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O identitarismo e o problema da luta de classes: uma brevíssima nota

O identitarismo e o problema da luta de classes: uma brevíssima nota

“… o único jeito de conseguir isso (defender as minorias) é ter uma mensagem com apelo para o maior número possível de pessoas e assim uni-las. O liberalismo identitário faz exatamente o oposto.”

(Mark Lilla, p. 16)

 

A política identitária ganha força entre religiosos considerados progressistas no Brasil. Alicerçados na luta comum, na reparação histórica, em ações afirmativas, buscam conscientizar a população acerca das minorias, dos preconceitos, das injustiças, das desigualdades e tudo aquilo que molda a sociedade contra a própria sociedade. Absolutamente legítimo, afirmo!

Nos EUA, a política identitária não foi nenhuma novidade na direita norte-americana, uma vez que só confirmou o fascínio pelo individualismo enquanto identidade. Por outro lado, a política identitária de esquerda reunia grupos de mulheres, afro-americanos, com a finalidade de reparação histórica. Uma das estratégias era se valer de instituições políticas para os direitos fossem devidamente assegurados. É claro, as instituições religiosas encontram-se nesse caldeirão. Líderes protestantes, católicos, islâmicos, budistas, estiveram à frente de movimentos contra o racismo e outros tipos de violência.

Na década de 1980, como bem destaca Mark Lilla, esse tipo de engajamento cede lugar para uma pseudopolítica de autoestima e de autoidentificação que, com seu aprofundamento, fez surgir novas formas de exclusão, também presenciadas em universidades. O caminho era este: fazer com que os jovens olhassem para dentro de si mesmos e depois interpretassem o mundo ao seu redor. E as críticas que surgiram acerca desse movimento foram sobre a dificuldade em se pensar no bem comum.

Um outro ponto crítico é a mobilização por símbolos que tem o poder de paralizar as ações do que se quer politicamente. Ou seja, ao invés de se produzir consciência de classe para gerar a luta de classe e, por fim, transformação radical, envolve-se sobretudo na superficialidade da diversidade, na reestruturação de narrativas históricas, de protagonismo de grupos marginais. O projeto que era para ser político, tornou-se um projeto de evangelização. E como diz Lilla: “A diferença é a seguinte: evangelizar é dizer verdades ao poder. Fazer política é conquistar o poder para defender a verdade”.

Diante de uma situação catastrófica de desemprego, a urgência é de se fazer uma política não pensando apenas no país que queremos, mas no país que temos diante de nós. Ainda diante de uma pandemia que já ultrapassou 620 mil mortes no Brasil, de declarações irritantes de um governo que testa diariamente nossa sanidade, de acumulação de capital por um grupo reduzido enquanto padecem de fome milhares e milhares de famílias, os grupos identitários precisam interagir mais com esses números e compreender o protagonismo do capital, que é o pai e a mãe da desigualdade e de onde nascem preconceito, injustiça, exclusão e demais expressões da questão social.

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O patriotismo identitário não é político se não pensa primeiro no capitalismo, seus movimentos violentos e de hegemonia tanto como sistema quanto de reprodução da produção no espaço e nas relações. O que coisifica o ser humano é o capital. O que fetichiza o ser humano e/ou faz com que o ser humano fetichize a vida e as relações é o capital.

É a partir da discussão de classes, de sistemas de governo, de taxação, de distribuição, de educação política e, posteriormente, inserção neste setor, que um caminho de redenção poderá surgir. Pois enquanto se particularizar a luta, delimitá-la ou fragmentá-la, a distinção “nós” / “eles” ficará entre brancos x negros, héteros moralistas x comunidade LGBTQIA+, homens (machôchô) x mulheres etc.

Capturar essa realidade política de classes não é desconsiderar as violências e preconceitos contra negros e o feminicídio, por exemplo; é, inclusive, ampliar esse foco dentro de um contexto ainda mais complexo. Embora eu escreva sobre tal importância, reconheço, assim como o fiz no início desta brevíssima nota, a legitimidade dos movimentos identitários – eles são a fragmentação das lutas. E vários líderes, sobretudo evangélicos, e que se consideram progressistas, surfam nessa onda esperando que suas imagens sejam vinculadas a nomes de outros religiosos que já fizeram história no mundo.

A imagem diz muito de certos líderes evangélicos considerados progressistas. Unem-se à determinadas causas identitárias nobres, citam suas referências de luta, mas poucos ainda conseguiram produzir engajamento político baseado na realidade social tendo as desigualdades sociais marcadas pelo capital como tema e motivação para luta, e não o mundo das ideias, mitológico, o que a própria direita faz, e muito melhor. Talvez, um dos motivos seja porque enquanto alguns desses pastores (progressistas?) escrevem e decoram seus discursos inflamados sobre a mesa abarrotada de iguarias, o branco e o preto, o homem e a mulher, o hétero e o homoafetivo (…), aguardam para se alimentar daquele discurso que os levará a resistir por mais uma semana… e depois retornam para suas casas, para suas mesas onde aquelas palavras já não mais conseguem alimentar. Dentre outras coisas, é preciso discutir o papel de vários líderes religiosos identitários que ainda não entenderam que nem só de palavras viverá o ser humano.

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