Uma espiritualidade que respira liberdade!

Uma espiritualidade que respira liberdade!
5 de setembro de 2017 Jonathan Felix

Espiritualidade

Uma espiritualidade que respira liberdade!

Por Jonathan Félix

No desenvolvimento da nossa espiritualidade temos que ter muito cuidado para não viver na superficialidade, no fechamento em si mesmo ou  no fechamento institucional. Esses fechamentos podem levar a pessoa a um grande risco, que é a vivência de uma espiritualidade dogmática, radical, rígida e sectária. Quem vê o mundo aos trinta anos, da mesma forma que o via aos vinte, desperdiçou dez anos da sua vida e, sem dúvida alguma, os e as sem religião podem nos ajudar nesse processo de perceber a possibilidade de uma espiritualidade para além das instituições religiosas.

Na história, é possível perceber que existiu e ainda existe, diversas espiritualidades que não eram ou não são das religiões.  Passamos a compreender que a espiritualidade é mais do domínio da experiência do que pensamento, mais da existência que da racionalização.

Uma profunda espiritualidade nos abre para o mundo, para os outros. É o processo de perceber-se habitante do universo, de liberta-se e não viver a paranoia intensa de salvar o eu dessa sociedade líquida, disforme, desfocada.  A vida espiritual nada mais é que a vida do espirito, é o processo de libertar-se do ego, do “euzinho querido”, dos seus pequenos temores, rancores, interesses, angustias e outros.

Em 2014, no I Encontro de Juventudes e Espiritualidades Libertadora em Fortaleza, entrei em um processo de crise de fé.  Vivia, naquele momento, junto aos diversos grupos de jovens da Pastoral da Juventude, profundos questionamentos sobre o nosso real papel e o fechamento institucional para pautas tão importantes para as juventudes. Foi nessa fase que comecei a respirar liberdade, busquei apoio, autoconhecimento, bebi em diversas fontes e encontrei amigas e amigos que me ajudaram no processo de reflexão e fui para além da instituição.

Pude entender que o primeiro passo para uma espiritualidade libertadora era entrar em crise pessoal, e isso é maravilhoso, pois uma espiritualidade que não dialoga com a realidade, com o contexto histórico, não é libertadora. Depois da crise, entrar em um processo de autoconhecimento e, nele, descobrir que possuímos uma inteligência que é, também, espiritual e ela nos permite ver o mundo a partir de outros ângulos que o fechamento dentro de uma instituição pode, por vezes turvar o olhar. Aqui não poderia deixar de fazer reminiscência do poeta Manoel de Barros: a inteligência espiritual, depois da crise, nos ajuda a transver o mundo.

O crescimento dos/as sem religião no Brasil talvez nos explique e aponte caminhos para uma espiritualidade livre, que nos permita desenvolver a capacidade ver por vários ângulos e compreender a realidade de forma plural. Uma espiritualidade inteligente que sente, vibra e toma decisões para além das instituições.

Isto aponta para a tarefa de assumir um papel que, de fato, deve ser conduzido pela própria pessoa, e isso exige decidir ser protagonista ou autor da própria história. Mas o que isso quer dizer? O primeiro encena um papel e é dirigido por alguém, não tem autonomia, pois o seu destino já foi definido por um escritor ou moldado por um diretor. Já o autor, é alguém livre, que pensa, que sente e vive a partir da sua realidade. Constrói a sua jornada, experimenta os diversos pratos e questiona constantemente a própria história, mas não deixa de estar no palco. O protagonista não pode mudar de opinião, pois o seu destino já está traçado. Já o autor, pode questionar-se a todo momento e livrar-se das verdades absolutas.

Em um dos livros do Augusto Cury, ele nos ajuda a refletir: Quantos e quantas tornaram-se especialistas em “deus”. Mataram, excluíram, arruinaram vidas, silenciaram vozes. Desenvolveram um deus no teatro da sua mente para excluir seus semelhantes. Um deus da dimensão do seu egoísmo, do tamanho das suas verdades.

Chico César, cantor e compositor baiano, pode nos ajudar a sair desse lugar comum, a deixar as verdades pré-estabelecidas e invocar respostas, respirando liberdade:

Deus dos sem deuses
deus do céu sem Deus
Deus dos ateus
Rogo a ti cem vezes
Responde quem és?
Serás Deus ou Deusa?
Que sexo terás?
Mostra teu dedo, tua língua, tua face
Deus dos sem deuses
(Música: Invocação – Chico César)

Uma profunda espiritualidade, questiona e nos ajuda a ultrapassar os limites institucionais, a perceber que Deus é muito grande para caber dentro de nossas caixinhas.   


Referência

COMTE-SPONVILLE, André.  O espirito do ateísmo: Introdução a uma espiritualidade sem Deus. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007. P127-190.