Entendendo o Sincretismo

Entendendo o Sincretismo
28 de junho de 2017 Fr. Célio de Pádua Garcia,op

Entendendo o Sincretismo

Por Fr. Célio de Pádua Garcia,op

© Alkberto Coutinho / AGECOM

Nos dicionários da língua portuguesa, o verbete “sincretismo” significa, filosoficamente, um sistema que combina os princípios de diversos sistemas, ou um amálgama de concepções heterogêneas. Sociologicamente, seria a fusão de dois ou mais elementos culturais antagônicos num só elemento, permanecendo, porém, alguns sinais de suas origens diversas. No entanto, por esta combinação, ou fusão num só elemento, ainda manter perceptíveis alguns sinais de sua origem, caracteriza-se certo “ecletismo” ao termo resultante.

Na enciclopédia on-line Wikipédia, sincretismo é a fusão de doutrinas de diversas origens, seja na esfera das crenças religiosas, seja nas filosóficas. Esta fonte, assim como outras referências, afirmam que o sincretismo religioso é a fusão de concepções religiosas diferentes, ou a influência exercida por uma religião sobre as práticas de outra. Sendo assim, podemos considerar que “sincretismo religioso” é a combinação de duas ou mais concepções religiosas diferentes, ou a influência de uma sobre a outra, até atingir-se uma forma religiosa comum ou totalmente nova, a qual pode ser considerada híbrida ou eclética.

É possível notar que o sincretismo religioso ocorre naturalmente no processo histórico. Como é a combinação de duas ou mais concepções religiosas, o processo de sincretismo inicia-se com a relação, ou contato, entre duas ou mais sociedades, onde cada uma tem sua respectiva religião. Por sua vez, essa relação entre dois ou mais povos é causada por eventos históricos de grande significado, como invasões, guerras e/ou colonizações, que têm como consequência mais comum a relação de dominação que aí se estabelece.

Podemos constatar que este contato moldará a cultura do povo dominante e do povo dominado, possibilitando dizer que as relações e eventos resultantes, também moldam direta e/ou indiretamente a religião de ambas as sociedades, ocorrendo aí o sincretismo religioso. Sendo assim, torna-se necessária a investigação dos processos históricos para se compreender a origem destes sincretismos, principalmente em casos como o Brasil, onde ocorreu o contato entre três povos distintos: aborígenes, europeus e africanos. O país tornou-se um dos exemplos mais complexos e clássicos de sincretismo e resultou em um dos quadros religiosos culturalmente mais diversos e ricos do mundo.

Ao longo da história, o Brasil, considerado um dos países mais religiosos do mundo, viveu dois momentos que justificam seu profundo e complexo sincretismo religioso. Em um primeiro e longo momento, mesclaram-se elementos do catolicismo aos nativos e tribais (indígenas e africanos). Em um segundo momento, mais recente, ocorreu a combinação dos elementos anteriores com o espiritismo e outra vertente cristã (o neopentecostalismo).  O processo resultou na riqueza e diversidade religiosa marcantes, sendo considerado um sincretismo único no mundo.

Durante os últimos cinco séculos, o catolicismo brasileiro, que é um dos maiores do mundo, assumiu traços característicos de outras religiões com as quais coabitou, e todas estas mudanças ocorreram de modo único no país. Diante destes fatos, entende-se que, apesar do país possuir uma população majoritariamente cristã (89% da população, sendo 73,6% católicos e 15,4% evangélicos, segundo dados do IBGE de 2012), não significa que essas pessoas são pura ou essencialmente cristãs.

Conclui-se que, por meio da conciliação com os princípios e práticas católicas, a tentativa de preservação dos princípios e práticas religiosas indígenas e africanas resultaram em manifestações sincréticas que nasceram em solo brasileiro, sendo únicas no mundo e existentes até os dias de hoje. No processo de formação da nacionalidade brasileira, o que em demografia representa a miscigenação, traduz-se no campo religioso como sincretismo.

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