Os perigos da onda crescente de Intolerância e Ódio nas Redes Sociais

Os perigos da onda crescente de Intolerância e Ódio nas Redes Sociais
11 de Abril de 2018 Flávio Lages Rodrigues

Os perigos da onda crescente de Intolerância e Ódio nas Redes Sociais

Por Flávio Lages Rodrigues

© Niklas Hamann

Temos vivido atualmente uma onda de manifestações polarizadas no Brasil. Isso ocorre em várias áreas sócio, político, econômico, cultural e de forma muita extrema na religião. Há uma guerra entre o “bem” e o “mal”, a “direita” e a “esquerda”, bem como outras guerras que perpassam como proposto pelo sociólogo francês Michel Maffesoli (2010), pelo sentimento de pertencimento, mesmos gostos, emoções, partilha, afeto e paixão. Está pode trazer sérios danos quando não respeitamos o outro e suas opiniões.

No dia 31 de outubro de 2017 comemoramos os 500 anos da Reforma Protestante, no qual Martinho Lutero criticava a venda de indulgências da Igreja Católica Romana. Será mesmo que temos o que comemorar com os 500 anos da Reforma Protestante? Temos visto uma falta de sentimento de cidadania e principalmente sentimento cristão por parte de membros e líderes de algumas igrejas cristãs, que tentam ampliar seus limites para além de seus templos, se lançam como candidatos nas eleições municipais, estaduais e nacional. A alteridade e a polis como bem comum não é a proposta política para evangélicos e católicos, mas a defesa dos interesses pessoais e da “placa” de suas respectivas denominações.

Essa “defesa” ultrapassa os campos políticos (candidatos políticos “religiosos”), sociais (defesa do grupo, associação ou igreja), cultural (defesa de determinados costumes religiosos), econômico (defesa da prosperidade de um grupo religioso) e religioso (defesa de uma crença frente a diversidade de outras no Brasil). Na atualidade essa “defesa” chegou ao campo ideológico com muita força nas redes sociais. As manifestações no Brasil em junho de 2013, mostram como essa nova ferramenta faz parte do cotidiano das pessoas. As eleições de 2014 também mostraram como essas redes sociais se transformaram em verdadeiro campo de batalha, uma verdadeira “terra” sem lei. Podendo até dividir o Brasil entre os que são “patriotas” e os que são “inimigos” da nação.

Mais recentemente, no dia 14 de março de 2018 vimos a execução da vereadora do PSOL Marielle Franco, que mesmo lutando por minorias e denunciando a todo momento abusos contra a vida, pagou o preço de sua luta com a própria vida. As redes sociais foram usadas pelas pessoas, que se solidarizaram com mais uma pessoa que é tombada com a violência no Rio de Janeiro. Em várias partes do Brasil e do mundo aconteceram manifestações contra essa violência, como também nas redes sociais. Verificamos demonstrações de carinho e apoio pela luta da Marielle, que para essas pessoas deveria continuar, como também ocorreram demonstrações de intolerância, ódio e total desconhecimento do trabalho que ela exercia frente aos Direitos Humanos, inclusive com policiais e seus familiares que também sofrem abusos e violência.

Dentre as várias convulsões nas redes sociais, surgiram mentiras sobre a vida, luta e engajamento político de Marielle, muitas pessoas replicavam e cada vez mais compartilhavam mentiras sobre ela. Dentre as pessoas que assim procederam com ávido ódio e intolerância, destacamos figuras que deveriam pensar de forma lógica, imparcial e equilibrada, como uma desembargadora e um político. O que já aponta para notícias fakes, que cada vez mais produzem destruição da vida de pessoas e que podem levar ao extermínio das mesmas, físico, emocional e espiritual.

Outro fator que tem chamado a atenção nas redes sociais é o crescente desejo de armamento da população que se intitula “cristã”. O que vai contra a vontade e principalmente contra os ensinamentos de Jesus.  “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra.” (Mateus 5.39). Um outro agravante é demonstrado pelo apóstolo Paulo que mostra que toda autoridade é instituída por Deus. Neste caso se não temos direito de usar uma arma, fica qualificado o uso para a polícia que representa o Estado ou para os que estão em conflito com o Estado e assim com a lei. ”Todos devem sujeitar-se às autoridades superiores; porquanto, não, há autoridade que não venha de Deus; e as que existem foram ordenadas por Ele.” (Romanos 13.1).

Incorremos no risco de viver uma falsa religiosidade, que está em conflito com os ensinamentos da religião que temos a pretensão em seguir. Vimos que o apego ao poder, a fama e ao dinheiro, está diretamente ligado ao ódio aos pobres, necessitados, marginalizados e espoliados na sociedade. Voltemos nossa visão para os profetas, e em especial para o livro de Amos, que mostra várias práticas do povo de Israel que destruíam seus próprios patrícios com a falta de amor e compaixão para com os menos favorecidos economicamente. “Ouvi isto com atenção! Vós que esmagais os necessitados e destruís os pobres da terra, murmurando.” (Amós 8.4).

Pertenço a uma igreja imperfeita que precisa reformar-se todos os dias para buscar servir a Deus e a sociedade. Isso pelo fato de ser imperfeito, ser humano e estar em constante transformação. Os exemplos de Jesus, Paulo, Amós e de muitos outros personagens bíblicos, apontam para um Deus que quer a partilha, o amor e acima de tudo a comunhão. Deus a todo momento se revela na história para o outro, tanto que Ele decide fazer opção pelos pobres. Vejamos mais uma denúncia do Profeta Amós dirigida a Israel e a seus poderosos. “Quando acabará a lua nova para que vendamos o cereal? E a que horas terminará o período do shabbãth, sábado, para que possamos comercializar o trigo, diminuindo o efa, a medida, e aumentando o siclo, o preço; enganando a muitos com balanças adulteradas, e assim podendo comprar o pobre mediante a prata para que se torne servo, e o necessitado por um par de sandálias, vendendo até palha de trigo?” (Amós 8 5-6).

Voltando ao Brasil do século XXI, com os nossos graves problemas sociais e as tribalizações propostas por Maffesoli (2010) na pós-modernidade, o que vemos é uma implosão do modelo político que não vai onde o povo está, o que ocorre somente em períodos eleitorais. Nesse aspecto, o trabalho da Marielle vai na contramão do político profissional e religioso brasileiro, que atende aos interesses das mais variadas bancadas que financiaram sua campanha. Como também daquelas que terão algum privilégio quando eleitos, como ocorre com algumas igrejas cristãs que têm em seus rebanhos “garantia” de sucesso eleitoral.

O político brasileiro está vivendo um momento de confrontação, que iniciou-se em 2013, sabemos que não foram os R$ 0,20 centavos, haviam outros interesses por trás das manifestações com “panelas nobres” e “patos amarelos” em frente a Fiesp. Vivemos um outro momento político com a troca de uma estrutura política por outra, mudanças até mesmo na forma de fazer política, longe do centro do poder e da decisão, no qual o cidadão é também sujeito político e sua localidade, regionalidade, cantão, periferia, subúrbio, aglomerado, favela e as mais variadas tribos mostram sua força de contestação.

Para Maffesoli, o tribalismo é o que provoca essa nova forma de vida em todas as áreas, inclusive na política. “O que dizer do mundo político e sindical, no qual as correntes e subcorrentes, as tendências e outros clubes de pensamento traduzem, de facto , a fragmentação dessas organizações homogêneas sobre as quais se fundara a modernidade. Ainda aí, por força das coisas, o tribalismo triunfa.” (MAFFESOLI, 2010, p. 13).

O ódio e a intolerância atual presenciados na sociedade e também nas redes sociais evidenciam que mesmo aqueles que tentam legitimar os lemas, “Deus”, “família” e a “propriedade”, o fazem com o propósito de estar ligado a algo, com o pertencimento, afeto, emoções partilhadas ou mesmo para fazer parte de um projeto que faça sentido em suas vidas.

À esquerda e à direita, o que prevalece é uma política de clãs lutando entre si: e onde todos os meios são bons para abater, submeter ou marginalizar o outro. Nessa luta sem piedade, as diferenças doutrinárias são sutis, até mesmos inexistentes. Só importam os problemas da pessoa, a fidelidade ao líder. É isso que suscita um sentimento de pertencimento, abrindo caminho aos postos cobiçados. (MAFFESOLI, 2010, p. 13).

Portando o que observamos com essa reflexão é que não conseguimos abrir espaço para discussões frutíferas e para o amadurecimento da democracia. Visto que todas as áreas da vida humana carecem de re-formar, ou seja, formar de novo, ou nas palavras do apóstolo Paulo “não se conformar-se com esse mundo, mas transformá-lo.” (Romanos 12. 2). O ódio e a intolerância não são capazes de construir pontes frente aos desafios da imigração, intolerância religiosa e racial, violência, pobreza e má distribuição de renda.

Mentiras e enganos que são reproduzidos a todo momento nas redes sociais, jornais, rádios, conversas na esquina e nos bares, bem como em nossas paróquias e igrejas. Acabam reproduzindo o discurso dos que oprimem para continuarem sendo “poderosos”, para depois “reinarem” e finalmente serem “deus” sobre o povo. Diante de tantas mazelas o que nos resta é uma grande re-forma humana em todos os sentidos, que nos conduza a alteridade com a desconstrução de toda forma de racismo, etnocentrismo, egocentrismo e violência. Termino com seguinte pergunta: Vale a pena destruir o outro nos mais variados relacionamentos pessoais ou através das redes sociais para impor minha opinião ou posicionamento sobre determinado assunto?


Referências

BÍBLIA Sagrada Revista e Corrigida. São Paulo: SBB, 2013.
MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. 4. ed. Rio de Janeiro. Forense Universitária, 2010.
RODRIGUES, Flávio Lages. A Liberdade do Espírito na vida e no rock. Rio de Janeiro: MK, 2007.
RODRIGUES, Flávio Lages. O rock na evangelização. Rio de Janeiro: MK, 2006.