica, valorativa e potencializadora da ação, do desejo e da apreensão dos outros são desenhados os lugares de prestígio social, os processos que normatizam as hierarquias e que “naturalizam” a ausência de narrativas sobre o mundo que estão forjadas à margem do que é lido e retroalimentado como “normal”. Segundo Achille Mbembe em seu texto Sair da grande noite, o processo colonizador obteve êxito, pois se estruturou numa vontade de poder, ou seja, um discurso de poder que criou uma oposição sistemática entre sujeito e não sujeito, entre corpo e razão, entre o que deveria ser considerado vivo e o que, em outra lente, deveria ser banalizado a partir da dominação, da perda de sua identidade e da sua morte. Essa estrutura que demarca o que é digno e o que não é atravessa o nosso imaginário e, como já mencionamos, não acontece de modo homogêneo.

Pensemos, por exemplo, na construção de heróis que são recordes de bilheteria nos cinemas, alguns deles são deuses de mitologias nórdicas que escapam às narrativas hegemônicas e, nem de longe, são denunciados como os Orixás, Nkisis e Voduns. Ao contrário, são normatizados pela indústria cultural — a mesma que torna “normal”, em muitos casos, a expropriação da identidade negra —, aclamados e trazidos para a cena cotidiana, sem nenhum incômodo. São deuses pagãos, mas são facilmente incorporados numa estrutura de branquitude. A representação do sagrado que legitima alguns corpos em detrimento de outros se materializa na dificuldade que se instala no instante em que as pessoas são provocadas a pensar um deus negro. Dificuldade que se sustenta na construção narrativa que aloca o negro em lugares simbólicos de fronteira, de menos prestígio e de subalternidade.

Alguns programas religiosos transmitidos pelas redes de televisão, perpetuam uma narrativa de inferiorização sobre as religiões de matrizes africanas. Esses programas, como aponta Suely Carneiro na sua obra Escritos de uma vida, expandem uma atmosfera de violência “em diferentes cidades do país, enredando diferentes e, por vezes, inusitados atores nessas situações”, haja vista o caso dos traficantes das favelas do Rio de Janeiro que proibiram, nas suas comunidades, manifestações de Umbanda e Candomblé.

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O incitamento que aqueles canais de televisão fazem contra o Candomblé, por exemplo, aparece como uma violação da liberdade religiosa e, ao mesmo tempo, da sua ancestralidade, culto, possibilidade, isto é, como um atentado contra a identidade negra. O processo de Apropriação cultural, apresentado pelo Babalorixá e Doutor em Antropologia Rodney Willian, revela que, em muitos casos, deseja-se a prática, mas não as insígnias de negritude que a acompanham. Tomemos como exemplo as pessoas que pulam as ondas para Iemanjá ou aquelas que acham bonitos os adornos que rementem às identidades, resistências e sacralidades negras, mas que consomem esses valores desde que eles sejam “depurados” de seu sentido original. Em outra lente, as religiões de matrizes africanas incomodam tanto que suas práticas se tornaram alvo, inclusive, “de indignação e ação judicial no STF”.

Nós compreendemos a existência da intolerância religiosa e, mais, destacamos que a sua força de destruição é avassaladora, visto que elege o outro como inimigo absoluto. No entanto, queremos destacar que as insígnias de violência que se tornam o elo de destruição do outro não estão isentas das estruturas que compõem as nossas consciências e, mais, que demarcam sistematicamente quem é lido como sujeito e quem não é. Nesses termos, é imprescindível que, para combater as múltiplas formas de intolerância religiosa, não turvemos a nossa percepção para uma de suas modalidades mais perversas: o racismo religioso.