Editorial: Religiões na Amazônia: compondo um mosaico

Editorial: Religiões na Amazônia: compondo um mosaico
28 de novembro de 2019 Sandson Rotterdan

Editorial: Religiões na Amazônia: compondo um mosaico

Falamos em mosaico das religiões na Amazônia propositalmente. Em primeiro lugar porque os mosaicos, na origem grega da palavra, designam uma obra das musas, que tinham por função inspirar a criação artística. Religião é criação humana, fruto da diversidade de culturas, das maneiras com as quais, nos diversos contextos os seres humanos se relacionam com o cosmos. O mosaico que se pretende compor neste número não é completo, nem definitivo. Talvez eles sejam algumas peças a compor este panorama mais amplo.
Na nossa atualidade imediata, a Amazônia foi fruto de disputas de discursos de vários lados. Primeiramente, porque há dois anos o Papa Francisco convocou um sínodo pan-amazônico para a Igreja Católica repensar seus caminhos na Amazônia internacional. Também neste ano de 2019, com a ascensão de um governo cuja pauta ambiental é amplamente questionada, houve um “dia do fogo” na Amazônia, com o intuito de pressionar a flexibilização das leis ambientais em favor do agronegócio. Um outro ponto que chama a atenção é a penetração de grupos religiosos cristãos nas tribos indígenas tendo em vista a converter os índios ao Evangelho, gesto semelhante ao dos missionários-colonizadores do século XVI. Destaco, aqui, a película Ex Pajé, de Luiz Bolognese, na qual um pajé passa a questionar a sua prática religiosa em meio a uma conversão em massa da tribo a uma igreja evangélica. Além desses temas graves, tratar de religiões na Amazônia, é também tratar de uma das maiores peregrinações católicas do mundo, o Círio de Nazaré, que se constitui como um pilar importante da cultura paraense.
Há muitas peças e interesses nesse mosaico. Interesses neocolonizadores de uma sanha cristã de dominar povos, de um capital que quer se apropriar do bem coletivo.
O presente número quer ajudar o leitor a colocar mais umas peças no mosaico, a identificar os componentes culturais e religiosos da maior região geográfica do país e que, no entanto, é por vezes ignorada pelas mídias especializadas e negligenciada pela academia. Que as musas, os encantados, os espíritos da floresta e dos ancestrais auxiliem a compreensão do problema posto.

Propomos elementos para dialogar. Boa leitura.