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Teologia da Libertação: mais atual impossível

Teologia da Libertação: mais atual impossível
15 de julho de 2020 Renata Andrade

A História da América Latina, após a chegada dos europeus, é marcada pela exploração de nosso território e dos povos originais, resultando em violência, injustiças, pobreza e profunda desigualdade. Em nossa colonização, o colono chegou de braços dados com os missionários, por isso, o elemento marcante, que merece destaque, refere-se ao cristianismo institucionalizado na Igreja Católica. Essa instituição, aqui, se posicionou de várias formas acerca de nossos problemas: ora com indiferença, ora com indignação. Pensemos sobre isso: mais atual impossível.

Essas contradições são constitutivas dos aspectos políticos, econômicos, culturais e religiosos da América Latina que se arrastam por séculos. Mas focaremos, aqui, nos anos de 1960 e 1970. Nesse contexto, o mundo era marcado por muitas efervescências culturais e políticas, sendo materializadas na luta pelos direitos civis dos negros, libertação feminina, direitos LGBT, movimento estudantil, movimento hippie, Maio de 68, dentre outras manifestações. Um clamor por liberdade e libertação tomou as ruas do mundo. Essas perspectivas se chocaram com as posturas tradicionais e conservadoras, logo, chegaram à Igreja, uma vez que a ela é elemento constitutivo de nossa sociedade. Reflitamos sobre isso: mais atual impossível.

Para o enfrentamento dessas discussões, na América Latina, se estabeleceram ditaduras militares.  No contexto da Guerra Fria, os Estados Unidos desenvolveram diversos mecanismos de combate ao expansionismo socialista. Especialmente, a partir da Revolução Cubana, os EUA intensificaram sua vigilância sobre nosso território. Diante disso, diversificados grupos de esquerda e simpatizantes da causa socialista floresceram em diversas nações do continente. No combate a isso e muitas vezes auxiliados pelos estadunidenses, as forças conservadoras se mobilizaram nessas regiões e, atendendo a essa demanda, tivemos a instituição de governos militares. Por meio de golpes de Estado, a América Latina assistiu, nos anos 60 e 70, à ascensão de inúmeras ditaduras: Argentina, 1962; Brasil, 1964; Peru, 1968; Uruguai e Chile, 1973; Bolívia, 1982. Pensemos sobre isso: mais atual impossível.

Mapa invertido da América do Sul, Torres Garcia, 1943. A obra de Garcia é um redescobrimento, uma devolução do nosso orgulho e tudo que é próprio do sul-americano.

Diante desse cenário, a princípio no passado, mas mais atual impossível, a América Latina vivenciou uma transformação teológica. No período pós Concílio Vaticano II (1962-1965) e pós Conferência Episcopal Latino-Americana (agosto de 1968), visualizou-se o nascimento de uma teologia que trazia em seu bojo uma condição pétrea para viver o Evangelho de Jesus Cristo: a opção pelos pobres, bem como a defesa dos seus direitos. Falamos aqui da Teologia da Libertação (TdL).

Vista, num primeiro momento, com desconfiança, a TdL é permeada por várias correntes de pensamento que analisam e interpretam os ensinamentos de Cristo na perspectiva das injustiças impostas aos mais pobres e em condições de vulnerabilidade social. É mister destacar a publicação, em 1971, de seu marco inicial na obra A Teologia da Libertação, do teólogo Gustavo Gutierrez, mas suas raízes são anteriores a esse marco cronológico.

A Teologia da Libertação nasceu, dentro da Igreja Católica, como resposta às inúmeras contradições existentes na América Latina que colocam milhões de pessoas vivendo a sua fé cristã na pobreza e na miséria. Toda opressão demanda libertação. Mais atual impossível.

Após os escritos de Gutierrez, tivemos a primeira geração de autores, em toda a América Latina, aprofundando, ampliando e disseminado tais análises: Jon Sobrino, Leônida Proaño, Juan Luís Segundo, Leonardo Boff, Frei Betto, além de bispos e cardeais, como Dom Pedro Casaldáliga, Dom Waldir Calheiros, Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Aloísio Lorscheider, entre outros. A ação católica junto à juventude, às escolas radiofônicas no sertão, às primeiras comunidades de base e às buscas por uma leitura popular da Bíblia transformaram-se em terreno fértil que possibilitou a sistematização teológica sobre a libertação. Nesse sentido, seria correto afirmar que a Teologia da Libertação foi construída por muitas mãos e a partir das camadas populares.

Alguns autores, como Rosino Gibellini, afirmam que a história da Teologia da Libertação é composta por três momentos: a preparação, a formulação e a sistematização. Leonardo Boff, por sua vez, defende que a história da Teologia da Libertação possui quatro momentos: gestação e gênese, difusão e crescimento, consolidação, revisão e novo impulso. Utilizaremos aqui ambos os autores.

O primeiro momento – gestação e gênese – como mencionado, teve como marco inicial o Concílio Vaticano II (1962) e a Conferência Episcopal Latino-Americana (1968). As doutrinas derivadas do Concílio foram basilares para a abertura da inclusão da Igreja no mundo secular. Trouxe a perspectiva de que o mundo faz parte dela. A Igreja Latino-americana fez sua própria interpretação do Concílio, partindo de sua realidade específica, caracterizada pela pobreza, pela miséria e por injustiças sociais.

Um segundo momento da história da TdL pode ser pensado como um período de sua formulação e sustentação teórica, ocorrida, segundo Gibellini, entre 1968 a 1975. Nesse contexto, as demandas de movimentos sociais foram incorporadas, tais como a teologia feminista que mostra como as mulheres são oprimidas em nossa sociedade, a busca pela conquista da igualdade com os homens, bem como as discussões acerca do gênero. A teologia indígena que reconheceu os povos indígenas como sujeitos políticos. E, por fim, os afro-americanos que também são povos que vivem subjugados resultantes da escravidão e do racismo. Citei, aqui, algumas tendências, mas ainda existem a das religiões, a da cultura, a da história e a da ecologia.

O terceiro momento é marcado, segundo Leonardo Boff, pela Terceira Conferência do Episcopado Latino-Americano, que aconteceu em 1979 e teve como tema: “A Evangelização no presente e no futuro da América Latina”, consolidando a Teologia da Libertação. A principal marca desse momento refere-se à discussão de métodos de ação:  ver, julgar e agir. Era preciso uma ação concreta e o local onde teria a mola propulsora de ações seriam os Institutos Pastorais, os centros de formação e os agentes pastorais.

Por fim, o quarto momento é o da revisão e do novo impulso, que se iniciou a partir de 1989, época em que a Teologia da Libertação tem o seu horizonte dilatado, passando a se preocupar também com o meio ambiente. A discussão sobre Gaia, a casa comum.

A Teologia da Libertação, portanto, representa um movimento americano, especialmente latino. Defende que a Igreja tenha mais do que empatia pelos pobres, ou seja, que tenha também um vínculo com essa ampla camada de nossa sociedade, possibilitando dar voz em busca de mudanças estruturais: pelo fim da miséria, da pobreza, pela liberdade e pela justiça social. A centralidade da Teologia da Libertação é o pobre, e a centralidade do Evangelho é a libertação da opressão. Sem movimentos de libertação, não há Teologia da Libertação e não há a vivência do Evangelho. A Teologia da Libertação nada mais é que a liberdade à luz da fé. Reflitamos sobre isso: mais atual impossível.

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