Os herdeiros de Lutero nas Terras Tupiniquins: breve história do Protestantismo no Brasil – Ontem E Hoje

Os herdeiros de Lutero nas Terras Tupiniquins: breve história do Protestantismo no Brasil – Ontem E Hoje
7 de junho de 2017 Victor Breno

Os herdeiros de Lutero nas Terras Tupiniquins: breve história do Protestantismo no Brasil – Ontem E Hoje

Por Victor Breno

© Mídia Ninja

O monge agostiniano Martinho Lutero, além de seis filhos gerados com Catarina de Bora (ex-freira católica e sua esposa), deixou outros “herdeiros” por todo o mundo. A Reforma que ele desencadeia, ao fixar suas famosas 95 Teses nas portas do Castelo de Wittenberg em 1517, vai rapidamente ganhando “afiliados” não somente na Alemanha, como na Europa e até os confins da terra. Estes que se vinculam às ideias e movimentos oriundos da Reforma de Lutero, recebem o sobrenome “familiar” de protestantes. Ainda no continente europeu, estes que se afiliam começam a gerar as primeiras “linhagens” protestantes como os luteranos, anglicanos, calvinistas e anabatistas.

Em terras tupiniquins, a chegada dos herdeiros de Lutero ocorre em fases (Mendonça). No período colonial, entre 1555 e 1567, inicia-se a primeira inserção do protestantismo via as invasões francesas na Baía de Guanabara e, no dia 10 de março de 1557, os pastores huguenotes (protestantes franceses) Pierre Richier e Guillaume Chartier, realizam o primeiro culto protestante no Brasil. Entre 1630 a 1654, houve a invasão holandesa no Nordeste do país e a partir desta, os protestantes holandeses chegaram a iniciar cerca de 22 igrejas e congregações, um sínodo e contavam com 50 pastores, desenvolvendo um importante trabalho entre os índios. Entretanto, ambas as tentativas de inserção do protestantismo foram impedidas pela expulsão dos invasores pelos católicos.

Somente a partir de 1824, com a promulgação da Constituição Imperial, houve maior abertura à liberdade de culto no Brasil, ainda hegemonicamente dominado pelo catolicismo, contribuindo também com a entrada de protestantes anglicanos e ingleses, via interesses comerciais. Com isto, inicia-se a primeira fase formal da inserção do protestantismo no país, com o chamado protestantismo de imigração. A partir da chegada da família real portuguesa em 1808, no Rio de Janeiro, através da abertura dos portos às nações comerciais, uma centena de protestantes, imigrando de várias partes do mundo, chegam ao Brasil.

A segunda fase de inserção foi o protestantismo de missão, que se deu com a chegada da primeira denominação protestante: a Igreja Metodista Episcopal no Rio de Janeiro em 1835, com os obreiros Fountain E. Pitts, Justin Spaulding e Daniel Parish Kidder. Alguns nomes desse período destacaram-se pelo pioneirismo como Daniel P. Kidder, James Cooley Fletcher e Robert Reid Kalley que trabalharam na evangelização por todo o país. Desde então, deu-se o processo de chegada e desenvolvimento das chamadas denominações históricas, com a Igreja Congregacional, Igreja Presbiteriana, Igreja Metodista, Igreja Batista, Igreja Luterana, Igreja Episcopal, entre outras. Ao longo do fim do século XIX e início do século XX, muitas foram as iniciativas e personagens missionários vindos da Europa e da América do Norte, que se estabeleceram, adaptaram e expandiram no Brasil.

Outro segmento importante do movimento protestante é o pentecostalismo, que se insere no país a partir de “três ondas” (Freston): a primeira, com a chegada da Igreja Congregação Cristã (1910) e da Igreja Assembleia de Deus (1911); a segunda, desde os anos de 1950 com o surgimento de novos grupos como Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja O Brasil para Cristo, Igreja Deus é Amor, entre outras; e a terceira, chamada de neopentecostalismo, da década de 70 em diante, com o aparecimento da Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus. Atualmente há uma enorme diversificação do campo pentecostal brasileiro, com inúmeras novas denominações e caraterísticas.   

© Débora Ludwig

Atualmente, os protestantes, ou evangélicos (como são designados no Brasil), como herdeiros de Lutero nas terras tupiniquins, são um grande contingente heterogêneo que, desde a segunda metade do século XX, vem cada vez mais crescendo quantitativamente, modificando suas formas de organização eclesiástica, suas crenças e dogmas, bem como também sua presença no cenário público nacional. Ou seja, os protestantismos brasileiros são um universo de expressões religiosas que advém dos vários grupos descendentes da Reforma de Lutero no século XVI e que, ao chegarem em terras tupiniquins, desenvolvem-se e transformam-se ao longo de todo um processo histórico e cultural recente.

MAPEANDO DEMOGRAFICAMENTE OS “HERDEIROS” NO BRASIL

Segundo os dados do último censo estatístico de 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), os evangélicos no Brasil representam o segundo maior segmento do cristianismo no país, com aproximadamente 42.275.440 milhões de auto-declarantes, atrás somente da Igreja Católica Romana, com 123.280.172 milhões de fiéis. Nos últimos 30 anos, o movimento evangélico experimentou um crescimento vertiginoso entre a população brasileira: em 1980 eram 6.6%, em 1991 foram 9%, nos anos 2000, chegaram aos 15,4% e, atualmente, somam o montante de 22% daqueles que se declaram evangélicos no país.

A “família” protestante no país é censitariamente subdividida em três grupos, a saber: os Evangélicos de Missão (com 7 grandes segmentos, no total de 7.686.827 milhões), os Evangélicos Pentecostais (com 12 grandes segmentos, no total de 25.370.484 milhões) e os Evangélicos “não-determinados” (com 9.218.129 milhões). Ainda, os 5 principais “descendentes” ou denominações evangélicas, estão assim distribuídas em números de membros: 1) Igreja Assembleia de Deus (com 12.314.410 milhões), 2) Igreja Evangélica Batista (com 3.723.853 milhões), 3) Igreja Congregação Cristã do Brasil (com 2.289.634 milhões), 4) Igreja Universal do Reino de Deus (com 1.873.243 milhões) e 5) Igreja Evangelho Quadrangular (com 1.808.389 membros).

Demograficamente, o campo religioso evangélico brasileiro é composto por 55% de mulheres, sendo que a faixa-etária que mais professa a fé encontra-se entre os 30-39 anos. Destes, 45% são pardos, 44% são brancos, 8% são pretos, 0,97% são amarelos e 0,49% são indígenas. Em relação a escolaridade, 48,5% dos evangélicos não possuem instrução ou apenas o fundamental incompleto; 7,8% possuem o ensino superior completo. Na questão econômica, a maior parte da população evangélica possui o rendimento aproximado de 1 a 2 salários mínimos.

O “HERANÇA” DOS PROTESTANTISMOS: ONTEM E HOJE

Internamente, o movimento evangélico brasileiro não possui um órgão aglutinador das diversas e diferentes igrejas, confissões e atividades que integre de maneira razoavelmente homogênea a representatividade destes – como a exemplo da Igreja Católica Romana. Justamente por isso, não se pode falar dos “evangélicos” sem ter em mente uma constelação de denominações que, muito embora estejam “consanguineamente” à “fraternidade da família cristã”, constituem-se e expressam-se de maneiras muito distintas.

Como desdobramento deste, o cenário protestante no Brasil é atravessado por um profundo sectarismo e concorrência religiosa diante da reivindicação à “linhagem legítima” da família cristã. Por essa razão, embora haja pontualmente ações e projetos para-eclesiásticos que consigam reunir os “irmãos” em torno de projetos sociais e ações políticas, na maior parte das vezes, as denominações evangélicas são marcadas pelo “espírito não-ecumênico” da disputa e oferta mais atraente dos “bens de salvação” (Weber).

Externamente, a presença dos evangélicos no espaço público é assinalada por ambiguidades e utopias. Por um lado, protagonizam no cenário político uma presença bastante reacionária com relação a temas relacionados à ética e direitos humanos, como é o caso do filão conservador prefigurado em torno de personagens conhecidos no congresso e nas mídias, como o Deputado Marco Feliciano ou o Pastor Silas Malafaia. Além destes, alguns setores, entre as denominações evangélicas, são denunciados por atos de intolerância religiosa ou discriminação contra certos grupos sociais.

Por outro lado, os protestantes têm desenvolvido um número significativo de projetos sociais e ações humanizadoras em todo o cenário nacional. Desde 1963 a Missão Caiuá, da Igreja Presbiteriana do Brasil, fundou e mantém o Hospital e Maternidade Indígena Porta da Esperança, que atende gratuitamente a população dos índios Kaiwá, em Dourados – MT. Outro caso é do deputado evangélico Carlos Bezerra Júnior, autor da Lei Paulista contra Trabalho Escravo, recomendada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e, segundo especialistas, “a mais rigorosa punição à escravagistas desde a Lei Áurea”.

A TÍTULO DE DESFECHO

Parece-nos que os tais “herdeiros” em terras tupiniquins, reproduzem todo o imbróglio próprio das relações familiares: afetos, disputas, diferenças, escândalos e comensalidades. Estes, fizeram e fazem parte da história brasileira a partir das contradições e expectativas impostas pela sociedade em nosso país. Que neste ano, em que se celebram os 500 anos da Reforma do “patriarca” Lutero, independente de nossas confessionalidades, sejamos capazes de nos reunir para repartir e partilhar da “herança” (legado) deixada por este. Viva a Reforma Protestante!


Referências

MENDONÇA, Antonio Gouvêa. O celeste porvir: A inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: Edusp, 2008.
LÉONARD, Émile. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. Rio de Janeiro: ASTE, 1981.
REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1993.