A Vila e o Medo como alicerce de uma Educação Moral

A Vila e o Medo como alicerce de uma Educação Moral
3 de julho de 2018 Albert Drummond Lopes

A Vila e o Medo como alicerce de uma Educação Moral

Por Albert Drummond Lopes

© The Village / Divulgação

Em 2004, o filme A Vila do diretor M. Night Shyamalan trouxe entre tantas outras, uma reflexão sobre como temos conduzido a educação moral até os tempos atuais. No enredo, um grupo de pessoas, cansadas da violência cruel ao qual foram acometidas decidem abandonar a vida na cidade para fugir dos estímulos mundanos que acreditam influir diretamente no mal que os aflige. Autodenominados anciões, eles se fixam numa floresta esquecida pelo governo, desenvolvendo ali uma própria educação fundamentada no bem coletivo e no medo, sendo este último a única ferramenta que encontram para impedir que as futuras gerações saiam dali e coloquem toda utopia em risco. Com rituais próprios e com uma ética religiosa baseada na culpa, eles criam meios de manterem a ilusão de que naquele ambiente estão imunes e protegidos da maldade. A floresta que os cercam e que os separam da cidade se transforma num lugar de terror onde seres do mal “habitam”, reafirmando através do imaginário e misturando a realidade do mundo que viviam com a fantasia que criaram. O medo, porém é uma faca de dois gumes que se manifesta na fuga ou no ataque e quando isso acontece, o mistério deixa de ser questionado e passa a ser provocado, colocando em xeque o poder que antes era exercido sobre os demais. No filme, todos os aldeões que não sabem do segredo dos anciões, acreditam neste mal iminente, todavia o medo de arriscar suas vidas para ver o que se encontra depois da floresta os paralisam e os impedem de ampliar seu campo de visão, segregando ali, toda sua potencialidade que se prende a uma fé que só existe para protegê-los deles mesmos. O medievalista Jean Delumeau (2003) disse que o medo é ambíguo, inerente a nossa natureza, como um reflexo indispensável para nosso organismo escapar provisoriamente à morte. “Sem ele nenhuma espécie teria sobrevivido”; apesar disso, se essa medida for ultrapassada, o que era uma emoção que pode salvar se torna um bloqueio patológico, onde se mata por medo ou se morre com ele! Durante toda a história da religião percebemos este um dos principais artifícios para a manutenção do poder utilizado como instrumento fidelizador das diversas doutrinas. Com papel fundamental para o desenvolvimento da civilização humana, foi ele que nos incentivou a lutar para desvendar o desconhecido, por isso, como sentimento decorrente do impalpável, ele esteve presente em todas as sociedades, de todas as épocas. Na educação moral, portanto, ele criou a mentalidade de um Mal provedor universal das desgraças do mundo, personificando na figura do diabo ou da Besta, algozes onipresentes das nossas falhas cotidianas. O medo atribuído por uma educação tradicional nos fez acreditar em seres como Bicho Papão, Boi da Cara Preta, Homem do Saco, Mula sem Cabeça, Monstro do Armário, Maria Desgraça, João Felpudo, Cuca…; construções para “auxiliar” pais (despreparados) a manterem domínio sobre os filhos, utilizando da chantagem ou da ameaça para obrigá-los acatar regras ou posturas condizentes com as que aprenderam. Uma educação que transita meio às incertezas, anula o critério da consciência livre e não oferece oportunidades para quem está sendo protegido ou poupado de tomar decisões por si mesmo com base nas adversidades reais. Uma educação moral de qualidade só se estabelece quando a pessoa se propõe a praticar atos morais baseados no autoconhecimento e na consciência sobre as próprias emoções negativas e nunca com base no medo de ser punido; porque se assim o for, não são educação nem aprendizado de idéias, mas condicionamento, da mesma forma que se faz com um animal adestrado. Todos aqueles que nasceram na Vila cresceram acreditando que o único mal a ser temido vinha da floresta, ignorando qualquer possibilidade de defesa ou questionamento sobre as regras e leis já impostas. Desejando fieis, filhos, alunos, empregados, esposas ou maridos cada vez mais obedientes, construímos uma moral rigorosa que não aceita acordos ou diálogos e isso gera pessoas que se educam com base na obrigação, sem aprofundar conceitos de respeito e empatia. No filme, a forma que encontraram de sanar as deficiências da moral tradicional foi abdicando das regras do Mercado, se afastando do convívio com a violência e buscando uma paz baseada na esperança de um lugar melhor, contudo não se atentaram de que a Modernidade não é a origem do mal, mas apenas um estímulo ao mal que já carregamos em nós, através dos instintos, dos vícios emocionais, do medo da finitude. Num lugar como a Vila, a educação está sobre a ode das virtudes, porém não combate os vícios, mas os anulam, como se não existissem ou não tivessem validade já que para eles foi escolhido uma vida oposta. Quando o personagem Noah Perce comete um crime, mesmo que justificado pela loucura que carrega, os anciões percebem que ali também não estão imunes de sentimentos primitivos como a inveja, a ira, a luxuria, a avareza, a gula, a melancolia e a vaidade; uma vez que a única coisa que nos diferencia dos animais é nossa capacidade de pensar, racionalizar as emoções negativas, aprendendo sobre elas para descobrir como combatê-las. Somos imbuídos dessas sensações e cabe a nós e a nossa construção ética e moral decidir se vale apena vivenciá-las ou não. Como bem disse nas leis de Murphy “Tudo que é bom na vida é ilegal, imoral ou engorda” e o fato de que todas essas emoções nos dão ate certo ponto prazer – mesmos que breve como um gozo – é que as transformam em compulsões, a sociedade de consumo em catalisador e nós em viciados. As Religiões assim como os Estados detiveram o poder sobre como a educação moral seria condicionada através de teologias morais e leis cada vez mais severas, usando da esperança, do temor ou da culpa, para controlar nosso primitivismo, portanto, como sempre se mostrou, o medo nunca foi a solução para conter esses instintos, pelo contrario, apenas um estimulo. Por isso que a única saída para uma boa moral seria através do autoconhecimento, onde se observa os males – tão bem categorizados pelas religiões – as suas fraquezas e as sementes germinadoras dos vícios, para assim, somente assim, conseguirmos buscar um remédio para nossa cura. Não se pode pedir paz no mundo quando não se vive em paz consigo mesmo, por isso não é o diabo ou a falta de fé responsável por nossa destruição, uma vez que todo o mal que apodrece o mundo parte de nós. O que não podemos, portanto é cair na mesma cilada daqueles que fingem que este mal não existe, vetando qualquer responsabilidade e evolução ética. Num mundo em que as pessoas crescem inibidas e não são capazes de expressar suas emoções por medo ou culpa, a solução não é criar mais monstros para nos impedir de aprendermos atitudes pro-ativas capazes de mudar nossa própria realidade. Mas sim, desconstruir os medos que criamos entendendo que eles também são parte de quem somos, sem evitá-los, mas confrontando-os para dominá-los quando necessários. A Vila apresenta uma ideologia educativa perfeita que se desmorona pela omissão do pior que temos em nós. O mal não é o problema, o erro é acreditar que os monstros estão apenas nos outros. Educar sem medo é educar com consciência!


Referências

ARISTÓTELES. Ética e Nicômaco. Tradução Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2001.
BASCHET, Jérôme. A Lógica da Salvação. A Civilização Feudal: Do ano mil à Colonização da América. São Paulo: Globo, 2000. p. 374-385.
DELUMEAU, Jean. O pecado e o medo. A culpabilização no Ocidente (séculos 13-18). São Paulo, vol. I. EDUSC, 2005.
FREUD, Sigmund apud BAUMAN, Zygmunt. O Mal estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro: 1998. Jorge Zahar Ed. 1998.
SHYAMALAN, M. Night . The Village. Touchstone Pictures: Estados Unidos, 110 min. 2004.