O plano branco perfeito

O plano branco perfeito
Etiene Martins 19 de março de 2020

A missão dada e cumprida de forma constante, contínua e cruel pelos europeus foi invadir o Brasil e transformá-lo em cativeiro de milhões de pessoas que lá já estavam e outras sequestradas do continente africano. Parece simples e objetivo, mas é muito mais audacioso que isso, muito mais complexo, tão bem estruturado que uma lei assinada há quase um século e meio não foi capaz de desfazer tamanha atrocidade.

Colonizar corporalmente, culturalmente, psiquicamente e espiritualmente dia após dia também fazia parte do plano perfeito. Plano perfeito esse, que se propôs hierarquizar as relações implementando a divisão baseada nas características corpórea dos seres humanos. Essa divisão que hoje é popularmente conhecida como raça. Os europeus se classificaram como brancos, então passaram a determinar que eles, e sua cultura eram a norma suprema e mais evoluída que deveria ser seguida, os demais deveriam se submeter.

Foto: Robson Khalaf

Escravizaram, torturaram, estupraram, mutilaram corpos que possuíam uma tonalidade de pele, texturas de cabelo e demais traços fenótipos distintos dos seus. Dentre essas torturas e formas de anular, subjugar e enfraquecer para tornar eficiente e naturalizar a hierarquia de um ser humano sobre o outro a fé foi uma arma estratégica utilizada para dominar a psiquê e a espiritualidade dos reféns que eles classificaram como negros e indígenas.

Todo e qualquer rito religioso que não fosse estruturado e ministrado pelo branco era uma ameaça a estrutura de controle e deveria ser banido. Além dos castigos físicos que já eram de praxe a quem ousasse desobedecer a qualquer regra, quando se praticava rituais de sua fé tradicional os africanos eram demonizados. Um povo que não conhecia o demônio até os europeus apresentá-lo.

A oposição entre o bem e o mal, constante na visão do mundo religioso imposto pelos europeus era até então desconhecido pelos escravizados. A imposição dessa dualidade foi e é essencial para o controle social. Demonizam-se os valores da cultura não europeia e divinizam os aspectos religiosos da hegemonia branca. Um simbólico construído dia após dia no imaginário da sociedade, aquela máxima que conhecemos muito bem de que uma mentira repetida muitas vezes se torna verdade.

Pois é, deu certo. Hoje muitos temem o corpo negro, a cultura negra e a fé negra, inclusive os próprios negros. O plano branco perfeito conseguiu desqualificar enquanto seres humanos os africanos escravizados e seus descendentes, implantar no imaginário popular a demonização de todas as religiões oriundas de África.

Quem é mineira, tem mais de 30 anos, tem vó, tia-avó e bisavó preta, e que teve o pensamento eficientemente colonizado, sabe o quanto é frustrante querer se vestir de anjo e coroar nossa senhora. Muitas morreram sonhando com o dia que o padre autorizaria tamanha façanha, enquanto outras seguiram cultuando os orixás e os caboclos mesmo quando a lei perseguia os terreiros.  Hoje, a lei garante que todos podem cultuar livremente a sua fé, o Estado brasileiro é laico e parece que tudo isso ficou para trás.

Só parece! O demônio apresentado pelos europeus aos agora então brasileiros deixou de lado a forma de serpente na bíblia e é ilustrado pelos neopentecostais com as imagens de Exu, Oxum, Xangô, minha mãe Iansã, meu pai Ogum e por todas as demais entidades da religião, da magia e cultos dos nossos ancestrais.

Vende-se um pedacinho no céu, anuncia os líderes pentecostais em seus grandes templos, e só quem faz parte desse seleto grupinho que vai se salvar. Batem à sua porta e se você não abre, entram na sua casa pelo rádio e pela televisão. O plano branco perfeito que conhece e apresenta o demônio a todos e todas depois de escravizar quer salvar almas, quer salvar almas até de quem, inicialmente, disseram não ter almas. Depois de séculos resistindo ao epistemicídio, a luta continua. Quando se consegue desviar dos bandidos de jesus que invadem terreiros quebram e incendeiam se confronta os veganos nos tribunais que se preocupam muito mais com a vida dos animais do que com a vida dos milhares de jovens negros assassinados anualmente no Brasil.

Sugestão de livros para conhecer as religiões de matriz africana:

  • Agô Agô Lonan – Maria de Lourde Siqueira
  • Leituras Afro-Brasileiras: Territórios religiosidade e saúde. – Ana Cristina de Souza Marino e Estélio Gomberg
  • Candomblé bem explicado – Odé Kileuy e Vera de Oxaguiã
  • Os tambores estão frios – Edimilson de Almeida Pereira
  • Afrografias da Memória – Leda Maria Martin