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Racismo Religioso e Masculinidades, entrevista com Prof. Fabio Mariano

Racismo Religioso e Masculinidades, entrevista com Prof. Fabio Mariano
Redação 19 de março de 2020
Foto: Arquivo Pessoal

Senso: Prof. Fabio Mariano, obrigado pela entrevista. Nós da Senso agradecemos a sua disponibilidade.

As suas pesquisas sobre a ressignificação das masculinidades são notórias. Nesse sentido, quais são, na sua perspectiva, os grandes fatores que nos levam a questionar os padrões tóxicos de masculinidade?

Prof. Fabio Mariano: Vimos, por meio do grupo de pesquisa da qual faço parte, Inanna PUC-SP, nos dedicando a estudar como determinados conjuntos sociais são orientados pelas estruturas do capital. Fica notório o papel incisivo desempenhado pelo capitalismo ao estabelecer estruturas patriarcais, raciais e sexistas em nossa sociedade com bastante sucesso.

É Anne McClintock, no livro Couro Imperial, que nos dá pistas bastante contundentes a esse respeito. Partimos então para questionar esses padrões que estão na imagem, no mundo do trabalho, na educação e outras configurações sociais.

Mais do que ressignificar, estamos num ponto de entender e visibilizar as várias masculinidades existentes, considerando a humanidade em cada umas delas, que foi sendo retirada: a animalização do homem negro, a invisibilização do homem trans, a hiposexualização do homem oriental e assim por diante. É preciso dar visibilidade a todas essas existências e, a partir daí, questionar os padrões impostos pela universalidade do que se considera ser homem.

Senso: A composição do que podemos chamar- orientados por Miguel Vale de Almeida em Senhores de Si – de masculinidade hegemônica tem, alguma relação com estruturas forjadas para dar ou retirar legitimidade de sujeitos como a branquitude e a cisheteronormatividade, por exemplo?

Prof. Fabio Mariano: Almeida chama a atenção para essa questão, assim como Conell, que inaugurou e cunhou a terminologia conhecida como Masculinidade Hegemônica. Ambos são importantes pois chamam a atenção para o fato de que, mesmo questionando um padrão de comportamento masculino, a luz está lançada sempre para as questões femininas, o que faz com os homens acabem se esquivando dos seus questionamentos necessários e suas responsabilidades.  Isso reverbera na questão apresentada que diz respeito aos papeis exercidos pela branquitude e pela cisnormatividade como campos de poder e que tem ao longo dos séculos tem dominado a narrativa sobre um padrão de homem universal.

Essas narrativas estiveram em berço esplêndido até então, mas foram questionados pelos movimentos feministas, muito especialmente, a partir da década de 70 com a luta pelos direitos civis nos Estados Unidos. Foram as mulheres que questionaram esse lugar de privilégio tomado à força pelos homens que se estabeleceram como seres superiores.

Senso:  Você considera que a intolerância Religiosa tem, em algum contexto, relação com a construção de uma identidade branca, masculina e religiosamente hegemônica?

Prof. Fabio Mariano: A intolerância é uma das narrativas assumidas pelas estruturas capitalistas o ódio ao outro. Tudo que ela questiona e que está dentro do status quo irá gerar um comportamento de repulsa em relação às diferenças sociais. Em sociedades com viés monoteísta qualquer um ou uma que refute esse modo de vida será rechaçado, porque questiona a ideia de universalidade que estende para a roupa da moda, para o biótipo corporal ideal, para a profissão do momento e também para fé religiosa. Os ataques aos terreiros de umbanda e candomblé são o maior exemplo, especialmente quando são feitos em nomes de grupos cristãos que se denominam detentores de poder local, regional ou nacional. É em nome da fé no Deus único que tais grupos têm agido e muitos têm denunciado como sacerdote e antropólogo Dr.: Rodney Willian Eugênio.

Senso: É possível considerar que a masculinidade tóxica se aporta numa moral religiosa, supostamente hegemônica?

Prof. Fabio Mariano: Não sou adepto do termo masculinidade tóxica, pelo menos não em todos os contextos. Considero que temos por hábito a criação de patologias de maneira a jogar a violência que essa masculinidade produz na vala comum, tanto que na minha tese “Políticas de morte para corpos sem lei” ao invés de homofobia me utilizo do termo heteroterrorismo.

A violência que um padrão heteronormativo produz é sob a conivência do Estado, que se isenta solenemente do seu papel e responsabilidade. Basta vermos os números de feminicídio, do extermínio de LGBTs e do genocídio da população negra, para sabermos qual tem sido o projeto de Estado.

A religiosidade moral não é ‘supostamente hegemônica”, ela divide junto com as instituições a perspectiva de dominar a narrativa universal que se sobrepõe uns sobre os outros, porque partem de modelos individuais e não coletivos como as denominações de matriz africana, por exemplo, que se configuram como ethos e não religião.

Senso: Em que sentido as discussões sobre gênero abrem espaço para outras masculinidades, na contemporaneidade?

Prof. Fabio Mariano: Discussões sobre gênero dizem respeito a homens e mulheres, no entanto, é impossível, como disse acima, deixar de reforçar que foram as mulheres que instaram os homens a se movimentarem e chamaram eles a se envolverem numa luta por igualdade, equidade e isonomia, respeitadas as diferenças existentes em cada movimento. Cada vez que o movimento de mulheres provocou o lugar de privilégio que ocupamos, os homens entraram em crise. Alguns se aproveitando dela passaram a se questionar e a rever como seus comportamentos eram oriundos de um modelo patriarcal, sexista e racista  e afetavam e aprofundavam essas desigualdades de gênero, outros, como verificamos na mídia e na política, se abstiveram da discussão e continuam na tentativa de aperfeiçoar as desigualdades.

De qualquer forma, esse movimento por masculinidades visíveis e saudáveis não pode parar. Temos avançado nesse entendimento de que só avançaremos na política, na economia, na cultura e na sociedade, quando as equidades de gênero for um norte para todes.

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