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Espiritualidade não religiosa: quem são os sem religião?

Espiritualidade não religiosa: quem são os sem religião?

Quando falo que estudo pessoas sem religião no Brasil, é comum que minha fala cause estranheza. Isso porque nosso país é marcado fortemente pela religiosidade a ponto de conseguirmos destacar, em cada estado, diferentes formas manifestações do que entendemos por fenômeno religioso. Manifestações essas que, em tom festivo, marcam a cultura, a tradição e a diversidade do povo brasileiro. Dos batuques do candomblé, passando pela Folia de Reis à lavagem da escadaria do Senhor do Bonfim, os simbolismos e sincretismos religiosos invadem não apenas as memórias individuais como também imprimem na arte brasileira uma autêntica expressão das vivencias da fé.

Como, então, falar de pessoas sem religião que crescem neste mesmo contexto de fertilidade religiosa? Ou melhor, como essas pessoas que dizem não ter religião já são, desde o  Censo do IBGE de 2010, 8,04% da população brasileira, formando o terceiro maior grupo da amostragem sobre religião? Para esclarecer melhor essas dúvidas, falarei, primeiramente, sobre o que significa ser sem religião, e para isso, é preciso falar sobre a diferença entre religião e espiritualidade.

Diferente do que se especula popularmente, pessoas sem religião não são, necessariamente, ateias. Se consultarmos os dados do já citado Censo do IBGE, perceberemos que esse grupo se subdivide em três, sendo esses os sem-religião – ateus; sem-religião – agnósticos, e os sem-religião – sem religião. Os ateus representam 3.98% do grupo; os agnósticos 0.87% e os sem religião 95.15%. Isso nos leva ao entendimento de que pessoas que mantêm o sentimento de fé — assim como o afeto pela religiosidade, seja pela manifestação artística, festiva ou individual — podem ser parte deste grupo chamado sem-religião, uma vez que a compreensão que se tem do que é a religião não é a mesma compreensão que se tem do que é o sentimento de fé, que pode ser vivenciado dentro ou fora de instituições.

Sendo assim, essa parcela de 95,15% das pessoas que se declaram sem-religião é composta por sujeitas e sujeitos que cultivam uma espiritualidade afastada das instituições religiosas — sejam essas igrejas, mosteiros, terreiros, sinagogas, mesquitas, templos, dentre outras. A espiritualidade ganha um lugar diferente da religião, visto que pode ser desenvolvida e cultivada de maneira autônoma, individual e desinstitucionalizada mesmo que seja por sujeitas e sujeitos que antes tiveram essa dimensão da vida direcionada pelas instituições religiosas. Dessa forma, enquanto a religião, de acordo com a cientista da religião Clarissa Franco, diz respeito a uma identificação com determinada instituição, bem como com seus “rituais, doutrinas, mitos, símbolos, cultos, orações, crença/fé”, a espiritualidade é uma “busca pessoal de sentido, autorrealização, autonomia em relação às instituições, autenticidade, espontaneidade, criatividade, liberdade, mal-estar em relação à materialidade do mundo, crença/fé.” (FRANCO, 2013, p.401-402).

A respeito não só do perfil dos sem-religião no Brasil, mas também em relação aos dados socioeconômicos das sujeitas e sujeitos filiados às religiões em geral, algo me chama muito a atenção. É comum que se parta de concepções pré-estabelecidas a respeito do fenômeno que não são embasadas em dados concretos e, a partir dessas, cria-se conclusões um tanto quanto precipitadas em relação ao grupo, ao indivíduo e às instituições (quando é o caso). Notoriamente, os preconceitos estruturais da nossa sociedade ficam escancarados quando se analisa tais precipitações. O sociólogo Reginaldo Prandi nos diz que

surpreendentemente, o censo de 2000 mostrou também que as religiões afro-brasileiras apresentaram a segunda maior média de anos de escolaridade de seus seguidores declarados, ficando atrás apenas do espiritismo kardecista, religião sabidamente de classe média e de seguidores com escolaridade elevada. (PRANDI, 2003, p.31).

Essas surpresas acontecem também na análise do grupo dos sem-religião, nos diz o pesquisador José Álvaro Campos Vieira em sua tese de doutoramento que, ao traçar o perfil do grupo em questão a partir dos dados de 2010, percebe que a análise em relação a escolaridade

realça-se como surpresa, mais para quem associa sem-religião à erudição, que no nível superior completo encontramos menos indivíduos no grupo dos sem-religião de que na média nacional. Desse modo, ajuíza-se que o conhecimento que é adquirido nas escolas e nas universidades parece não repercutir no fenômeno que estudamos (VIEIRA, 2020, p. 64).

Já em relação à renda, nos diz o pesquisador, “conforme os dados, podemos dizer, mas com ponderação, que os sem-religião são um fenômeno de extremos, porque tanto agrega os mais pobres, como os mais ricos.” (VIEIRA, 2020, p.64). Portanto, é importante que se perceba que para descobrir quem são os sem-religião enquadrados na amostragem do Censo do IBGE, é preciso que se tenha em mente que se trata de um grupo bastante diverso, assim como são diversas as causas do abandono da religião enquanto instituição, como também o abandono, ou não pertença, da religião enquanto espiritualidade como é o caso dos ateus. Sendo assim, se quisermos saber — como incentivo com o título dessa reflexão — quem são essas pessoas, é importante que tenhamos, primeiramente, uma abertura para buscarmos em diversos segmentos da sociedade e que essa procura não seja uma tentativa de conversão, visto que somos múltiplos assim como são múltiplos os nossos meios de dar sentido a vida e nossos projetos individuais.

Diferente do que pensa o senso comum, não estamos nos referindo necessariamente a um grupo formado por pessoas letradas que encontram nos estudos motivos para não precisarem da religião, ou a pessoas que vivem em falta, e sim a um grupo que por motivos plurais deixam de ver na religião um direcionamento necessário na sua busca de sentido. Além disso, é importante que nos abramos para ouvir o outro sem carregar em nossas intenções dúvidas sobre a fala que ele ou ela confia a nós a fim de torná-la menos importante. Se alguém nos diz que não tem religião ou que é adepto ou adepta de determinada religião, como pessoas que respeitam a diversidade religiosa, nosso papel é respeitar e nada menos que isso.

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Motivos para ser religiosa ou religioso, assim como motivos para não o ser, são da ordem individual das sujeitas e sujeitos, o respeito deve estar presente em todas as relações que buscamos estabelecer nas nossas próprias buscas de sentido. E assim como os simbolismos e sincretismos religiosos vão dos batuques do candomblé, passando pela Folia de Reis à lavagem da escadaria do Senhor do Bonfim, o respeito pela escolha do outro de ser ou não religioso deve atravessar todas as diferenças e nos aproximar sem tentar nos igualar.


Referências

FRANCO, Clarissa de. Psicologia e espiritualidade. In: PASSOS, João Décio; USARSKI, FRANK(orgs.). Compêndio de Ciência da Religião. São Paulo: Paulus/Paulinas, 2013, p. 399-410.

PRANDI, Reginaldo. As religiões afro-brasileiras e seus seguidores. Civitas, Porto Alegre, v. 3, n. 1, p. 15-33, jun. 2003.

VIEIRA, José Álvaro Campos. Ensaio de espiritualidade não religiosa: estudo a partir de indivíduos sem religião em Belo Horizonte. 2020. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2020.