Deus, Olavo de Carvalho e Bolsonaro – tem como dar errado esse governo?

Deus, Olavo de Carvalho e Bolsonaro – tem como dar errado esse governo?
9 de janeiro de 2019 Nelson Lellis

Deus, Olavo de Carvalho e Bolsonaro – tem como dar errado esse governo?

Por Nelson Lellis

Foto: "Sergio Lima/AFP"

Foto: “Sergio Lima/AFP”

 

“Divina Providência uniu ideias de Olavo de Carvalho à determinação e ao patriotismo do presidente eleito, Jair Bolsonaro”.

“Meus detratores me chamaram de louco por acreditar em Deus e por acreditar que Deus atua na história, mas eu não me importo. Deus está de volta e a nação está de volta. Uma nação com Deus; Deus através da nação. No Brasil, o nacionalismo se transformou no veículo da fé, a fé se tornou o catalisador do nacionalismo, e ambos acenderam uma empolgante onda de liberdade e de novas possibilidades”.

 

Estas foram as frases ditas pelo chanceler de Bolsonaro, Ernesto Araújo, na revista estadunidense The New Criterion. Caso tenha interesse em conhecer seu conteúdo, basta fazer uma rápida pesquisa no google. As seções são separadas para críticas teatrais, artísticas, midiáticas, literárias.

Roger Kimball e James Panero – que considera Trump “o homem da paz” – são os editores. Na década de 1990, Kimball se destacou com a publicação de seu livro Tenured Radicals: How Politics Tem Corrupted Higher Education. Além disso, em 2016 apoiou Donald Trump e em 2017 o comparou a Péricles (estadista do séc. V a.e.c.) de Atenas em um de seus artigos. No ano de 2018, demonstrou apoio a Bolsonaro e o felicitou através do twitter após a vitória.

O que isso tudo quer dizer?

Que o espaço encontrado por Ernesto foi estrategicamente político e demonstra, mais uma vez, o elo entre – não apenas a filosofia de Olavo de Carvalho e o patriotismo de Bolsonaro – as conexões cada vez mais óbvias entre EUA e Brasil. E isso já era percebido e denunciado pela organização Wikileaks, uma vez que documentos de Washington mostraram como os EUA treinaram agentes da justiça brasileira, dentre eles o próprio juiz Sérgio Moro. Lembrando que Ernesto é o homem escolhido para as relações exteriores e que, embora tenha sido criticado por alguns no Itamaraty, é um grande defensor de um alinhamento às ideias de Trump. Resumindo: há um fio condutor nessa história e a religião é uma mera ferramenta que legitima todo esse processo.

Ernesto escreveu em seu artigo que:

“Ao longo dos últimos anos o Brasil se tornou uma fossa de corrupção e aflição. O fato de que as pessoas não falavam sobre Deus e não traziam a sua fé para a praça pública certamente era parte do problema […] Agora que um presidente fala sobre Deus e expressa a sua fé de um jeito profundo e sincero, isso deve ser visto como um problema? Pelo contrário, eu estou convencido que a fé do presidente Bolsonaro foi instrumental, não acidental, para a sua vitória eleitoral e para a onda de mudança que está limpando o Brasil”.

Note que, para Ernesto, a ausência do discurso e da vivência da fé (neste caso, cristã) na esfera pública era do parte do problema de corrupção e aflição. Mas o que dizer da bancada evangélica? Das mídias pentecostais com viés político? Dos programas de televisão administrados por igrejas e aliançadas com partidos, como o PRB? Ora, a questão, desconfio, não é a ausência de Deus em praça pública, mas a abundância dele.

Bolsonaro seria, de fato, o messias, o instrumento de Deus para a grande mudança estrutural. E por que ele? Segundo Ernesto, por causa de sua profundidade e sinceridade na expressão de sua fé. A crença católica de Bolsonaro que passou a discursar utilizando versículos bíblicos mais conhecidos entre evangélicos. Até porque, mesmo que o Brasil ainda seja um país católico, que tem feito mais “barulho” são as igrejas evangélicas – verdadeiros cabos eleitorais para a direita.

E que limpeza é essa?

O novo chanceler entende que o MDB, PSDB e PT foram responsáveis por sufocarem a economia do país e que a vitória de Bolsonaro ajudará nessa limpeza democrática e econômica. Para Ernesto, “uma mudança de verdade apenas poderia vir de fora, dos domínios intelectuais e espirituais”. Dando nomes aos protagonistas desta história, cita Olavo de Carvalho, a operação Lava-Jato e o presidente eleito Jair Bolsonaro.

Quem é Olavo de Carvalho para Ernesto?

“A única pessoa no Brasil, durante muitos anos, a usar a palavra comunismo para descrever a estratégia do PT […] Talvez tenha sido a primeira pessoa no mundo a ver o globalismo como um resultado da globalização, a entender seus propósitos horríveis e a começar a pensar sobre como derrubá-lo […] Graças ao boom da internet, e especialmente à revolução das mídias sociais, de repente as ideias de Olavo de Carvalho começaram a penetrar todo o país, alcançando a milhares de pessoas que até então tinham se alimentado apenas dos mantras oficiais”.

Pensando na “intelectualidade” de Carvalho, como unir aos atos “patriotas” de Bolsonaro?

“[…] Essas ideias (de Carvalho) romperam todas as barreiras e convergiram com as posições corajosas do único político brasileiro verdadeiramente nacionalista dos últimos cem anos, Jair Bolsonaro, dando-lhe um apoio de base sem precedentes”.

E a relação entre o filósofo e o chanceler quase foram abaladas após uma fakenews. Na página do facebook, Carvalho não mede palavras para defender Ernesto:

“Quero saber quem foi o filho da puta que botou no Instagram uma mensagem, com o meu nome, contra Ernesto Araújo. Nunca uso Instagram (nem aliás WhatsApp), e considero o Ernesto Araújo o brasileiro mais qualificado para ser ministro das Relações Exteriores. Fim de papo”.

Finalizando…

Ernesto já havia afirmado que Trump “pode salvar o ocidente”. No final de seu artigo, declarou: “Somente um Deus poderia ainda salvar o Ocidente, um Deus operando pela nação – inclusive e talvez principalmente a nação americana”.

Faça as contas. Não é difícil perceber. O deus que está envolvido nesta história é o mesmo deus dos grandes impérios. Ligando uma intelectualidade que fabrica frases num escritório abarrotado de livros, atrás de uma mesa, fumando um charuto, com um nacionalismo que presta continência para a bandeira norte-americana, e agora com um chanceler que acredita que deus uniu tudo isso (que está aí), o que se pode afirmar?

Se a plataforma que pretendem construir seus discursos é religiosa, pois bem, “o que Deus uniu, não separe o homem”. E que fiquem assim, como bons e legítimos cristãos… “até que a morte os separe”.