Meu nome é “Marias”!

Meu nome é “Marias”!
14 de março de 2019 Tânia da Silva Mayer

Meu nome é “Marias”!

Por Tânia da Silva Mayer

Maria é um dos nomes mais comuns na história da humanidade há épocas. Sua origem incerta entre povos antigos do oriente nunca foi um problema na sua utilização através dos tempos. O nome é também polissêmico, e uma rápida busca na internet traz definições como: “senhora soberana”, “a pura”, “mar de amargura”, “aquela que é forte”, entre outras.

Foto por thom masat em Unsplash

No geral, o nome cujo gênero gramatical é o feminino, designa pessoa que é forte e que tem capacidades de ver além das situações cotidianas. Esse substantivo próprio ocorre muitas vezes vinculado a outros compondo nomes como “Maria de Fátima”, “Maria Luísa”, “Maria Vicência”, “Maria José”, “José Maria”, “João Maria”, etc., que podem designar pessoas de diferentes sexos. Sua expansão e apreensão públicas se devem ao fato de a mãe de Jesus Cristo carregar consigo esse nome. Maria é a personagem mais famosa na história nesses últimos dois mil anos, e cujo lugar que lhe atribuíram na fé cristã serviu de inspiração para a nomeação de meninas no Brasil católico dos séculos passados.

Além do uso do nome como associação direta à mulher mais famosa dos evangelhos canônicos, “Maria” se tornou tão popular que qualquer mulher pode vir a ser tratada, em algum momento da vida, por esse nome, seja por esquecimento, distração ou deboche. Nesse sentido, é importante ressaltar que essa atribuição pode vir acarretada de sentido pejorativo, designando fraqueza e submissão de um indivíduo ou grupo. Nem à luz do nome da mãe de Jesus, tão incensada a partir no segundo milênio cristão, quem o carrega depois dela pode gozar de algum prestígio ou dignidade. Conforme artigo de nossa autoria, “De Eva a Maria: putas ou santas”, publicado no dia 06 de maio de 2016 no Portal domtotal.com, a associação das mulheres à Maria, enquanto grupo ou indivíduo, serviu para reforçar uma situação sociocultural e religiosa na qual o gênero feminino está numa escala inferior da espécie humana, portanto em menor dignidade e importância. Também ali mostramos a urgência de uma exegese bíblica que redescubra Maria “como mulher subversiva do seu povo, das tradições culturais, dos costumes religiosos e dos papéis sociais do mediterrâneo antigo”. Esse trabalho fundamental para a religiosidade também o será para as novas leituras do lugar e do espaço das mulheres nas sociedades contemporâneas.

No singular ou no plural, o fato é que um dos nomes mais populares em nossa cultura ainda continua sendo utilizado como instrumento de opressão masculina e heteronormativa. Isso pode ser visto – sob o risco de uma generalização irresponsável -, por exemplo, quando a torcida de futebol do clube Atlético Mineiro, de Minas Gerais, usa o termo “Marias” para depreciar o time e a torcida rivais, do Cruzeiro Esporte Clube, como forma de xingamento: primeiro, por depreciação com relação à atribuição do sentido de homossexualidade; em segundo, por sugestões de fraqueza, medo sensibilidade e submissão, costumeiramente atribuídas ao feminino, e que não combinariam com a visão masculina do futebol compartilhada no universo atleticano. Nesse sentido, tudo o que pertence às “Marias” está passível de violências verbais e simbólicas enquanto a bola rola pelos campos. Da outra parte, a torcida atleticana também é alvo de violência quando ela e seu time são tratados por “frangas”, alusão ao símbolo do clube – o galo –, que ao ser trazido para o feminino também denota uma condição de inferioridade.

Como se pode ver, um dos nomes mais comuns de nosso acervo cultural e religioso ainda é utilizado em prejuízo do feminino, sujeito às violências desde o nível da linguagem. “Marias” podem ser todas aquelas que não compartilham dos privilégios varonis. “Marias” podem ser todas as mulheres e nenhuma delas também, porque, se a universalização as aglutina num único movimento, também pode invisibilizar cada uma delas, seus sofrimentos e dramas locais. Nessa perspectiva, a sombra da invisibilização pode ir sendo dissipada à medida que as narrativas das vidas forem socializadas com outras mulheres e até pontos comuns serem percebidos e lutas comuns serem compartilhadas. Não há dúvidas de que as teias de resistências mostrarão as fortes mulheres que são capazes de olhar criticamente para as duras realidades vividas, sem deixar de projetar um futuro possível muito melhor que o agora.