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Espiritualidade sem religião

Espiritualidade sem religião

Há poucos dias, regressando de um serviço religioso católico, ao qual compareci para prestigiar a um amigo, chamamos um serviço de Uber e o assunto religião surgiu de imediato. Gabriel (nome fantasia do motorista) perguntou sobre o que estava acontecendo no local. Comentamos de modo genérico sobre o que acontecera naquela noite e sobre o que representava para a região o que ali acabava de acontecer. O jovem motorista não se intimidou em apresentar as suas críticas ao reconhecer, do seu ponto de vista, que os líderes religiosos nem sempre lhe parecem ocupados com o bem de suas comunidades. Na sua visão, são pessoas apenas interessadas em obter vantagens e benefícios próprios, sendo capazes até de roubar de pessoas simples. De modo insistente, o condutor queria saber sobre como viviam e do que viviam os agentes religiosos, indagava sobre seus vencimentos. Interessado nas curiosidades do condutor, perguntei pelo seu vínculo com alguma instituição religiosa. Ele logo revelou sua condição de sem-religião, e acrescentou que muitas eram as pessoas que, como ele, já não tinham vínculo com nenhuma doutrina nem instituição. Eu me curvei em sua direção e passamos a nos comunicar pelo espelho retrovisor do carro. Demonstrei toda a minha atenção em sua história e em sua maneira de ver a instituição religião. Era um sem-religião e há quase dez anos eu vivo de pesquisar essas pessoas. Não podia deixar passar aquela oportunidade. 

Para Gabriel, uma grande parte das pessoas estava vivendo dessa sua forma. Perguntei por sua família e ele contou de uma avó católica e de um pai sem-religião com quem se identificava. Falei com o motorista sobre os números de pessoas sem-religião no país e emendei perguntando se ele tinha alguma fé em Deus ou em algo do tipo. Queria saber que tipo de sem-religião era o rapaz. “– Creio em algo superior, mas não como dizem as religiões”, respondeu com firmeza. Emendou refletindo como concebia a origem das noções de Deus, ocorrida nos tempos muito antigos e de como essa noção vinha se mantendo através das diferentes doutrinas. Percebendo meu interesse, Gabriel me perguntou em que eu era formado, e após saber da minha identidade profissional, disse que eu sabia do que ele estava falando. Dali em diante, pelo trajeto de pouco mais de sete quilômetros entre um templo católico e um bar, finalizamos com as críticas de Gabriel aos terraplanistas e aos antivacinas de um tempo muito maluco. Confesso que meu desejo era chamar o Gabriel para tomar um chopp conosco, porque aquela conversa, mesmo que informal, seria muito legal. Mas valeu pelo que durou o caminho.

O caso de Gabriel, motorista do aplicativo Uber, é o relato comum de muitos dos que ouvimos como autodeclarados sem-religião. Como já recordava o teólogo católico e pesquisador Alberto Antoniazzi, que por ocasião do Censo do IBGE de 2000 publicou uma análise intitulada Por que o panorama religioso no Brasil mudou tanto?, os sem-religião estão, em boa parte, dentre os que ocupam a base da pirâmide social. José Álvaro Campos Vieira, em sua pesquisa doutoral investigou algumas dessas pessoas na periferia de Belo Horizonte, tendo escolhido uma área em que a média de pessoas sem religião chegava a quase o dobro da média nacional e local, tomando como referência o Censo do IBGE publicado em 2012. José Álvaro colheu vários dados através de questionários estruturados, confirmando o processo de desafeição com relação às instituições religiosas. Em outra pesquisa doutoral, dessa vez concentrada no ambiente universitário, dentre pessoas sem religião, como lembra a pesquisadora Claudia Ritz, inspirada em Danièle Hervieu-Léger, pode ter havido uma grave falha no processo de transmissão da memória religiosa – fato bastante observável na história do cristianismo no Brasil e acentuado, dentre outros aspectos, pelo processo de urbanização, destaca Claudia Ritz em seu trabalho. 

Gabriel, o motorista sem religião da nossa viagem, é um caso clássico de pessoa sem religião, considerando o perfil que temos encontrado nessa última década de entrevistas e questionários: jovem, sem memória religiosa, crítico da instituição, crítico do papel dos líderes religiosos, expressa desafeição religiosa, é crente ao seu modo e de uma forma que não lhe parece vinculada a alguma doutrina, sem participação regular em cultos. Essa descrição, certamente, não é tudo o que pode caracterizar uma pessoa sem religião, pois o fenômeno é muito mais complexo, concordaria a pesquisadora e colunista da Senso, Beatriz de Oliveira Pinheiro.

Ao falarmos em espiritualidade sem religião, não pretendemos defender alguma atitude de crítica ou de recusa do legado das instituições ou das tradições religiosas constituídas. Não compartilhamos de nenhum interesse apologético que se dedique a defender essa prática em detrimento de outras. Tampouco há de nossa parte algum juízo de valor a respeito dessa experiência. Além de tudo isso, reforçamos que o interesse é fundamentalmente baseado em dados empíricos, ou seja, estamos a refletir a partir da escuta de experiências vividas, de relatos e de compreensões de pessoas concretas que se identificam como sem-religião. 

Com essa expressão, procuramos identificar, em pessoas que se reconhecem como sem-religião ou como não afiliadas, as características da experiência de fé e de crenças que se mantém, e que poderiam ser reconhecidas como religiosas ou espirituais em sentido comum. Contudo, devido à autodeclaração de não afiliação, nomeamos a esse tipo de experiência como espiritualidade sem religião.

Pelo sim, pelo não, é importante reforçar que, a bem da verdade, estamos nos referindo a um aspecto muito delimitado e circunscrito de um fenômeno bastante diverso e complexo. A rigor, mesmo considerando elementos de desafeição, desinstitucionalização e individualização da crença, não temos encontrado no campo um comportamento que possamos identificar como padrão e regular. 

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Não apenas a situação de pessoas sem religião é multifacetada e complexa. A própria categoria espiritualidade é de fato polissêmica. Muitos são os estudos que se referem à espiritualidade e os conceitos nem sempre estão bem determinados.

Marià Corbí, fundador do Centro de Estudos de Tradição de Sabedoria, CETR, com sede em Barcelona, contribui enormemente para essa problematização ao questionar os vínculos que o termo espiritualidade guarda com uma antropologia dual (corpo/espírito), com uma teologia sobre a natureza humana dada por um Deus, assim como com o vínculo entre espiritualidade e ascetismo extramundano, digo em minhas palavras. Em síntese, essas questões tornam bastante comprometido o uso do termo espiritualidade quando vinculado a certa noção de espírito. Dentre as principais consequências dessa redução temos que, para o autor, tal compreensão redunda em uma visão estática, seja do próprio espírito, seja da natureza humana. A antropologia dualista tende a sobrepor hierarquicamente o espírito ao corpo. Essa visão redunda em inúmeras outras consequências que marcam a sobreposição do espiritual aos âmbitos corpóreo, histórico e político do animal humano que é concebido como animal que fala. Com Marià Corbí, aprendemos que a tal dimensão humana não é mais do que o resultado de uma condição, a condição de animais predadores e incompletos que, através da fala encontram o meio para sobreviver e atender às suas necessidades. É a fala, para Corbí, que permite reconhecer que o único real se acessa de maneira dupla, como dimensão relativa às nossas necessidades (DR) e como dimensão não relativa às nossas necessidades, a dimensão absoluta (DA). É nesse horizonte que o dado antropológico se impõe e a partir do qual superamos quaisquer especulações de natureza filosófica ou teológica sobre a espiritualidade como cultivo da qualidade humana e da qualidade humana profunda.

O cultivo da qualidade humana e da qualidade humana profunda proposto por Corbí parte do princípio de que não é por algum elemento externo que os animais humanos procuraram cultivar a dimensão absoluta do real. Esse cultivo é fruto de uma característica biológica do animal humano que fala, o que torna possível tal cultivo. Como alimentar o cultivo sem o referencial que a instituição religião oferece, sem o parâmetro das doutrinas e o amparo que o culto confere à vivência comunitária da fé? Tal cultivo é proposto como interesse incondicional pela realidade, distanciamento e silenciamento (IDS), vividos como indagação livre, comunicação e serviço mútuo (ICS). IDS/ICS é cultivo da qualidade humana e da qualidade humana profunda, não necessariamente de forma religiosa-institucional. Ainda não encontramos evidências de que esteja em curso o cultivo de IDS/ICS entre pessoas sem religião pesquisadas. No entanto, do ponto de vista da proposta corbiana, essa é uma alternativa para o cultivo da qualidade humana e da qualidade humana profunda em perspectiva laica ou não religiosa.

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