Liberalismo identitário: a “verdade” a partir de grupos marginais ou a partir do diálogo?

Liberalismo identitário: a “verdade” a partir de grupos marginais ou a partir do diálogo?
24 de novembro de 2019 Nelson Lellis e Roberto Dutra

Liberalismo identitário: a “verdade” a partir de grupos marginais ou a partir do diálogo?

Nelson Lellis e Roberto Dutra

“O liberalismo identitário deixou de ser um projeto político e se metamorfoseou num projeto de evangelização. A diferença é a seguinte: evangelizar é dizer verdades ao poder. Fazer política é conquistar o poder para defender a verdade”.

A frase acima é do cientista político Mark Lilla, publicada em seu livro O progressista de ontem e o do amanhã, pela Companhia das Letras (2018). Para este autor, o liberalismo identitário possui um paradoxo, pois “paralisa a capacidade de pensar e agir de maneira adequada para conseguir o que se diz querer”. Interpreta essa paralisia como uma hipnose através de símbolos que pretendem, em suas palavras:

  • “conquistar uma diversidade superficial nas organizações;
  • recontar a história de modo a deslocar o foco para grupos marginais e não raro minúsculos;
  • inventar eufemismos inócuos para descrever realidades sociais;
  • proteger os olhos e os ouvidos de adolescentes acostumados a filmes de terror contra qualquer encontro perturbador com pontos de vista alternativos”.

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

E o que vem a ser liberalismo identitário?

Analisando a história estadunidense – e diante disso podemos fazer associações com o Brasil –, as décadas de 1950-70, registraram a defesa pelos direitos de mulheres, homossexuais, afro-americanos. As pautas debruçavam-se sobre igualdade, cidadania e solidariedade. Não se excluía a generosidade diante da exigência da reparação histórica. Esta é a razão pela qual muitos dos que não pertenciam a estes grupos aderiam à causa. Já a partir de 1980, houve uma mudança radical, onde a identidade pessoal passou a ter destaque. Diferenciava-se o “eu” dos “outros”. Enquanto a primeira fase pretendia a igualdade, a segunda, sublinhou a diferença e a singularidade.

A singularidade não permite engajamento coletivo mais amplo. E como já dizem os manuais de ciência política, o indivíduo só se interessa por algo quando é afetado pessoalmente. O foco é colocado na demarcação de fronteiras de superioridade moral, baseadas no que Lilla chama provocativamente de “olimpíadas de vitimização”, e o resultado é o reforço da fragmentação da ação coletiva e da impossibilidade de uma política progressista para maiorias sociais.

E por que estamos tratando disso?

Para refletirmos numa possível relação de religiosos progressistas na política sem a prática da exclusão dos “diferentes”. Igualmente, observarmos como seria possível ampliar as redes de diálogo para uma construção solidária numa sociedade tão plural.

Tais razões nos permitem associar rapidamente com o que ocorre nos EUA. Lilla afirma que conservadores são contrários às políticas identitárias enquanto que progressistas desprezam o diálogo com o eleitorado popular destes conservadores. Para o cientista político, evangélicos conservadores não pregam mais sobre o Sermão do Monte e nem discursam acerca da caridade. Enquanto isso, a maioria dos católicos só falam contra o aborto. Em outras palavras, a solidariedade social perdeu seu espaço na pauta destes religiosos.

Todavia, em uma democracia, todos os votos são importantes. Os que discordam também devem ser levados em consideração. Percebe-se, portanto, a esquerda (ou grande parte dela – nossas palavras), com sua política identitária, construindo uma espécie de trajetória “moralista puritana”. Neste caminho, não se admite diálogo com religiosos mais conservadores, pois parece existir o “dever moral de chamar de monstros misóginos” aos que se opõem às ideias e ideais de sua visão política. Lilla chama atenção para a necessidade do diálogo a fim de se perceber as diferenças, mas, sobretudo, as concordâncias que podem ajudar a trilhar novas sendas de ação coletiva em favor da ampliação da cidadania e da solidariedade social complexa. Afinal, como dizia Weber, “fazer política é ter paciência e firmeza para perfurar tábuas duras”; e acrescentamos: inclusive as nossas. Citamos mais uma vez Lilla:

“A retórica política progressista nada faz para convencer os mais abastados de que têm uma obrigação permanente para com os menos prósperos. A Bíblia costumava fazê-lo, porém não mais. Apesar de este país ainda ir à igreja, o evangelho que hoje se prega, sobretudo nos círculos evangélicos, está contaminado do mesmo individualismo, do mesmo egoísmo, da mesma superficialidade que infectaram outros setores da vida americana [e digo aqui, até a brasileira!]. Muitos crentes ainda pagam dízimos para a igreja, mas rejeitam logo de cara a ideia de que também os impostos são uma espécie de dízimo democrático destinado a ajudar cidadãos iguais a eles.”

E como é possível a construção de um diálogo?

Com dores de parto!, pois nem as igrejas e nem a nossa cultura popular instilam o diálogo. Instilam apenas o “sentimentalismo, que é autorreferente”. Por isso, nosso autor acredita que a educação baseada no liberalismo identitário é destrutiva para o diálogo.

Ser “anti” alguma coisa, por exemplo, não significa substancialmente praticar exercício político.

O liberalismo identitário não pode se esquecer que tudo começa no “nós”. Não se deve banir o “nós”. O diálogo deve afirmar que todos somos cidadãos. E cidadania se constrói. Ninguém nasce cidadão.

Na obra aqui discutida, a direita americana (e por que não a brasileira?) utiliza o termo “cidadania” como ferramenta de exclusão. A tarefa, para os progressistas é superar a política identitária e a postura puritana e moralista, evocando uma linguagem política “para falar sobre uma solidariedade que transcende os vínculos identitários”.

A causa maior dos progressistas é a transformação das estruturas sociais que impedem o acesso a padrões de vida e relações sociais dignas e engrandecedoras para a mulher e o homem comum. O problema não é apenas de desigualdade. É também o da qualidade do padrão de vida comum que a política consegue construir. A política identitária apequena as ambições da solidariedade social, sucumbindo a um narcisismo que só pode ser superado pela busca e construção de solidariedades sociais mais amplas e complexas, como a cidadania e o pertencimento nacional.

O conceito de “lugar de fala” foi banalizado pela política identitária que hoje domina o discurso progressista sobre as desigualdades sociais. Seu uso atual é predominantemente moral, e isto destrói seu potencial de servir a um discurso mais reflexivo (mais consciente de seus alcances e limites) sobre a desigualdade e suas consequências: as diferentes formas de sofrimento e humilhação de pobres, negros, mulheres… O objetivo dos identitários é demarcar posições de superioridade moral com base em um “campeonato de sofrimento”, no qual somente as “vítimas autênticas” da desigualdade e de suas consequências ganham o direito de falar e discursar sobre o problema.

A política identitária, tanto a de esquerda como a de direita, é uma prática moral, pois sua lógica é justamente construir julgamentos totalizantes sobre pessoas e grupos de pessoas, o que sempre resulta em repetição do binômio bom/mau. Não é uma prática política, pois a lógica da política é construir engajamentos e decisões coletivas, mesmo que seja necessário a ajuda de pessoas moralmente questionáveis do ponto de vista pessoal. Os liberais identitários transformaram o conceito de “lugar de fala” em um mesmo e único “lugar de fala puritano”, que visa catequizar os moralmente inferiores, e não construir solidariedade social complexa, na qual o engrandecimento de todos não seja negligenciado, como tarefa maior da política, por “guerras culturais” que nos afundam no primitivismo político, moral e cognitivo.

A politização das desigualdades não pode ter o protagonismo de tendências e abordagens identitárias intolerantes, fechadas ao diálogo e ao próprio aprendizado político prático através da elementar avaliação das consequências da ação. As desigualdades que atingem a mulher e o homem comum devem ser enfrentadas por políticas de ampliação da identidade coletiva, tendo a ideia de nação (sem nenhum exclusivismo étnico-racial), como “comunidade imaginada” (Benedict Anderson) de iguais, no centro de seus discursos, performances e símbolos.

Concluímos: nós, os brasileiros, temos uma difícil tarefa num campo onde grupos identitários, religiosos, de direita e de esquerda, pararam de agir politicamente para acionarem discursos em defesa de si mesmos e em defesa de “valores absolutos” e muitas vezes inócuos e violentos. Talvez… tenhamos de colocar as “armas” fora da mesa, respirarmos fundo e, como primeiro exercício neste diálogo, ouvirmos o outro. Só assim seria possível a construção de identificações políticas mais amplas e realmente diversas.