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“E ninguém foi pó e cinza” – A redenção de Sodoma e Gomorra

“E ninguém foi pó e cinza” – A redenção de Sodoma e Gomorra

Segundo Wanda Deifelt (2003), um dos passos metodológicos da teologia feminista é a criação de “uma tradição de nós mesmas”. A partir da constatação da invisibilização da participação de mulheres nos textos e narrativas e de um processo de reconstrução descobre-se e reivindica-se “tradições alternativas” que estão “sob os entulhos das práticas e ideologias patriarcais” (p. 183). Em um passo seguinte, tais tradições alternativas deixam de ser mera reprodução de textos e narrativas já existentes e passa-se a:

“reconstruir a teologia, re-criando e re-visando categorias teológicas, usando as experiências de opressão e as lutas de libertação das mulheres como articuladoras de saber. A base para essa reconstrução teológica não se encontra necessariamente dentro da igreja institucional e de sua tradição, das Escrituras, mas na convicção de que as mulheres são criadas à imagem de Deus, vivendo numa comunidade de fé e engajadas nas lutas de êxodo do patriarcado” (Deifelt, 2003, p. 184)

As teologias gays e lésbicas e, mais ainda, as teologias queer e da diversidade sexual e de gênero, seguem essa tradição metodológica no seu lidar com a religião. O ponto de partida não são as posturas dogmáticas e doutrinárias cristalizadas, mas a experiência religiosa em seu potencial subversivo e gerador de vida. Como afirma Gary D. Comstock (1993): “eu comecei a reunir e nomear como minha Escritura um pequeno corpo de literatura no qual eu me sinto aceito por ser quem sou” (p. 108).

É fácil demonstrar a presença da diversidade sexual e de gênero na Bíblia. Tom Hanks (2012; 2013) se dedicou longamente a essa tarefa. Ainda assim, os textos e as narrativas, assim como no caso das mulheres em relação ao patriarcado e de negros e negras em relação ao eurocentrismo (NASH, 2005), pessoas LGBTQIA+ foram invisibilizadas pelo que Ken Stone (1997, p. 150) chamou de “fontes autoritativas de ‘heterossexualidade compulsória’ (Rich)”. As narrativas e experiências mais estranhas e raras (queer) foram normalizadas pelas lentes heterossexualizadoras das autoridades eclesiásticas no seu ímpeto por controlar.

Mais do que isso, alguns textos – especialmente os “textos de terror” – foram lidos e interpretados como condenação à homossexualidade e a toda e qualquer expressão de gênero e sexualidade que não se encaixe no padrão determinado. E foi assim que a narrativa conhecida como “a destruição de Sodoma e Gomorra” passou a ser usada para condenar práticas sexuais entre homens, e “sodomitas”, que antes era apenas um designativo de quem havia nascido ou morado em Sodoma, passou, no século XII, a ser um designativo para tais homens. Mais curioso ainda é que esse termo – sodomita – tenha sido substituído por alguns, a partir do século XIX, pelo termo médico “homossexual” como sinônimo, ignorando as especificidades e compreensões implicadas em cada um desses termos, e siga sendo repetida, inclusive em traduções tendenciosas de textos bíblicos na atualidade.

De qualquer forma, essa “Sodoma inventada” (JORDAN, 1997), habitada por homens pervertidos sexualmente insaciáveis (essa é a fantasia realmente perversa), segue povoando o imaginário fantasioso de muitas pessoas sobre qualquer forma alternativa de construção de gênero e vivência da sexualidade de modo geral, e de homens homossexuais em particular (Tulleken; Mokgethi-Heath, 2016). Parece ser inútil para os leitores ideologicamente cegos de homofobia toda a argumentação ampla e farta (apesar de quase desnecessária) que demonstra que não é disso que se trata a narrativa de Gêneis 19 (Helminiak, 1998). Afinal, uma leitura rasa e simples deveria ser suficiente para entender o que de fato está em questão nessa narrativa.

Realmente, parece não ser possível desconstruir as leituras heterosexistas de uma narrativa tão profundamente marcada por violência e abuso, das quais as pessoas LGBTQIA+ são infinitamente mais vítimas que perpetradoras. E talvez nem seja necessário. Reivindicar os “sodomitas” como parte de “uma tradição de nós mesas” e re-construir uma “tradição alternativa” de Sodoma e Gomorra, talvez seja um empreendimento mais produtivo. Ou apenas uma desculpa para apresentar um lindo poema escrito por Gabriela Miranda.

En las piedras de Sodoma nacieron los colores,

entre los escombros de Gomorra la batalla del amor.

Dios se acercó, atisbó por las ventanas, encontró las mesas llenas de migas de pan,

miró los ojos de los amantes y atendió a sus palabras de ternura.

“No, se dijo, realmente sus acciones no son peores ni mejores que las de nadie”

Pero los hombres insistían:

¡Sodoma! –gritaban

¡Gomorra! –se lamentaban

Y cayó la tarde y dios destruyó Gomorra y también destruyó Sodoma,

mandó una lluvia de arcoíris,

llovieron pájaros, plumas y lentejuelas

y todas las formas de la pasión mojaron las piedras.

Fue tanto el peso del amor y de las lentejuelas que las piedras sucumbieron

y ya no hubo muros en Sodoma ni muros en Gomorra sólo cielo abierto

y nadie fue polvo y ceniza.

 

E os sodomitas, nos alegramos e rendemos graças!

Amém! (pra quem é de amém)

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[O poema de Gabriela Miranda foi gentilmente enviado pela autora através de Larry Jose Madrigal Rajo, do Centro Bartolomé de las Casas de El Salvador, após leitura no Concerto de Encerramento da XXIII Assembleia da Revista de Interpretação Bíblia Latino-americana, realizada de modo remoto. Uma publicação recente da autora é Miranda, 2020]

 

Referências

COMSTOCK, David G. Gay theology without apology. Cleveland: Pilgrim, 2003.

DEIFELT, Wanda. Temas e metodologias da Teologia Feminista. SOTER. Gênero e teologia. São Paulo, Belo Horizonte: Paulinas, Soter, Loyola, 2003. p. 171-186.

HANKS, Tom. Las minorías sexuales en la Biblia – Textos positivos en el Nuevo Testamento. Buenos Aires: Epifanía, 2012.

HANKS, Tom. Las minorías sexuales en la Biblia – Textos positivos en la Biblia Hebrea. Buenos Aires: Epifanía, 2013.

JORDAN, Mark D. The invention of sodomy in Christian theology. Chicago: The University of Chicago Press, 1997.

MIRANDA, Gabriela. Si vuelves y no estamos. Ciudad de Guatemala: Parutz’ Editorial, 2020.

NASH, Peter T. Relendo raça, Bíblia e religião. São Leopoldo: CEBI, 2005.

STONE, Ken. Biblical interpretation as a technology of the self: gay men and the ethics of reading. FEWELL, Danna N.; PHILLIPS, Gary A. (org). SEMEIA – An experimental journal for biblical criticism, No 77 – Bible and ethics of reading. Society of Biblical Literature, 1997. p. 139-155.

TULLEKEN, Loraine; MOKGETHI-HEATH, JP (org.). Behold, I make all things new – What do the sacred texts of Judaism, Christianity and Islam really say in regard to human sexuality? GIN (Global Interfaith Network), CHURCH OF SWEDEN: s/l, 2016.