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Dezmandamentos: “Não cobiçarás…”

Dezmandamentos: “Não cobiçarás…”

Último texto da série “Dezmandamentos”. Essa é uma série de conteúdo teológico e pastoral voltada para a leitura dos Dez Mandamentos a partir das experiências de dissidentes sexuais e de gênero. Para ler o décimo texto, clique aqui.

Êxodo 20:17 “Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”

Recentemente, eu e três amigas decidimos nos encontrar periodicamente para ler um texto e refletir sobre nossas vidas e ministérios a partir da leitura. Motivada pelo “Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo”, de Gloria Anzaldúa, escrevo essa carta às minhas irmãs de fé, tão importantes para minhas reflexões teológicas.

Carta às minhas irmãs,

Na tentativa de dar novos sentidos a antigas experiências vividas nas igrejas pelas quais passei, começo essa carta me lembrando de algo que ouvi dentro da igreja, mas que me impactou para além das paredes da instituição. “Ela chegou agora e já quer sentar na janela”. Essa foi a “fofoca gospel” que chegou aos meus ouvidos. Havia um receio em relação à minha presença, como se eu tivesse um poder de desestabilização das coisas “que estavam indo tão bem”.  Não nos enganemos: em qualquer que seja a igreja que estejamos, o que nós – mulheres feministas – fizermos ou dissermos poderá ser interpretado como uma tentativa de golpe. Dito nesses termos, eu pareço radical demais, não é mesmo?

Você pode afirmar que na sua igreja não é assim, que essas questões estão superadas, mas a minha denúncia aqui fala mais sobre um regime regulatório de gênero baseado nas sacralizações da fé, do que sobre uma experiência específica e individual – ainda que eu parta de minha experiência pessoal para fazer essa reflexão. (E aqui eu chamo a atenção para o papel da experiência na interpretação do fenômeno, ou seja, o ponto de partida para uma análise que se pretende contextual e, marcadamente, sexual.)

Estranho eu me tornar ameaçadora justamente em um contexto no qual, inúmeras vezes, eu ouvi que nós mulheres não queremos cargos de liderança. Ouvi que se não temos mais mulheres líderes é porque nós não queremos ser líderes. A violência de afirmações como essa só reafirma que estamos mergulhadas em um sistema patriarcal que estrategicamente culpabiliza as mulheres pelas estruturas de desigualdade que regulam o cristianismo.

Acredito que a nova geração de mulheres feministas, que estão mais conscientes de como essa engrenagem funciona, irá subverter essa lógica de exclusão. Mas, por hora, eu e meus cabelos brancos ainda temos que denunciar que discursos de inclusão (de mulheres, de pessoas negras, de LGBTI+) muitas vezes não passam disso – discurso. E aqui não ignoro a importância do discurso como produtor de transformação, afinal, a linguagem age e cria. Mas, em um mundo de disputa de narrativas, muitas vezes nos tornamos pauta de agendas e manifestos, mas, na realidade, ainda somos violentadas por aqueles que insistem em se manter no poder.

Esse é um dos problemas da hierarquia: acredita-se que há uma posição de poder e que qualquer presença estranha nos arredores dessa posição ameaça a pessoa que detém o poder. A ameaça de golpe. O que eles ainda não entenderam é que o “golpe” não é direcionado a uma pessoa (às vezes sim!), mas a um regime. Queremos retirar o poder das mãos do patriarcado, da cisheteronormatividade, e devolver a igreja para o povo, para a comunidade da partilha.

Nessa reflexão sobre nossos desejos de ruptura e transformação dentro as instituições religiosas, e pensando a partir do 10º mandamento que inspira esse ensaio, me pergunto por quanto tempo fomos ensinadas a não cobiçar? Essa é a domesticação dos nossos desejos! Percebam aqui que o fundamentalismo religioso não está somente na igreja do “está escrito”, mas também está na igreja do “somos inclusivos”, “somos progressistas”, porque os corpos que são incluídos continuam passando pela regulação do dogma.

Retomo a frase com a qual iniciei essa reflexão: “Ela chegou agora e já quer sentar na janela”. O que nessa frase foi acionado para me manter imóvel dentro da comunidade de fé? Pelo menos uma coisa: o tempo! – “Ela chegou agora!” E quem é que está, majoritariamente, há mais tempo nas lideranças das igrejas? Os homens. Então, a quem serve o discurso de legitimação baseado no tempo de igreja, tempo de liderança, ou do “seu tempo ainda vai chegar”?

Esse é um exemplo dentre diversos que revelam as estratégias de manutenção do poder dentro das igrejas. Por alguns anos, eu tive a certeza de que eu era liderança dentro da minha denominação. Foi só quando eu deixei a “liderança”, que passei a olhar de fora qual papel eu tinha dentro desse esquema hierárquico. Vocês acham que eu era líder de qual ministério? Vou dar um segundinho para vocês pensarem… É claro, eu era líder do grupo de mulheres. O que mais uma mulher poderia ser? Quem eram os líderes estratégicos? Líderes de formação, de comunicação, de crescimento?

Nós fomos socializadas dentro da estrutura da igreja para sermos líderes de mulheres, de escola bíblica. E, por favor, eu reconheço a importância desses ministérios e da revolução que eles podem fazer se conseguirem romper com a estrutura hierárquica da igreja. Mas, o determinismo naturalizado de nossas atuações na igreja faz parte do processo de docilização de nossos ministérios! Quantas vezes, eu fui chamada de grossa, nervosa, estúpida, e não-cristã (pasmem!) dentro da igreja que me afirmava me incluir? É claro! Afinal, a estrutura da igreja não está pronta para “incluir” mulheres que decidiram ser des/domesticadas 1ALTHAUS-REID, Marcella. Deus queer. Tradução: Fábio Martelozzo Mendes. Rio de Janeiro, RJ: Metanoia; Novos Diálogos, 2019. e des/docilizadas.

Minhas irmãs, não nos enganemos, dizer que Deus é/pode ser mulher, que Deus é/pode ser Mãe, é um grande passo, mas não é o passo final. É uma importante des/construção teológica que afirma como nossa presença nas igrejas desmonta a lógica do “se Deus é homem, o homem é Deus” tão acionada pelo patriarcado… mas a jornada continua. Precisamos decolonizar os dogmas que ainda nos silenciam. A quem servem as “verdades da fé”? Quais são as relações de poder que esse ou aquele dogma reforça e legitima? Não deixemos a hermenêutica da suspeita – tão cara aos nossos feminismos – perdida nas encruzilhadas! É preciso suspeitar, criticar, desestabilizar as “sagradas afirmações” que dizem incluir as mulheres, mas que mantém a mesma lógica de docilização do que representa ser mulher.

 VEJA TAMBÉM

Se há uma verdade que precisa, urgentemente, ser colocada sob suspeita é a que diz o que significa ser mulher, porque o que se percebe é que o conceito de mulher se tornou, dentro da lógica eclesiástica, mas não somente2Ver GÓMEZ GRIJALVA, Dorotea. Meu corpo é um território político. Rio de Janeiro: Zazie Edições, 2020; RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas, 2010; WITTIG, Monique. Não se nasce mulher. Raiót (online)., uma identidade de afirmação do que é ser homem. A mulher existe, porque o homem precisa de um opositor que a ele se submeta. A mulher existe em uma condição hierárquica. E, nós sabemos, ainda que não queiramos aceitar, que a complexidade da vida já desafiou a fixidez do que compreendemos por mulher – mulheres trans, travestis, pessoas não-binárias, nos mostram que a fluidez de gênero é uma ruptura importante na rigidez da estrutura homem/mulher que sustenta o edifício binário do patriarcado.

Por isso, é preciso desmandar o 10º mandamento! É preciso queerizar a cobiça, e compreendê-la mais como um “desejo em excesso”, excesso regulado pela economia da tradição cristã. É preciso ressuscitar o excesso em nós, afinal, como afirmou Marcella Althaus-Reid, o indecente (fundamental para uma proposta queer que queira romper com a decência) é o excedente!

“Teologias sexuais indecentes não precisam ter uma teleologia, ou um sistema, mas podem ser eficazes desde que representem a ressurreição do excessivo em nossos contextos e uma paixão por organizar as violentas transgressões do pensamento teológico e político. O excesso de nossas vidas famintas: nossa fome de comida, fome de tocar outros corpos, de amor e de Deus; uma multidão de fomes nunca satisfeitas que crescem e se expandem e nos colocam em situações de risco e desafio, como um carnaval dos pobres, os livros didáticos dos normalizadores da vida” ALTHAUS-REID, Marcella. La teologia indecente: perversiones teológicas em sexo, género y política. Barcelona: Edicions Bellaterra, 2005, p. 281.

A queerização da cobiça, por meio da ressurreição dos excessos, dos desejos, de maneira alguma está implicada em retirar do outro o que é dele, mas sim em questionar: 1) por que algumas pessoas têm e outras não, 2) quais são as estratégias da religião que mantém essas desigualdades, 3) a quem interessa a manutenção dos desejos. Essas e tantas perguntas são fundamentais para a desestabilização e desestruturação do regime de controle das mulheres na igreja. Se o patriarcado tem medo de golpe, sinto muito, mas “o machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada ao fogo” (Lucas 3:9).

Golpeemos juntas, por nós e por todas que virão depois de nós!


Notas

 

  • 1
    ALTHAUS-REID, Marcella. Deus queer. Tradução: Fábio Martelozzo Mendes. Rio de Janeiro, RJ: Metanoia; Novos Diálogos, 2019.
  • 2
    Ver GÓMEZ GRIJALVA, Dorotea. Meu corpo é um território político. Rio de Janeiro: Zazie Edições, 2020; RICH, Adrienne. Heterossexualidade compulsória e existência lésbica. Bagoas, 2010; WITTIG, Monique. Não se nasce mulher. Raiót (online).
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