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500 anos da Reforma, uma celebração à margem. Thomas Müntzer e a Reforma Radical

500 anos da Reforma, uma celebração à margem. Thomas Müntzer e a Reforma Radical
5 de agosto de 2017 Alessandro Rocha

Introdução

Na comemoração dos 500 anos da Reforma Protestante todos os olhares tendem a se voltarem para os reformadores clássicos, que são compreendidos assim por alguns motivos, entre eles o de terem sido facilmente cooptados pelos sistemas político-econômico-denominacional. Em face de certa instrumentalização da Reforma é necessário fazer memória de elementos e narrativas que ficaram à margem da narrativa oficial e, que carregam certa potência que em outras paragens ficou dispersa.

Thomas Müntzer (Foto: Robin Holler)

Essa potência transformadora poderá ser percebida em diversos movimentos e sujeitos que se encontram à margem da narrativa oficial (como também na própria narrativa oficial), este texto pontua um movimento e nele um personagem: o Anabatismo e Thomas Müntzer. Neles (movimento e personagem) serão ressaltados três elementos portadores da potência evangélica: geografia social: o horizonte dos pobres; experiência como chave hermenêutica: um novo locus metodológico; relativização de estruturas eclesiásticas.

Geografia Social: O Horizonte dos Pobres

O Anabatismo liderado por estava à margem da Reforma Luterana e Calvinista. Não era um movimento de príncipes nem tão pouco de cidadãos suíços. Antes era composto por camponeses que visualizaram na Reforma os elementos para a transformação de sua sociedade. Como indica Shaull:

Na Europa do Século XVI, a peregrinação Espiritual da maioria dos reformadores radicais foi profundamente  influenciada pela  pregação e  ensino de Lutero,  na Alemanha,  de Zwinglio,  na Suíça.  Mas seu despertamento espiritual e estudo da Bíblia os levaram  a  examinar mais criticamente a ordem estabelecida na Igreja  e  na sociedade,  a buscar uma transformação mais radical  de  ambas,  a criticar  e,  eventualmente,  a  romper com  seus mentores². 

A radicalização dos camponeses a respeito dos princípios da Reforma custou-lhes uma dura perseguição tanto por parte dos reformadores quanto dos católicos³. “Morreram estimadamente 100 mil camponeses numa guerra sangrenta. Como diz Justo Gonzáles: Em 1528, Carlos V decretou a pena de morte para os Anabatistas (…) número  de mártires  foi  enorme,  provavelmente maior do que todos os que morreram durante os três primeiros séculos da história da Igreja”⁴. 

O Próprio Lutero fundamentando teologicamente a perseguição contra os camponeses afirmou: ”Por isso, caros senhores, livrai aqui, salvai aqui, auxiliai aqui,… apunhale, bata, estrangule quem puder! (…) Por isso agora peço:  Quem puder, fuja dos camponeses como do próprio diabo”.⁵

Esse grupo de reformadores, como nos informa o próprio Lutero, era composto de camponeses. Isso não significa a inexistência de pessoas das classes ricas no movimento anabatista, mas antes que sua geografia, seu horizonte prático era o da dependência dos senhores da terra, que anteriormente estavam vinculados ao poder feudal e papal, mas que agora encontrava-se sob detenção dos príncipes protestantes. Efetivamente, para os camponeses, a Reforma não causou o impacto social que causara para os detentores de títulos e terras⁶. 

Nesse contexto, Thomas Müntzer encabeçou um processo de reforma sócio-religiosa de caráter revolucionário chamado de reforma radical⁷. Para ele a reforma só poderia ser efetivada por aqueles que fossem cheios do Espírito. “Num derramamento, que o mundo não tem condições de receber, os eleitos estão transbordados e embriagados desde o espírito. Em poucas palavras: Cada pessoa precisa ter recebido o Espírito Santo sete vezes; de outro modo ela não pode nem ouvir nem entender o Deus vivo”⁸. 

Sobre esta nova perspectiva teológica afirma também Shaull: ”Assim guiados, eles foram capazes de tomar a Bíblia, ao invés da Igreja, como fonte última de sua autoridade (…). Passaram a confiar na presença e poder do Espírito Santo na comunidade da fé 9”. 

Neste sentido, sobre uma determinada geografia social, os anabatistas liderados por Thomas Müntzer interpretaram sua ação em perspectiva pneumatológica. 

Experiência como chave hermenêutica: um novo locus metodológico. 

Para Thomas Müntzer o Anabatismo é um movimento absolutamente dependente do Espírito Santo. “Doutra maneira não podereis ouvir o que seja Deus. Mas quem uma vez recebe o Espírito Santo, como lhe convém, jamais poderá ser condenado”¹⁰. Ele ainda observa: “Por isso, o povo vive sem verdadeiros pastores, pois nunca lhe é pregado a verdadeira experiência de f锹¹. 

O conhecimento de Deus se dá por via de uma experiência de fé onde o Espírito é protagonista. Caso não haja essa abertura ao Espírito não poderá haver também uma experiência com o próprio Deus e, por isso, nem mesmo uma teologia. Nesse sentido Müntzer afirma que: “Desse modo, não entendem com base na experiência pessoal, o que seja Deus, a verdadeira fé, a virtude poderosa e as boas obras”¹². 

Contra a teologia desvinculada da experiência ele diz: “eles não conseguem comprovar a fé cristã por meio da sua Bíblia inexperimentada, mesmo que façam um grande palavreado. “Só desejo de vós que estudeis diligentemente a palavra viva de Deus pela própria boca de Deus”¹³. 

Na prática essa vivência teológica de Deus pelo Espírito se dava da seguinte forma, como descreve Shaull: 

Nessas pequenas comunidades, eles se empenhavam no estudo da Bíblia e na oração (…). Quando experimentavam a presença  e  o  poder do Espírito Santo em suas vidas, lutaram juntos para entender e  para seguir os ensinos e exemplos de Jesus¹⁴. 

 No julgamento da superioridade da experiência do Espírito como chave hermenêutica para a teologia, Müntzer afirma: “não existe um testemunho mais seguro, que comprove a veracidade da Bíblia, do que a palavra viva de Deus, na qual o Pai  pronuncia o Filho no coração do homem”¹⁵. Esta pronúncia do Pai que testemunha o filho é o próprio Espírito.

Relativização de Estruturas Eclesiásticas. 

Para os Anabatistas essa relativização estava mesmo no âmago de suas ações. A insatisfação com as atitudes dos reformadores quando à ordem civil e religiosa é que possibilitou, ou melhor, provocou a reforma radical, como afirma Shaull: “Na Europa do século XVI, a peregrinação espiritual da maioria dos reformadores radicais foi profundamente influenciada pela pregação e ensino de Martinho Lutero na Alemanha, ou de Ulrico Zwinglio, na Suíça. Mas, seu despertamento espiritual e estudo da Bíblia, os levaram a examinar mais criticamente a ordem estabelecida na Igreja e na sociedade, a buscar uma transformação mais radical de ambas, a criticar e, eventualmente, a romper com seus mentores”¹⁶.  

Isto lhes custou uma dura perseguição, tanto por parte dos protestantes quanto dos católicos. Mas não foi suficiente para dissuadi-los de suas críticas teológicas, amplamente estabelecidas sobre os princípios protestantes – livre exame e sacerdócio universal dos crentes – e radicalizadas em seus corações pela experiência com o Espírito.  

Esta relativização das estruturas eclesiásticas fundamentava-se, sobretudo, no princípio luterano do sacerdócio universal de todos os crentes. Os anabatistas, na perspectiva de Müntzer, “Sete vezes batizados no Espírito Santo¹⁷” tinham toda a condição de exercer esse ministério sacerdotal em sua plenitude. Como observa Shaull: 

Lutero proclamou o sacerdócio universal de todos os crentes, um conceito que os reformadores radicais se determinavam a colocar em prática.  Isso significou, para eles, que todos os crentes deveriam ter a oportunidade de entender a fé, comunicá-la e ocupar uma posição de responsabilidade na comunidade. Mas, para que isso pudesse acontecer, o papel do ministro tinha de ser radicalmente redefinido como o de servo, ao invés de ser alguém com autoridade sobre outros. Os primeiros reformadores protestantes queriam fazer esta mudança. Mas os anabatistas perceberam que, enquanto o pastor fosse ordenado à maneira antiga, tivesse controle dos sacramentos e ocupasse uma posição privilegiada na sociedade, ele seria admirado e manteria sua posição de dominação. Somente quando o Pastor se tornasse servo de uma comunidade perseguida, seria possível reordenar a vida congregacional, de modo que todos os membros assumissem responsabilidade. Como símbolo desta nova realidade de comunidade, o lava-pés recebeu proeminência, para recordar à comunidade a igualdade de  todos  e  o  chamado para servir¹⁸. 

Referências

 SHAULL, Richard. A Reforma Protestante e a Teologia da Libertação. São Paulo. Pendão Real, 1993.
GONZALES, Justo. A Era dos Reformadores.Vol.3. São Paulo. Vida Nova, 1995.
LUTERO, Martinho, Contra as hordas salteadoras e assassinas dos camponeses.In Clássicos do pensamento político vol 11. Petrópolis. Vozes, 2000.
ALTMANN, Walter. Lutero e Libertação. São Leopoldo/São Paulo: Sinodal/Ática, 1994.
BLOCH, Ernst. Thomas Müntzer, Teólogo da Revolução. São Paulo. Tempo Brasileiro, 1973.
MÜNTZER, Thomas. Manifesto de Praga. In Clássicos do pensamento político vol 11. Petrópolis. Vozes, 2000. 

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