Santa Liberdade, rogai por nós.

Santa Liberdade, rogai por nós.
2 de novembro de 2017 José Veloso

Santa Liberdade, rogai por nós.

Por José Veloso

© Marcelo Gerpe

© Marcelo Gerpe

Como se já não bastasse o obscurantismo em que nosso país se enveredou, desde o famigerado golpe deflagrado contra a democracia em 2016, com seus inúmeros escândalos e ações políticas, jurídicas e midiáticas que corroboraram e ainda corroboram com esse estado de exceção; as expressões artísticas vem sofrendo ataques constantes por movimentos conservadores.

O primeiro alvo foi a exposição Queermuseu, Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, com curadoria de Gaudêncio Fidélis, no Santander Cultural em Porto Alegre-RS. Em seguida, a performance “La Bête” de Wagner Schawartz no Museu de Arte Moderna de São Paulo.  Agora, Belo Horizonte vive seu momento de “caça às bruxas”.  A mostra do projeto Arteminas, promovido pela Fundação Clovis Salgado-Palácio das Artes, que busca destacar a produção de artistas mineiros de vanguarda e de distintas épocas, tem sido alvo de protestos, principalmente a exposição “Faça você mesmo sua capela sistina” do artista já falecido Pedro Moraleida.

Diante de tal cenário, eu como artista plástico, me senti também atacado e experimentei de maneira sutil a violência autoritária da censura. Não só por produzir trabalhos envolvendo o universo simbólico católico/cristão, mas principalmente por empatia à classe artística, que inevitavelmente, já sofre preconceitos diversos.

Desse modo, pensando em escrever sobre o assunto, investi em uma experiência pelas redes sociais. Recentemente, descobri a existência de uma Santa católica desconhecida da maioria dos brasileiros, a Santa Librada, Liberata ou Virger Fortis (Virgem Forte), que tem as origens de sua crença na Europa medieval. Eu a conheci por meio de uma amiga virtual, a professora universitária Megg Rayara Gomes de Oliveira, primeira Travesti negra a conquistar o título de doutora na Universidade Federal do Paraná. Megg postou algumas imagens da Santa em sua página no Facebook com o seguinte texto: “uma santa que desafiava as normas de gênero do seu tempo exibindo uma bela barba, o que resultou no seu martírio e morte na cruz. Sua barba não impediu que fosse canonizada nos moldes tradicionais da Igreja Católica”. Pesquisei mais sobre essa personagem e confirmei sua existência e as variadas narrativas de sua origem, culto e devoção.

Decidi , então, postar em minhas redes sociais (Facebook e Instagran) a imagem de Santa Librada, sem contextualizá-la ou dar qualquer explicação, para assim observar as possíveis reações. A interação pelo Instagran foi maior. De imediato, recebi mensagens pelo direct, de amigos relatando suas impressões: a postagem era ofensiva, desrespeitosa e desnecessária. Reação previsível, levando em conta que, se a imagem for analisada puramente, o que se pode interpretar, é que se trata de “uma mistura de Jesus e Maria” , ou de que “colocaram um vestido em Jesus”. Buscando por mais interação, fiz uma enquete usando o stories, perguntando se a imagem era desrespeitosa ou não. Obtive um resultado equilibrado, levando em conta meus círculos de amizade. Dos amigos que se dispuseram a responder, 40% disseram que sim, que a imagem era desrespeitosa e 60% disseram que não. Então, me aprofundei perguntando aos 40% o porquê de acharem a imagem desrespeitosa. As respostas foram distintas, mas em todas elas encontrei um escopo em comum: a desconstrução de um símbolo de grande valor afetivo , que todos eles aprenderam a respeitar, adorar e confiar.

O meu objetivo, com esta experiência, era o de atestar o risco eminente que existe em julgar com imediatismo, com poucas informações e baseando-se somente em nosso repertório pessoal de conhecimento e de experiências, ou simplesmente no que “vimos e ouvimos dizer”. Fato este, que ocorreu e tem ocorrido com todas as exposições mencionadas no início do texto.

Desconsiderando tanto a história da Arte como a sua natureza criativa, milhares de pessoas acusaram artistas de estarem cometendo crimes bárbaros e de fazerem apologia a situações degradantes e desumanas. Foram chamados de vagabundos, depravados,
insanos…

© Johany López

© Johany López

As acusações baseiam-se em percepções rasas, imediatistas, sensacionalistas e totalmente descontextualizadas. Grande parte dos que acusaram, não se permitiram a uma  experiência estética de visita a estas mostras, nem conhecer mais sobre os artistas e suas proposições – o que ainda poderia desembocar em uma não apreciação, descontentamento, crítica, um não gostar – assim como nada nem ninguém nos obriga a visitar as exposições. Nada, nem ninguém, nos obrigará a gostar e aprovar o que vemos, entretanto, a nossa discordância não pode ser veículo de proibições e censura. E muitos dos acusadores que as visitaram, partiram apenas de seu próprio referencial, utilizando sua visão de mundo como crivo inexorável do que é ou não é arte. Uma postura intransigente, míope e preconceituosa.

O mais insano de todo esse movimento, é que grupos políticos aliados a setores religiosos conservadores, tanto evangélicos quanto católicos, se valeram de pautas morais, para supostamente defender a sociedade de um inimigo, materializando-o nas artes. Não se encontra notícias de que alguma obra de arte tenha cometido  crime de pedofilia. Entretanto, pais, padrastos, tios, padres, pastores e artistas também, sim! Homens e mulheres cometem este crime hediondo. Há inúmeras notícias, basta uma simples pesquisa no Google, que encontramos estatísticas assustadoras sobre abuso sexual de menores. E o mais estarrecedor, os mais altos índices de pedofilia são encontrados nos grupos que encabeçam essa pequena lista que mencionei acima. E sobre a existência de crianças viadas, sim elas existem. Converse com alguém que faça parte da comunidade LGBTQI+, provavelmente irão relatar suas impressões pueris e livres de julgamento, sobre sua sexualidade. Pensem também sobre suas próprias percepções da sexualidade quando eram crianças. A maldade não está na nudez, ela vive na alma de quem a acusa como maldade. Todos querem a proteção de nossas crianças, e o perigo, definitivamente, não está na arte.

Outra acusação é o de vilipêndio de símbolos religiosos, ou seja, menosprezo, escarnecimento. Sim, em muitas obras destas exposições há referências explícitas e implícitas à simbologia católica/cristã. É importante fazer uma pergunta: por que os artistas se valem desse repertório simbólico (católico/cristão) quando a temática expressa em suas criações são relacionadas à sexualidade? A religião cristã ainda é, infelizmente, a grande responsável por introjetar sentimentos de culpa sobre grupos sociais. Onde aprendemos que nascemos de um ato de pecado, que o prazer sexual é um pecado. É notável que a Teologia atual já desmistificou estes paradigmas, e há um pensamento renovado dentro da igreja, porém, essa proposta de leveza existencial não chega a maioria dos fiéis. Outra questão ignorada, os signos e símbolos religiosos pertencem não somente às instituições e ao credo que professam, eles também fazem parte de um repertório cultural muito maior, que abrange crentes e não crentes. Inclusive, vale lembrar que a iconografia e iconologia cristã se formaram com inúmeras fontes simbólicas, e de alguma forma, profanando-as; são algumas delas:   judaica, grega, romana, celta, moura, enfim, bebemos todos de uma mesma fonte.

A pintura de uma mulher não é uma mulher, é uma pintura, já disse Matisse, célebre pintor do século XIX. Jesus pintado em um quadro não é Jesus, é uma pintura.

A arte propõe, levanta questionamentos, citando a filósofa Márcia Tiburi, em recente vídeo publicado, “Reacionários não gostam de arte, porque não gostam de questionamentos”. É desalentador perceber que tamanha repulsa pelas artes é fruto de um sistema educacional que marginaliza o ensino das artes e quase sempre reserva aos professores de artes a função de decorar a escola em ocasiões festivas. Cresci e fui educado em uma realidade assim. Não tive acesso a Museus e Galerias, o contato mais pungente que tive com o vasto universo das artes foi no início do ensino médio, durante as aulas de literatura quando estudamos as vanguardas do início do século XX. E confesso, foi doloroso e demorado o processo de educar meu olhar para as artes. Nos primeiros anos na Faculdade de Artes (Escola Guignard-BH), resisti fortemente a tudo que fugisse do que eu já conhecia e acreditava como sendo verdadeiro, belo e bom.

O que ganhei com essa “reeducação do meu olhar”? Muito mais que aprender a apreciar as artes, aprendi a apreciar o mundo, as relações que com ele estabeleço, as pessoas e as relações que com elas estabeleço. Um olhar rápido, rasteiro, e sem curiosidade sempre nos oferecerá um juízo igualmente rasteiro, pobre, que nos desumaniza e limita a vida em sua plenitude. “Toda ditadura é casta e contra a vida; toda manifestação de vida representa, em si, um inimigo de qualquer regime dogmático.” Reinaldo Arenas, escritor cubano, homossexual, perseguido pelo regime
castrista.

Busquei ,como escopo dessa reflexão, um elemento religioso/católico, pois, foi essa a formação que recebi, embora hoje, pelas crenças que sustento, poderia ser classificado como um humanista cristão, ou como define André Comte Sponville, um ateu fiel. Além disso, a instituição católica é o espaço onde me exercito profissionalmente, desde que saí da universidade, como fotógrafo, pesquisador sobre artes sacra, designer e comunicador. É um universo caro para mim, pelo qual nutro profundo respeito e admiração, o que não me impede de assumir posicionamentos críticos e combativos diante de situações e ações que percebo serem desumanizadoras e até mesmo contra a vida. O que me faz hoje acreditar mais na Arte juntamente à psicanálise e psicologia, do que na religião, ciência ou filosofia, como a ação humana com mais potencial humanizador e transformador de realidades, levando em conta seu poder de transformação do indivíduo, libertando-o de suas prisões internas e suas inférteis idiossincrasias. Estas que nos favorecem a criar inimigos e reconhecê-los fora de nós mesmos, nos levando assim, a um combate improdutivo, como afirma o psicanalista Christian Dunker: “ Brigar com alguém é criar sentido, criar horizonte, criar algo. A pessoa que não consegue criar nada, cria inimigos. A função da Cultura, das Artes, de tudo aquilo que não tenha relação com produção ou consumo, é justamente ensinar as pessoas, ajudá-las a criar. Se elas não criam de um jeito, vão criar de outro.”

Estes grupos se utilizam de pautas como estas de palanque político, vislumbrando o cenário de outubro de 2018, que já se mostra extremamente conservador. Uma Insanidade política e religiosa. Desta maneira, convido àqueles que se ofenderam com as obras de arte expostas nestas mostras, a visitá-las, se possível, antes que sejam proibidas. Permita-se uma experiência estética, experiência que não necessariamente será positiva. E escutem Jesus, ou mesmo, se perguntem: nos evangelhos, a quem Jesus condenou? Garanto-lhes que não foram artistas, prostitutas, homonexuais e miseráveis, mas sim, religiosos, políticos e os senhores do mercado.

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