A Religião em Xeque: os Sem Religião no Brasil

A Religião em Xeque: os Sem Religião no Brasil
7 de setembro de 2017 Sandson Rotterdan

A Religião em Xeque: os Sem Religião no Brasil

Por Sandson Rotterdan

Vivemos em um país de colonização europeia. Os portugueses que invadiram as terras de o que hoje chamamos de Brasil trouxeram consigo não somente culinária e vestimentas, mas também uma religião, o cristianismo católico. Os índios que aqui viviam tinham, também uma religião. Os negros que foram escravizados e trazidos para cá, trouxeram, também consigo uma religião. Tudo isso para dizer que ter uma religião, ou identificar-se como alguém que tem uma religião é algo mais ou menos comum em uma sociedade.

No caso brasileiro, devido ao processo de colonização, ser católico é que se tornou o que se acredita ser o “normal”. A maioria das pessoas, frequentando ou não uma igreja, conhecendo ou não os dogmas, doutrinas, práticas sacramentais católicas, identificam-se como pertencentes à igreja católica.

Ao longo da história, contudo, isso foi, gradativamente mudando. Um primeiro ponto a se destacar nessa mudança é a separação entre Igreja e Estado com a Proclamação da República, em 1889 e primeira constituição republicana de 1892. Quando o Brasil era um Estado confessional, identificar-se como católico era, praticamente, ser identificado como brasileiro. A separação entre Igreja e Estado, possibilitou em alguma medida a liberdade religiosa e o trânsito religioso no Brasil. Isso possibilitou que outras denominações cristãs viessem a se estabelecer no Brasil e que práticas religiosas de matriz africana fossem, com o decorrer do tempo, descriminalizadas.

Ao mesmo tempo, acontecia na Europa, o advento da Modernidade. Do ponto de vista da religião, é muito importante falar, aqui, da Reforma Protestante (ver Revista Senso n.2 ). Com ela se aprofunda os questionamentos à hegemonia católica e também a separação entre fé e razão. Essa separação permite o crescimento do saber científico que, agora, não ficava mais sob a tutela da Igreja, mas o ser humano se via livre para construir conhecimento. Nesse contexto europeu, a religião passa a ser, constantemente, colocada sob suspeita. Assim, o padre ou o pastor lá no altar já não convencem mais tantas cabeças. Todas as coisas agora passam pelo crivo da razão. É credível aquilo que pode ser mensurado, comprovado.

É na modernidade também que a diversidade religiosa volta a bater na porta das consciências, por meio do intercâmbio cultural que o comércio provoca. O navegador, católico, europeu, passa pela África, pelas Américas, pela Ásia e lá identifica uma infinidade de deuses, cultos, religiões diferentes da Santíssima Trindade cristã.

Dessa forma, o decorrer da história provoca a possibilidade de se duvidar daquilo que diuturnamente era ensinado pela religião. Aquilo que era considerado normal pode não ser tão normal em todos e quaisquer contextos. A diversidade cultural e, por conseguinte, religiosa, começa a apontar uma diversidade enorme de crenças de cultos, de ritos, de espiritualidades que não são necessariamente aquelas ensinadas pelo cristianismo.

A esta altura, nosso leitor pode estar se questionando que estamos falando de muita religião para um texto que quer tratar dos sem religião. O fato de a religião ser uma marca presente nas culturas não quer dizer que, no seio desses povos, tenha existido somente crença.

Mesmo nas culturas mais crentes houve quem não acreditasse no que os outros criam. A religião ou a prática religiosa nunca foram unanimidade na história da humanidade. O que aconteceu é que, os que se posicionaram contra a religião, ou que não professavam uma religião, eram tratados como párias nas sociedades.

O filósofo Protágoras, no século V a.e.c., afirmava, por exemplo, que não se pode provar que os deuses existam ou não. O filósofo Sócrates, outro exemplo, foi condenado à morte por ateísmo e por perverter a juventude. Não que o filósofo fosse, necessariamente, um ateu, mas, talvez, não cresse de maneira igual à hegemônica. Jesus de Nazaré foi acusado pelos saduceus (grupo de sacerdotes judeus, ligados ao Templo de Jerusalém) de blasfêmia, por supostamente ele ter se comparado a Deus, o que culminou com a condenação política de Jesus.

Na Idade Média, período que parece a nós, pessoas do século XXI como tempo de obscurantismo religioso, não foi isento de questionamento quanto a existência de Deus ou das práticas religiosas católicas. Isso se pode aduzir da necessidade de autores consagrados do período medieval escreverem, não poucas vezes, as famosas provas da existência de Deus. Não foram poucos os condenados à fogueira das inquisições católicas e protestantes por crerem ou não crerem da mesma maneira que as instituições criam. Já na Modernidade Ocidental houve quem defendesse a existência de Deus como um poderoso agente regulador da moral e dos bons costumes.

Cá na dita “Terra de Santa Cruz”, houve missionário estadunidense que veio para estudar o idioma dos Pirahãs e acabou convertido a certo ceticismo ou ateísmo. Com isso, queremos dizer que religião não é algo natural, ou que o ser humano não é naturalmente religioso ou não religioso, mas que as religiões são frutos de cultura. Todas nós, crentes e não crentes, somos herdeiras de nossas antepassadas. Deusas, deuses, religiões ou religiães, assim como “pão ou pães é questão de opiniães” para recordarmos o dito de Guimarães Rosa.

Apesar de vivermos em um mundo globalizado, com múltiplas possibilidades de contatos virtuais, o fenômeno dos sem religião é demasiadamente complexo para podermos compreendê-lo neste breve artigo. Vamos, então, fazer uma opção de compreender, mesmo que minimamente, este fenômeno acontece em âmbito de Brasil para, assim, termos algum panorama do senso religioso brasileiro.

Fica, pois, a questão: afinal de contas, o que tudo isso tem haver com o que estamos construindo diálogo no presente artigo? Vamos por partes.

Em primeiro lugar, temos que destacar o crescimento do grupo dos sem religião tem no Brasil. Assim, esquematicamente, olhando os dados de quase cinquenta anos sobre os sem religião, temos

O que se pode ver nos dados é que, em um país com grande influência da religião em sua cultura, há um considerável aumento da população que não se identifica como pertencente a alguma religião.

Em segundo lugar, temos que dizer que a categoria “sem religião” é excessivamente genérica. As pessoas, de maneira geral, pensam que ser sem religião é simplesmente ser ateu, o que não é, necessariamente, verdade. Mesmo as subdivisões que o IBGE propõe no Censo para o grupo que a instituição entende como sem religião é bastante limitado. O IBGE divide os sem religião em ateus (que não creem em Deus); agnósticos (que dizem que não se pode afirmar ou negar que Deus exista) e os sem religião sem religião. Aqui que as coisas começam a se complicar para a maioria das pessoas, inclusive os pesquisadores de religião. Ateísmo é uma expressão consagrada, facilmente compreensível. Agnóstico é algo que as pessoas têm um pouco mais de dificuldade em compreender. Para este grupo, se Deus ou deuses existem ou não, não é algo que possamos afirmar com absoluta certeza. Mas sem religião sem religião não é demasiadamente redundante para uma compreensão de o que seja o terceiro subgrupo dos sem religião?

Examinando os dados disponibilizados pelo IBGE, no Censo Demográfico de 2010, os ateus correspondem a 0,32% da população, ou seja, esse pequeno grupo afirma não acreditar em Deus. 0,07% se afirmam agnósticos e 7,65% afirmam ser sem religião sem religião, isso em um universo de 8,04% da população. Isso quer dizer que 95,15% das pessoas que se identificam como sem religião estão nessa categoria mais ampla e que muito nos interessa nesse artigo. Ou seja, pouco mais de 95% das pessoas que se afirmam sem religião não dizem não acreditar em Deus ou mesmo que não se pode afirmar ou negar a existência dele.

Antes disso, cabem umas terceiras questões importantes e que tentaremos apontar respostas neste artigo. Em que, afinal de contas acreditam os sem religião? Elas têm alguma prática que se pode chamar de religiosa? Buscar construir alguma resposta a essas perguntas, a partir de o que os sem religião mesmos dizem a respeito deles, é fundamental para compreendermos este grupo significativo da população brasileira e desconstruir alguns estereótipos de que o sem religião seja uma pessoa sem moral, que não tenha alguma espiritualidade ou que seja, necessariamente, ateu e, mesmo se o for, isso não é uma característica negativa.

Se se olha os dados sociais, quem são os sem religião? Os dados do Censo 2010 do IBGE apontam que a maioria dos sem religião são homens (59%), pardos (47%), na faixa etária de 15 a 39 anos (50,8%), residentes em área urbana (89,5%), 60% estão economicamente ativos; sem instrução ou sem ensino fundamental completo (43%), têm renda entre 1 e 2 salários mínimos (35%); com carteira assinada (48,38%). Esses dados nos permitem afirmar que o sem religião brasileiro são homens jovens e adultos, que estão nas camadas mais empobrecidas da população, que vivem nas periferias, que lutam pela sobrevivência.

Em pesquisa realizada em Belo Horizonte, acerca de valores e religião, as pessoas sem religião quando indagadas sobre o porquê deixaram a religião apontam não saber o motivo, conforme se pode ver abaixo.

Como se pode observar nos dados, as pessoas que se afirmam sem religião não têm um motivo específico para o abandono da religião. É, simplesmente, algo que aconteceu. Isso talvez seja uma característica do sem religião no Brasil. Essa saída da religião não se dá por questionamentos de atitudes da Igreja, ou por questionamentos dogmáticos. Teria a luta pela sobrevivência afastado as pessoas da religião? A maneira que as religiões se organizam e demandam dedicação teriam provocado a saída das pessoas? Essas são questões que merecem atenção dos pesquisadores de religião. Fato é que temos no caso brasileiro pouco ou quase nada de um problema teórico, como os postos pela modernidade europeia. Temos, sim, um sem religião à brasileira, à nossa maneira e é isso que tentaremos aprofundar um pouco mais nossa compreensão.

Como os dados apontaram acima, o ateísmo é pouco recorrente no Brasil. Isso pode nos levar nos questionar, então, se o sem religião, no Brasil, crê em alguma coisa. Faz-se necessário, então diferenciar religião e religiosidade. Religião é, grosso modo, uma institucionalização das crenças. Ou seja, aquilo que um grupo de pessoas experimentou, foi organizado e definido: cremos e celebramos dessa forma, e isto é a verdade. Já a religiosidade é a maneira que as pessoas vivem aquilo que experimentaram na religião. A religiosidade é muito mais fluida, adaptável ás circunstâncias para além das religiões. Pois bem, a mesma pesquisa realizada na Região Metropolitana de Belo Horizonte aponta que não há uma negação da religiosidade, mas a religião vai perdendo a sua força mediadora entre Deus e o ser humano para os sem religião. Um entrevistado afirma:

Já fui um católico bem praticante, fui líder de grupo de jovens, tinha campanha do quilo, tinha trabalhos de asilo, com campanha do frio, de agasalho, trabalhei em várias situações assim, lidei com teatro na Igreja Católica, até por volta de vinte e dois anos, quando assumi outras responsabilidades passei a função para frente, mas, na Igreja católica ao tempo que se vai praticando, com um pouco de esclarecimento se entende algumas coisas. Aí você entende que há o protestantismo, por que as pessoas não concordam com certas coisas, e eu acabei chegando a essa conclusão (…) migrei um tempo depois foi para uma Igreja Batista, e foi muito interessante e tudo, mas infelizmente eu acho que eu sou muito crítico, e eu tenho uma visão muito crítica das coisas, então, do mesmo jeito que eu via aspectos que não concordava na Igreja Católica eu também descobri alguns que eu não achei legal e acabei eliminando esse intermédio e eu descobri uma rota, eu mesmo para falar com Deus. (CAMARGOS, 2012, p. 21).

O entrevistado dessa pesquisa, apesar de apontar o motivo pelo qual abandonou a religião, vai deixando claro que a “descoberta” que o sem religião faz é que não precisa de mediadores entre eles e Deus, ou que, para eles o aspecto da institucionalidade, da rigidez das práticas e das crenças é algo dispensável. Outro elemento importante que se pode ressaltar também na fala deste pesquisado é o aspecto da subjetivação das práticas religiosas. Como a religião é algo de foro íntimo e ninguém é obrigado a crer em alguma coisa, as pessoas sem religião também não se veem obrigadas a aderir a uma religião para serem religiosas, crentes. Basta viver a religiosidade.

Outro aspecto importante de se notar é que a diversidade religiosa existente e o fato de a cultura brasileira ser formada mediante a confluência de uma gama de culturas, permite um trânsito das pessoas por religiões. Geralmente as pessoas têm origem católica, passam por uma experiência em igrejas evangélicas pentecostais e ingressam no grupo dos sem religião. Nesse trânsito as pessoas escolhem e colhem elementos que vão , de alguma forma, moldar sua religiosidade, para além do pertencimento nominal a uma instituição ou de o que elas definem ser o correto a se fazer.

Esse trânsito e a não identificação da pessoa com as instituições não significam, contudo, que as pessoas sem religião não alimentem, com elementos religiosos cristãos a sua religiosidade. Subsiste uma crença no deus cristão e práticas devocionais em casa. Na pesquisa feita por Camargos (2012) um deles assim afirma:

Eu acredito em Deus, mas, não consigo ver uma religião definida por que, igual, por exemplo, na evangélica eles falam não existe santo. Na católica acredita muito em santo. Então, eu falo pra mim deus acima de tudo. Agora, é difícil ir pra qual está certa por que uma acredita em uma coisa que outros já fizeram várias descobertas. (p. 4).

Outro diz:

Rezo! Acredito em deus, acho que a gente tem que por ele na frente de tudo, sem ele eu não sou nada, mas, acho que eu não preciso ir na igreja pra conseguir acreditar que Deus existe. (p. 8)

Dessa forma, podemos dizer que o sem religião é alguém que se afastou da instituição religiosa, mas que não é uma pessoa necessariamente ateia. Deixou de ir à Igreja, mas não deixou de acreditar em Deus, rezar ou cultivar a espiritualidade.

A título de conclusão

As maneiras de ser religioso e de ser sem religião é bastante variável ao longo da história. Querer enquadrar todas as formas de não religião em um único conceito é, no mínimo, irresponsabilidade dos estudiosos. As maneiras de não ser religioso muda de acordo com contextos culturais, econômicos e sociais em que as pessoas vivem. A experiência de um sem religião europeu é diferente da experiência de um sem religião brasileiro. Mesmo no mesmo território, a experiência de ser sem religião com estudos superiores é diferente da experiência de ser sem religião com formação educacional básica. Cada um experimenta o mundo desde um lugar. O desafio aqui foi apresentar dados e conjecturar, de alguma forma, o que seja, ou quem seja o sem religião no Brasil.

A problemática da racionalidade moderna, científica, parece ter pouca incidência sobre o fenômeno dos sem religião, pelo menos no Brasil, o que faz com quem as grandes teorias explicativas das academias europeias talvez sejam mais calmantes para estudiosos que, de fato, fatores que possam explicar o que vem acontecendo por aqui. Contar com autores de países secularizados ricos para explicar o sem religião pobre e periférico pode ser pouco frutuoso, já que, por aqui, o fenômeno tem contornos próprios, que exige uma epistemologia também própria, acreditamos.

Então, é preciso desconstruir em nosso imaginário que o sem religião seja uma pessoa sem fé, descrente, sem moral. O sem religião é alguém também herdeiro da tradição cristã que, em alguma medida, nos foi imposta pela cultura. Alguém que vive nas periferias do capitalismo e, para as quais, as respostas construídas pelas religiões, sejam elas de resignação à pobreza, seja de uma compulsão com a prosperidade, já não convencem. O sem religião crê, tem práticas religiosas, mas não se identificam completamente com os discursos das instituições religiosas.

O fato de as pessoas se dizerem sem religião pode revelar uma certa desconfiança pela qual passa as instituições de maneira geral, ou pode questionar a capacidade de as religiões cristãs, em tempos de teologia da prosperidade, falar para um grupo de pessoas com baixos salários e que, talvez, vêm muito longe a terra prometida da prosperidade, sobretudo em tempos de desemprego e  crise econômica. O sem religião é gente empobrecida, mas que, ao que parece, não perdeu a fé, somente não se identifica com as instituições

A cultura popular, em alguns momentos, pode nos dar alguns elementos para respostas que a cultura acadêmica não nos dá. O povo canta “andar com fé eu vou que a fé não costuma faiá”. Andar com fé, para além dos deuses das religiões. Se a fé costuma ou não falhar, é assunto para outra hora.


Referência

CAMARGOS, Malco (Coord.). Valores e religião na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Belo Horizonte: Vertex Pesquisa, 2012. (Não publicado).
IBGE. Censo 2010.