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O desafio da interdisciplinaridade nas ciências da religião

O desafio da interdisciplinaridade nas ciências da religião
24 de novembro de 2020 Tatiane Aparecida de Almeida

O termo interdisciplinaridade é associado comumente ao estudo no âmbito da educação, especialmente à formação de professores, e perpassa, também, diversas áreas do conhecimento destacando-se na pedagogia, química, psicologia, dentre outras. Ou seja, muitos dos trabalhos estão voltados à grande área da educação, de forma prática e teórica, uma vez que não é novidade que a interdisciplinaridade tem sido um termo bastante utilizado no contexto educacional.

No entanto, nosso objetivo nesse texto é compreender o conceito de interdisciplinaridade no campo científico-acadêmico e suas implicações para a disciplina que, no Brasil, é majoritariamente conhecida como Ciências da Religião. Para tanto, apontaremos a seguir dois indicadores nos quais orientamos nossas ideias.

Em primeiro lugar, é preciso considerar que as Ciências da Religião no Brasil desenvolvem estudos desde o ano de 1969, quando surgiu o primeiro curso de graduação na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). As atividades acadêmicas no âmbito da pós-graduação tiveram seu início com a criação do Programa de pós-graduação stricto sensu da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), em 1978, e, em seguida, pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), em 1979.

Em segundo lugar é fato que, a partir dos anos mil novecentos e setenta, vários são e foram os projetos educacionais e disciplinas que se intitulam interdisciplinares no Brasil.

Portanto, ao passo que a interdisciplinaridade se desenvolvia e se estabelecia na educação brasileira, ocorreu também a implantação do primeiro curso em Ciências da Religião no Brasil, disciplina a qual nos dedicamos.

Concluímos com os dois indicadores supramencionados que as Ciências da Religião no Brasil surgiram no tempo da interdisciplinaridade. Nesse sentido, realçamos nossa convicção de que desde o momento em que a disciplina foi concebida tratava-se de uma disciplina de perfil metodológico interdisciplinar. Isto é, ao passo que a interdisciplinaridade se desenvolvia e se estabelecia na educação brasileira, ocorria também à implantação do primeiro curso em Ciências da Religião no Brasil, sendo que tanto o método quanto a disciplina passou-se a desenvolver em âmbito brasileiro.

Irani Catarina Arantes Fazenda (1994) aponta que a década de 1970 pode ser lida como a época na qual a interdisciplinaridade passou pelo processo de estruturação conceitual básica. Nessa época foi apresentado vários problemas e orientações que ainda hoje são refletidas no ambiente acadêmico. Em perspectiva educacional havia diversos apontamentos e empenho político e social para a necessidade de que houvesse a exigência de que o ensino universitário se caracterizasse de forma interdisciplinar. Desse modo, creditou-se a esse projeto interdisciplinar que o mesmo asseguraria o desenvolvimento das pesquisas e a evolução das universidades.

Para os pesquisadores Amauri Carlos Ferreira e Flávio Senra (2012), não é possível observar nas origens das Ciências da Religião no Brasil o objetivo claro em se estabelecer uma nova ciência.  No entanto, uma vez estabelecida a relação entre religião e sociedade no âmbito científico, entendemos esse debate como fruto da ciência contemporânea que ao fomentar a relação entre religião e contemporaneidade revela que, de fato, tal qual o método interdisciplinar a disciplina Ciências da Religião visa considerar os pressupostos presentes na sociedade para a propagação do conhecimento, suscitando a humanização da ciência.

Isto quer dizer que falar de interdisciplinaridade, tal qual defende Ivani Fazenda (1995), é dizer que nela é fundamental o ser humano. Ou seja, a partir das representações que os indivíduos fazem de sua realidade, que agem sobre ela e que se constroem também enriquecem o saber e aprendem.

O trabalho teórico-metodológico em Ciências da Religião, considerando-se as outras disciplinas advém da colaboração recíproca entre distintas áreas do saber. No entanto, é de suma importância compreender que não somente pela diversidade de disciplinas se caracteriza a interdisciplinaridade na disciplina Ciências da Religião. Porém, assumida a perspectiva interdisciplinar das Ciências da Religião, cada disciplina passa a ser entendida como uma específica contribuição nos estudos sobre as religiões. Não obstante, a própria complexidade do fato religioso nos parece exigir estudos interdisciplinares para fomentar a compreensão do objeto religião que por vezes nos parece demasiadamente complexo.

Portanto, por meio de uma tentativa epistêmica de compreensão do mundo que a interdisciplinaridade, ao aproximar áreas e especialidades, partilha sua compreensão sobre os objetos de conhecimento. É preciso considerar que, na configuração de áreas de saber, são os pares de formação identitária que definem os fundamentos teórico-metodológicos de um determinado objeto. A consolidação desse processo se dá a partir da singularização e diferenciação das perspectivas teóricas, conceituais e metodológicas. É assim que o campo de uma certa área do conhecimento se organiza em disciplinas que a fundamentam. No caso das Ciências da Religião, a pluralidade das disciplinas científicas favorece o estudo amplo do seu objeto.

A tendência interdisciplinar nas Ciências da Religião se destina a  reunir a contribuição de diferentes ciências e se deixar enriquecer pela ampliação dos campos de abordagem sobre os objetos em investigação.

Nesse sentido, buscar formar um profissional no campo das Ciências da Religião, considerando os vários ângulos metodológicos, teóricos e culturais, aponta-nos para complexidades das mais diversas, uma vez que a interdisciplinaridade não está associada à ideia de uniformidade e homogeneidade. Trata-se de uma ação que não elimina as contribuições individuais da disciplina, mas que se integra a elas. Isto porque de acordo com Ivani Fazenda (1994) a interdisciplinaridade não é uma categoria do conhecimento, mas sim de ação.

A interdisciplinaridade prevê a interação existente entre duas ou mais disciplinas. Essa interação pode ir da simples comunicação de ideias à integração mútua dos conceitos diretores da epistemologia, da terminologia, da metodologia, dos procedimentos, dos dados e da organização referentes ao ensino e à pesquisa. Um grupo interdisciplinar compõe-se de pessoas que receberam sua formação em diferentes domínios do conhecimento (disciplinas) com seus métodos, conceitos, dados e termos próprios.

As reflexões interdisciplinares apontam que as colaborações teóricas e metodológicas a partir de outras disciplinas devem ser buscadas desde seu início, mas cientes de que não é possível que exista a interdisciplinaridade sem a peça chave que é a disciplinaridade.

Compreendemos que não há uma leitura única do método interdisciplinar, mas devemos nos orientar por aquela que nos aponta o caminho da convergência e da integração com o mundo.  Pois, a metodologia interdisciplinar não busca eliminar as disciplinas, mas integrá-las entre si e com o mundo/ser humano, e, nessa oportunidade, centralizá-las na formação cidadã do sujeito a fim de tornar o conhecimento acessível a todos e todas.

É verdade que não se observa nas discussões epistemológicas relativas à fundamentação da disciplina Ciências da Religião a necessária clareza no que se refere a essa problemática. Penso que o desafio da interdisciplinaridade nas Ciências da Religião esteja na compreensão da interdisciplinaridade para esta disciplina, uma vez que segundo Dreher (2001, p.166) “as dúvidas e a insegurança dos cientistas da religião concentram-se, isto sim, no problema no método”.

Enfim, a interdisciplinaridade não é uma temática nova quando se leva em conta os estudos em teoria do conhecimento. No entanto, ela vem sendo assumida como uma tendência mais ou menos imposta pelas circunstâncias.


Referências 
DREHER, Luiz Henrique. Ciência(s) da religião: teoria e pós-graduação no Brasil. In: TEIXEIRA, Faustino (org.). A(s) ciência(s) da religião no Brasil. Afirmação de uma área acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2001.
FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade: história, teoria e pesquisa. São Paulo: Papirus, 1994.
FAZENDA, Ivani Catarina Arantes. Interdisciplinaridade: um projeto em parceria. 3 ed. São Paulo: Loyola, 1995.
FERREIRA, Amauri Carlos; SENRA, Flávio. Tendência Interdisciplinar das Ciências da Religião no Brasil. O debate epistemológico em torno da interdisciplinaridade e o paralelo com a constituição da área no país. Numen, Juiz de Fora, v. 15, n.2, p. 249-269, dez 2012. Disponível em: <http//numen.ufjf.emnuvens.com.br/numen/article/view/1729/1446>. Acesso em 13 out. 2016.
GUSDORF, Georges. Les sciences de l´homme sont des sciences humaines. Paris: Les Éditions Ophrys, 1967.
GUSDORF, Georges. In: JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p. 7-27.
GUSDORF, Georges. Conhecimento Interdisciplinar. In: POMBO, Olga. Interdisciplinaridade e Antologia. 1ª ed. Lisboa: Editora Campos das Letras, 2006.
JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

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