“Só Jesus Expulsa o Racismo da Igreja”: a luta antirracista na Igreja evangélica brasileira

“Só Jesus Expulsa o Racismo da Igreja”: a luta antirracista na Igreja evangélica brasileira
Cris Serra 19 de março de 2020

Em julho de 2019, a Juventude Batista Brasileira (JBB) promoveu o Despertar 2019, evento de quatro dias realizado na Igreja Batista Atitude, Zona Oeste do Rio de Janeiro. Estava prevista na programação a mesa-redonda “Descolonizando o olhar: o racismo atinge a Igreja?”, com Fabíola Oliveira, de Odarah Cultura e Missão, e Marco Davi Oliveira, do Movimento Negro Evangélico (MNE). Uma semana antes, ambos começaram a sofrer ataques difamatórios nas redes sociais, encabeçados por dois pastores brancos. A pressão surtiu efeito: por decisão da Convenção Batista Brasileira (CBB), os dois foram “desconvidados”. Três dias antes, Fabíola havia postado em seu perfil no Facebook uma “Carta aberta ao Brasil Batista”, denunciando: “Só Jesus Expulsa o Racismo da Igreja Evangélica brasileira. Mas, antes de expulsá-lo, Jesus o revela. Ele faz com que seu nome seja conhecido: racismo”. Cancelada a mesa, Fabíola assinalaria, em nova postagem a respeito: “a pergunta [que dava título à mesa] foi respondida”. A controvérsia chegou a obter nos meios evangélicos alcance suficiente para ela celebrar: “um debate que era pra durar uma hora e meia num congresso, está durando mais de 100 horas. Um debate que se dá, ainda tímido, nas igrejas locais, toma o Brasil todo”.

Foto: Marc Witzel

Um dos alvos dos ataques sofridos por Fabíola, segundo matéria publicada no Diário de Pernambuco, foi seu passado no Candomblé, que a tinha levado a sofrer racismo religioso desde a infância. Engajada em movimentos negros desde 2002, fez-se evangélica em 2015, mas nunca deixou de enfrentar o tema – tanto no tocante à demonização das religiões afrobrasileiras no segmento evangélico, quanto ao racismo estrutural nos ambientes eclesiais. Em sua “Carta”, ela descreve sua atuação: “Eu, enquanto mulher preta cristã […] me utilizo das propostas do debate inter-religioso para promover dignidade e direitos entre o meu povo. Povo que crê em Jesus Cristo. Povo que crê nos Orixás. Povo que […] tem uma conexão ancestral com a África”.

Silvio Luiz de Almeida, no prefácio ao livro “Teologia Negra”, de Ronilso Pacheco, sublinha como uma certa teologia cristã baseia-se na “autoridade racial” do homem branco, posto no centro dessa cosmovisão religiosa “que se nutre e se reafirma na colonialidade”. Em seu livro, Ronilso – teólogo e pastor auxiliar na Comunidade Batista em São Gonçalo (RJ), frequentada por Fabíola – apresenta a Teologia Negra como um “profetismo ‘indesejado’, visto que se trata de profetas e profetisas que impedem as igrejas de dissimularem o racismo, assunto desconfortável e constrangedor, escondendo-se atrás da declaração de que ‘aos olhos de Deus somos todos iguais’”. Essa “teologia da libertação negra” constitui-se necessariamente, para Ronilso, em uma “teologia da, e na, vida cotidiana […] que possibilita apreender o contexto adverso da realidade precária, marcada muitas vezes pela violência e as poucas alternativas de sobrevivência, e que recorre à Bíblia e à experiência de Deus, que é a experiência da fé, para construir uma leitura que não especula mas crê. […] A fé do povo é dinâmica a ponto de não sistematizar teologias, mas de teologizar realidades”.

Reconhecer a importância de um fazer teológico que, como diz Ronilso, “também pertence e é [construído] em meio ao povo no cotidiano da vida” se torna ainda mais premente face ao avanço da população evangélica no Brasil e do fato de que uma pesquisa do Datafolha, divulgada em janeiro de 2020, confirmou que 59% dos evangélicos brasileiros identificam-se como negros ou pardos. Daí a “urgência de movimentos que dialoguem com a fé desse grupo que está em crescimento”, nas palavras de João Marcos Bigon, coordenador estadual do MNE-RJ, em texto publicado no site do CEBI. Ele prossegue: “precisamos, negros e negras, entender as perguntas que estão sendo feitas pelas pessoas nas igrejas, na periferia e nas favelas para que nossas respostas sejam audíveis e efetivas. […] Precisamos nos apropriar das narrativas e dos discursos que podem potencializar um novo horizonte para um mundo que vive em constante queda rumo à morte”.

Em espírito análogo, foi fundada em agosto de 2018 a Rede de Mulheres Negras Evangélicas, a partir da inquietação diante da “invisibilidade das questões que afetam [especificamente] as mulheres negras evangélicas no seio do protestantismo brasileiro”, como se lê na página do movimento no Facebook. Na análise da cientista social Simony dos Anjos, em palestra proferida no IFCH da Unicamp em outubro de 2019, quando mulheres evangélicas reivindicam sua identidade negra, “elas quebram um pilar de sustentação da igreja, que é a demonização do negro”.

Para além da demonização da negritude pela Igreja colonial, Camila Mantovani e Rachel Daniel, da Frente Evangélica pela Legalização do Aborto (FEPLA), denunciam, a propósito a divulgação dos resultados da pesquisa do Datafolha, como a demonização dos próprios evangélicos por setores da sociedade brasileira corresponde à reprodução de uma série de opressões – de classe, de gênero e de raça – historicamente constitutivas de nossa sociedade. Em comentário publicado no site da Mídia Ninja, elas salientam que, uma vez que a parcela evangélica da população, em especial pentecostais e neopentecostais, é predominantemente composta por negros, pobres e mulheres, demonizar os evangélicos significa demonizar a classe trabalhadora, as mulheres e “o povo preto e sua religiosidade”, endossando o discurso racista e reforçando a teologia colonial que se apropriou do cristianismo. “Em vez de rir da espiritualidade pentecostal”, elas propõem, “olhe a beleza de uma espiritualidade negra, que se manifesta no corpo, na dança, no sapatear, no falar em línguas e o quanto é essa espiritualidade que mantém esse povo de pé. Essa espiritualidade da qual a gente tem debochado, é negra, ancestral e sagrada”.

Face às ameaças sofridas em decorrência de seu protagonismo, como militante evangélica, na luta pela legalização do aborto – bem como na denúncia do racismo e da violência de gênero nas Igrejas cristãs –, Camila deixou o Brasil em abril de 2019. Já exilada, em 22 de junho ela escreveria em seu perfil no Instagram (@camila_mantov): “nosso Jesus, o Cristo de Nazaré, o Deus dos pobres, dos oprimidos, o Deus que veio pra libertar, ele não tem nada com essa gente soberba que utiliza o nome dele pra se IMPOR, pra destruir outras tradições. […] Jesus sorri ao lado de Oxum e Iemanjá, os três abraçadinhos, vendo a lindeza da fé que não se curvou aos reis e senhores responsáveis por tanto sangue derramado”. É a busca uma síntese teológica capaz de dar conta das contradições da luta antirracista feita desde o cristianismo, subvertido e convertido de dispositivo de violência colonial em instrumento de libertação do povo negro a partir da experiência de fé vivida no chão das periferias.