Now Reading
Rotina de uma pesquisadora: a noite não adormece nos olhos das mulheres

Rotina de uma pesquisadora: a noite não adormece nos olhos das mulheres

“A noite não adormece nos olhos das mulheres” (EVARISTO, 2017, p. 26). Li este verso de Conceição Evaristo à noite, quando descansava os olhos fora da tela do computador que me prendeu por todo o dia. Enquanto lia, pensava nas roupas que estavam dentro da máquina esperando meu intervalo para colocá-las no varal. Lembrava também que o feijão cozido tinha acabado e vi em algum lugar que devemos colocar os grãos de molho por algumas horas antes do cozimento. Lembrei de minha mãe, e de como eu sempre acordava depois dela e dormia antes. Hoje em dia é raro eu dormir antes de alguém, as noites foram encurtando conforme eu cresci.

À noite, ninguém me apressa. Escrevo no meu tempo. Não há nada a ser enviado pois o horário é impróprio para incomodar pessoas decentes. Penso melhor no silêncio, organizo minhas elaborações textuais, enxergo os erros e acertos da pesquisa, me vejo nela. Pesquiso a fé individualizada, que foge das instituições, que se faz recolhida nas realidades de quem as professa e não quer se adequar às normas das igrejas, dos terreiros, dos templos. E nem sempre por discordar das regras, muitas vezes por reconhecê-las como legítimas e afirmar não ser possível viver aquele tipo de experiência. Dizem: “Muito obrigada, mas hoje não.”

Vivem uma fé gratuita, quase sempre herdada desses mesmos lugares que se tornaram distantes de suas realidades, dotada dos mesmo elementos e tradições que tomam outros significados quando adequados a outro cotidiano. São pessoas sem religião, mas religiosas. Tudo é uma questão de como se conceitua o sentimento de crer sem pertencer, que continua existindo com ou sem conceito. Tenho interesse na fé, mas mais que isso, me interesso pelas pessoas, por suas histórias, pelo antes e pelo agora. A pesquisa acontece no momento em que conheço mulheres trabalhadoras do sexo que decidem me contar suas vivências de fé desvinculadas das religiões, mas essa fé não existe sozinha. Penso: como separo a fé e a pessoa? Como conto a história de alguém? Como separo eu e minha pesquisa? Por que estudo histórias de fé de trabalhadoras sexuais? O que essas mulheres sentem? Qual a distância entre nós?

Quando percebo, sou meu trabalho, estou ali amarrada pelo recorte de gênero. Consigo apostar que, assim como eu, elas estão acordadas enquanto os outros dormem, pensando em seus filhos e suas filhas, no almoço e no jantar do próximo dia, visitando algumas memórias, lembrando das roupas sujas que continuarão sujas se elas não fizerem nada. “A noite não adormece nos olhos das mulheres, há mais olhos que sono” (EVARISTO, 2017, p. 26). Não falo que não nos cansamos, mas que não dormimos. Nosso cansaço é antigo, se torna parte de nós. Vemos nossos colegas de trabalho avançarem nas nossas frentes enquanto fazemos o café das reuniões. Ganham cargos importantes e comemoram com belos jantares enquanto preparamos a comida e limpamos a sujeira.

E aprendemos que é preciso uma distância do objeto de estudo, um ateísmo metodológico, devemos deixar as emoções de lado e trabalhar racionalmente. Mas eu não sei não me envolver. Quando entrevisto mulheres e elas dizem que algo dói, eu sinto, é também minha dor. Quando eu escrevo que vidas marginalizadas importam, que são também frágeis e devem ser cuidadas, que histórias de vida de trabalhadoras sexuais devem estar junto das histórias de vida dos papas, eu sei sobre quem estou falando, sei nomes, sobrenomes e endereços. Minha fala tem lugar e referencial, posso apontar para a realidade e mostrar o que minhas palavras dizem. Falo sobre fome, pobreza, gênero, violência, fé, dor e rupturas. Quando falo sobre o outro, ou a outra, eu posso te dizer nomes, se quiser. São pessoas, não conceitos. Por ser uma fala localizada, vai ficando pessoal, me pego escrevendo sobre mim e sobre minha família para explicar minha perspectiva, quando o sistema me pede para escrever no plural e me mostra que ciência não é sobre o particular. Onde acho o plural se não no particular?

Isso se torna um problema quando entrego os textos porque me entrego junto. Com as análises, vão os sacrifícios que faço para me manter pesquisadora, a tristeza de não ver minhas semelhantes em lugares de poder. Ser exceção nesses espaços já corta nossas esperanças antes de começarmos a jornada. Apesar de estudar e reconhecer as violências de gênero, quando acontecem comigo eu demoro alguns instantes, nem sempre sei o que dizer, nem sempre digo algo. Quando digo, tento entender, antes, o que fiz ou falei de errado, se meu tom foi muito rude. Volto o problema para mim antes de ficar irada. Quando a violência é contra outra mulher, eu não vejo distância alguma. É também comigo, pertenço ao particular de mulher. Há algo nelas que também pertence a mim, e o que escrevo não é só meu, ou somente eu.

“A noite não adormece nos olhos das mulheres” (EVARISTO, 2017, p. 26), mas precisamos dormir. Nos doamos demais nos nossos trabalhos, nas linhas que escrevemos. Ser pesquisa e pesquisadora nos ocupa integralmente. Gênero é muito mais que categoria de análise, é um marcador existencial. Mas exaustas e com sono disputamos os mesmos lugares com homens descansados e nutridos, criados para desenvolver suas habilidades sem se preocuparem com a dimensão privada da vida. Suas casas são apenas casas, e não oficinas. Seus jantares são apenas comida, não os fizeram. Conseguem falar sobre mulheres no universal sem identificá-las na realidade, sem chorar suas dores. Conseguem dizer que temos que ler mulheres, mas não sabem o que é uma mulher, se perdem nas idealizações, nos arquétipos. Por não dormirmos, estamos exaustas. Somos como Adélia Prado quando diz em seu poema Exausto “eu quero uma licença de dormir, perdão pra descansar horas a fio, sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho”. Quero, com outras mulheres, acordar descansada, sem culpa. Ser “semente. Muito mais que raízes.” (PRADO, 2015, p. 28), potência, mais que alicerce.

 leia também


Referências

EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. 3. Ed. Rio de Janeiro: Malê, 2017.

PRADO, Adélia. Poesia Reunida. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2015.