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“Reverenda Doutora”: a capa da visibilidade

“Reverenda Doutora”: a capa da visibilidade

Este artigo é de fim… fim de ano, fim de 2020. É fácil me imaginar gritando, como Galvão Bueno no último jogo da Copa do Mundo de 1994, “acabou, acabou!”. Gosto dessa ideia mística que às 12 badaladas da noite de 31 de dezembro tudo muda. A pandemia acaba, a vacina chega, e eu perco os 10 kilos que engordei. Nesse período, devotada a planejar o futuro e rever o passado, é possível notar muita coisa boa em 2020. Assentada sobre os meus privilégios, que me permitiram perder somente uma pessoa querida desde o início da pandemia até hoje, me vejo feliz com as possibilidades que 2020 me deu.

Mas, será que foi 2020 mesmo? Será que o fato de termos voltado nossas vidas para o mundo virtual foi o que me garantiu presença em lives, rodas de conversa, entrevistas, cultos, encontros, textos? Não somente. Atribuo esse momento único na minha vida a uma coisa: a capa da visibilidade. (E confesso, essa ideia me veio daquela personagem da Caverna do Dragão, que tinha uma capa que a tornava invisível). A minha é diferente, ao invés de me tornar invisível, me visibiliza, me dá superpoderes de ser vista, e ainda mais, ouvida. Recebi essa capa dupla no final de 2019 e no começo de 2020.

Em novembro de 2019, recebi o título de doutora em Ciências da Religião, em fevereiro de 2020 fui ordenada clériga pela minha denominação. A então somente lésbica tinha até uma boa entrada em determinados espaços, como grupos evangélicos progressistas e grupos feministas, mas era só isso, uma boa entrada. É impossível não perceber o papel fundamental que esses dois títulos me deram – um carimbo de distinção. São dois títulos que antecedem meu nome, que chegam antes de mim, que recriam minha identidade tentando deixar quem eu sou em segundo plano.

É possível propor uma análise desse fenômeno em, ao menos, dois locais distintos: a academia e a igreja. Nessa breve reflexão, gostaria de localizar a importância desses títulos na igreja. Faço essa opção por perceber que é ali, na igreja, que o meu título me distingue, mas ainda assim não corrige todas as distorções de uma complexa relação de hierarquia baseada nas afirmações das diferenças de gênero.

Uma questão que percebi no ambiente da igreja e na maioria das minhas participações como clériga é que o título doutora não foi utilizado. Engraçado é que, na realidade, reverenda seria um pronome de tratamento afiliado ao doutoramento. Afinal, a partir da tradição protestante, o título seria o de doutora e o reverenda seria o pronome de tratamento usado por causa do título. Entretanto, é possível reconhecer que reverenda passou a ser usado como substantivo que identifica a pessoa que recebeu o título de clériga. Nesse sentido, me parece que, nesses espaços, minha presença foi requisitada por causa de meu título como clériga. Mas, o que é que distingue como leiga e como clériga?

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Durante meu processo para ordenação, diversas vezes quis desistir, afinal, eu não podia compactuar justamente com o sistema que historicamente definiu as mulheres como cidadãs de segunda categoria. O processo foi doloroso. Nele, conversei com diversas pessoas e percebi que a ordenação seria um caminho para entrar no sistema a fim de implodi-lo por dentro. (Ah, eu e meus delírios revolucionários). Na verdade, por dentro, percebi que o ordenamento de gênero atua de maneira ainda mais perversa. Ao permitir brechas que intentem a disrupção de sua hierarquia, o gênero, amparado pela categoria de patriarcado, recria sistemas de opressão nos quais o silenciamento opera por outras vias. O discurso é sutil: “você é mulher e, ainda assim, lhe foi dado o título clerical, veja como somos bonzinhos!”. Enquanto isso, o sistema, que deveria ser rachado pela presença das mulheres, pelo contrário, passa a rachar as mulheres ao meio, pois revela que por dentro, ainda que caiado, jaz o sepulcro de um modelo regulatório baseado nas desigualdades de gênero.

Mesmo diante da percepção de minha impotência nesse sistema, é impossível negar: o título me abriu portas, e me seduziu (confesso!). Ainda que muitas vezes não atrelado ao doutoramento, ser clériga me deu oportunidades, visibilidade, reconhecimento de tal maneira que, para manter o título e me sentir de alguma maneira íntegra ao que sou, foi preciso queerizar (tornar queer, transgredir) o reverenda adjetivando-o com um discreto “sapatão”. Talvez tenha sido a sexualização nada velada do meu título clerical a larga capa que me (des)cobriu durante esse ano e me permitiu chegar ao final de 2020 ainda questionando até quando terei força para manter o título, mas ciente de enquanto eu o mantiver será assim: reverenda sapatão, caminhoneira e filha de Iansã!