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Max Müller e a Ciência da Religião

Max Müller e a Ciência da Religião

Pode-se considerar como o tempo de gênese da Ciência da Religião o período que se estende de 1850 a 1920 e que vai de Max Müller a Émile Durkheim e Marcel Mauss. Constituindo-se como disciplina acadêmico-científica por volta de 1870 e se inserindo no domínio uiversitário alguns anos depois, ela evidencia um momento de ruptura na ordem dos saberes, uma fratura epistemológica em relação aos modos de abordagem da Teologia e da Filosofia, no que tange a suas perspectivas de análise acerca da religião. A um só tempo, ela aponta para a emergência e para o resultado de uma longa sedimentação de um estudo crítico da religião que se nutre sobretudo do criticismo bíblico do século XVIII, da liberdade filosófica, do deísmo inglês, da mitologia comparada ou da exegese lacizada. De fato, para se compreender com exatidão o seu processo de constituição, isto é, para se pôr em prática uma espécie de “arqueologia” deste campo do saber, é necessário remontar pelo menos até ao século XVII, ao espírito crítico do humanismo europeu e à corrente de erudição, sobretudo filológica, que esse humanismo suscitou. Mas a brevidade requerida por essas páginas não nos permitem abordar em pormenores a todos esses fatores.

Por essa razão, nos ateremos, aqui, ao momento original de sua proposição de forma sistemática, que finca suas raízes na teoria de Friedrich Max Müller (1823-1900), cujo nome não deve ser confundido com o do linguista austríaco Friedrich Müller (1834-1898), seu contemporâneo, nem com o de Max Müller (1906-1994), filósofo alemão e intelectual católico, professor de Filosofia na Universidade de Friburgo depois de 1946 e um dos discípulos prediletos de Heidegger, seu mestre de outrora, segundo o testemunho de Hannah Arendt.

Filho de Wilhelm Müller, cuja poesia lírica foi musicada pelo célebre compositor austríaco Franz Schubert, e de Adelheid Müller, a primogênita de um primeiro-ministro de Anhalt-Dessau, Max Müller nasceu em 6 de dezembro de 1823 e emigrou, aos 23 anos, da Alemanha para a Inglaterra, pelas mesmas razões que haviam conduzido Anquetil-Duperron a sair da Índia, a saber, o colonial domínio inglês sobre o subcontinente tornava a Grã-Bretanha um território ideal para o trabalho de um indólogo. Com efeito, era na Inglaterra que se encontravam os manuscritos encontrados pelo orientalista e jurista britânico William Jones, notabilizado por seu trabalho com as línguas indo-europeias e que, seguindo os passos dados por Gaston-Laurent Coeurdoux em O idioma sânscrito (The Sanscrit Language), de 1786, levantara a hipótese de que elas deitavam raízes em uma origem comum.

Formado em filosofia por Friedrich Schelling; em sânscrito, por Brockhaus, em Leipzig; em gramática comparada, por Franz Bopp, em Berlim; em Avesta e no indianismo por Eugène Burnouf, em Paris, Max Müller ensinou em Oxford e em Estrasburgo. Esse linguista alemão, que construiu toda a sua carreira em Oxford, na Inglaterra, foi, para as línguas indo-europeias, o que seu contemporâneo e amigo, Ernest Renan, significou para as línguas semíticas. Foi o fundador da Mitologia Comparada sobre bases metodológicas filológico-linguísticas e, à semelhança do supramencionado erudito francês, sua reflexão orbitou em torno não de um objeto apenas, mas de três: o pensamento e a linguagem, concebidos como as duas faces de uma mesma realidade, através dos estudos em Ciência da Linguagem; o mito, por meio de uma Mitologia Comparada; e a religião, mediante as investigações em Ciência da Religião.

Quando o barão Christian Charles Josias von Bunsen, também conhecido por Karl Josias von Bunsen ou simplesmente por Barão von Busen, embaixador da Prússia na Inglaterra e egiptólogo entusiasta, auxiliado pelo sanscritista Horace Hayman Wilson, obteve da Companhia Britânica das Índias Orientais (East Indian Company) a verba necessária para a edição crítica do Rigveda, ele solicitou, em 1846, que o jovem editor F. Max Müller publicasse, de tempos em tempos, partes de seu trabalho. Max Müller respondeu a esse pedido com seus Chips from a German Workshop, obra em que pela primeira vez o nome Ciência da Religião é arrogado sob a pena mülleriana e de seu propósito absolutamente peculiar e distinto, e com outras numerosas publicações.

De 1849 a 1874, a Companhia das Índias contratou e pagou regiamente a laboriosa empreitada de Max Müller destinada à edição crítica dos Vedas. Müller dirige-se à Inglaterra para reunir os manuscritos. Oxford torna-se sua nova pátria em 1848 e ele aí permanece até a sua morte, em 1900. Na condição de funcionário da East India, Max Müller, ao lado do escocês James Legge (1815-1897), trabalhou como indefesso editor dos cinquenta volumes que compõem o The Sacred Books of the East, uma monumental coletânea de textos sagrados fundamentais do Hinduísmo, Budismo, Taoísmo, Confucionismo, Zoroastrismo, Jainismo e Islã, publicada entre 1879 e 1910 e que contou com o trabalho de tradução de renomados filólogos, dentre os quais o especialista inglês em Zoroastrismo Edward William West (1824-1905), o orientalista inglês e conhecedor da língua árabe Edward Henry Palmer (1840-1882), o orientalista francês James Darmesteter (1849-1894), o indólogo alemão George Frederick William Thibaut (1848-194), o orientalista inglês e experto na língua chinesa Samuel Beal (1825-1889), e outros mais, além de Müller e Legge, como os peritos Michael Viggo Fausböll e T. W. Rhys Davids.

Em 1851, Max Müller proferiu as suas conferências sobre Filologia Comparada, abrindo caminho para a posse da cátedra em Oxford, no ano de 1854. Se em 1860 perdera o concurso para a cátedra de Sânscrito, oito anos depois veio a se tornar o primeiro professor de Teologia Comparada em Oxford, cargo que se estendeu de 1868 a 1875.

De fato, a obra de M. Müller é notável: edição de textos sagrados orientais; investigação sobre a origem da religião; publicação de escritos sobre o nascimento da mitologia, sobretudo da mitologia solar; investigações acerca das relações entre o pensamento e a linguagem; redação de ensaios de hermenêutica acerca do pensamento religioso da Índia; além da comunicação de conferências tanto no âmbito das Hibbert Lectures quanto no ambiente das Gifford Lectures.

No que tange a essas preleções ou palestras, tratavam-se de cursos ministrados por eminentes teóricos sob o convite de executores testamentários de heranças privadas e estavam em voga na Inglaterra e nos EUA. As Hibbert Lectures, de modo especial, financiadas graças ao legado do negociante inglês Robert Hibbert (1769-1849), tornaram-se célebres. Foram assim nomeadas em homenagem ao seu fundador, cuja doação generosa em 1847 possibilitou a posterior realização dos respectivos eventos no Manchester College. As disposições do doador estipulavam que os interesses de seu legado deveriam servir para viabilizar, sob uma forma mais simples e mais compreensível, a pesquisa sobre a expansão do cristianismo e, assim, a encorajar à promoção de um juízo objetivo sobre a religião. Alguns ingleses influentes, como Max Müller, por exemplo, propuseram aos executores testamentários da herança Hibbert, que o dinheiro fosse usado para reunir renomados estudiosos, em nível internacional, em vista de se ministrarem cursos de Ciência da Religião. Assim, também a Inglaterra poderia tomar conhecimento dos resultados das pesquisas, levadas a termo com independência em relação à tutela da Igreja. De fato, neste contexto histórico da Grã-Bretanha, essa série de palestras, às quais foram posteriormente acrescidas as Gifford Lectures, se revelaram como a possibilidade de se escapar às limitações impingidas pelos teólogos no âmbito acadêmico. No horizonte desse primeiro círculo de preleções, foi Max Müller quem proferiu a palestra inaugural, na primavera de 1878, e cujo tema foi expresso de modo lapidar no próprio título: Palestras sobre a origem e o desenvolvimento da religião, à luz de religiões da Índia (Lectures on the origin and growth of religion, as illustrated by the religions of India).

As Lectures tornaram-se etapas fundamentais no caminho trilhado pela Ciência da Religião, sobretudo quando a elas se ajuntarão, em 1888, as Gifford Lectures. Estas últimas se constituíram em séries anuais de palestras, proferidas no decorrer de um ano acadêmico e apresentadas com o intuito de que seu conteúdo editado fosse publicado em forma de livro, de modo que posteriormente vieram a se tornar verdadeiras obras clássicas nos domínios da Teologia, da Filosofia e da relação entre ciência e religião. Estabelecidas por vontade do advogado e juiz escocês Adam Lord Gifford (1820-1887), que mantinha fortes vínculos com a universidade de Glasgow, essas preleções foram financiadas por verbas oriundas de um fundo criado pelo seu fundador. De fato, Lord Gifford havia legado uma importante e significativa quantia, que viria a servir para financiar cursos regulares nas quatro universidades escocesas – a de Edimburgo, Glasgow, Aberdeen e St. Andrews –, ministrados por notáveis eruditos que deveriam ser selecionados independentemente de suas convicções religiosas pessoais. Eis o único critério exigido: eles deveriam trabalhar como especialistas em teologia natural e tratar o conhecimento de Deus do ponto de vista estrito das ciências naturais – comparável àquele que então vigorava na astronomia ou na química –, de forma rigorosa mas também acessível ao público não especialista. Graças a todos esses esforços, orientados pela finalidade de possibilitarem que o grande público pudesse ter acesso aos estudos em Ciência da Religião, é que o primeiro congresso internacional sobre as religiões, realizado em 1983 na cidade de Chicago, obteve intenso eco.

Ora, alguns dos eruditos cujas conferências honraram as Hibbert Lectures também se apresentaram no espaço das Gifford Lectures. Dentre os palestrantes, encontrava-se novamente Friedrich Max Müller, que entre 1888 e 1892 proferiu quatro preleções, em Glasgow, sobre temas relacionados ao seu trabalho enquanto cientista da religião.

Enunciamos, acima, que o passo decisivo e distinto dado por Friedrich Max Müller (1823-1900) em relação às outras formas de abordagem da religião até então hegemônicas pode ser identificado no prefácio da obra Chips from a German Workshop, de 1867. De fato, a expressão “Ciência da Religião” (Religionswissenschaft) foi evocada pela primeira vez no prefácio dessa obra, e no propósito de designar a emancipação da nova disciplina acadêmica em relação à Filosofia da Religião e, sobretudo, frente à Teologia. Mas foi também usada para sublinhar a prerrogativa de autonomia e de distinção, epistêmica e metodológica, que a Ciência da Religião ocupa no vasto processo de institucionalização, ocorrido em meados do século XIX, de uma série de outros saberes científicos então emergentes.

Ora, cumpre notar, por um lado, que não faltavam precedentes à empreitada de se erigir um conhecimento racional sobre as religiões, o que nos conduz a longínquos espaços de tempo e nos reporta mesmo às civilizações da Grécia e Roma antigas. Por outro lado, constata-se, ao menos desde o final do século XVIII, a existência de obras com títulos semelhantes ou até mesmo idênticos à de Müller e na qual se constata o uso da expressão “Ciência da Religião”. Mas convém sublinhar que a forma estrutural de tais empreendimentos de investigação, ou seja, o modo de abordagem de seu objeto formal de pesquisa, a(s) religião(ões), de maneira alguma corresponde ao que é proposto, a partir da segunda metade do século XIX, pela iniciativa do aclamado orientalista alemão. É o que podemos constatar, por exemplo, invocando as análises sistematizadas e enfeixadas, anos mais tarde, na obra Introdução à Ciência da Religião [Introduction to the Science of Religion].

Originalmente publicado no ano de 1882 1É comum encontrarmos a referência ao ano de 1873 como a data original de publicação desta obra. Mas cumpre sublinhar que o livro Introdução à Ciência da Religião (Introduction to the Science of Religion), de Max Müller, teve sua publicação indevidamente antecipada, de modo que nos Estados Unidos já circulava uma edição não oficial. E o crescente interesse por investigações sobre as religiões realizadas numa perspectiva não mais teológica e que, portanto, escapasse ao crivo tutelar da Igreja cristã, foi responsável pela apressada tradução da obra nas línguas francesa, italiana e alemã., em Oxford – alguns anos após a publicação, em Londres, da obra programática de Cornelius Petrus Tiele (1830-1902) na área da História das Religiões intitulada Outlines of the History of Religion: to the spread of the universal religions, de 1877, ano em que aquele que se confessava amigo do Professor Müller assumira a primeira cátedra em Ciência da Religião na Universidade de Leiden –, o supracitado livro do indólogo alemão aborda alguns dos princípios epistemológicos que, a seu ver, devem nortear os sequazes da nova proposta de ciência enquanto modo de abordagem do objeto, a saber, as religiões tal como se apresentam no decorrer da história e nos complexos e emaranhados meandros da cultura. Dentre tais princípios, cabe sublinhar a exigência metodológica de uma postura pretensamente neutra ante as reinvindicações de verdade avocadas pelas religiões. À maneira de um historiador da ciência dedicado ao estudo da alquimia, o cientista da religião deveria se curvar à exigência de se elevar a uma atitude mais alta e serena, sem proselitismos nem favoritismos dirigidos a alguma crença ou forma religiosa em particular. Aí nessa obra, Müller também traça as linhas mestras de estruturação metodológica interna da Ciência da Religião enquanto disciplina acadêmica, estabelecendo a um só tempo a distinção e a correlação entre uma face ocupada com a investigação da religião em suas formas históricas de expressão e uma vertente sistemática voltada à explicação das condições de possibilidade da religião na pluralidade de suas manifestações. A complementaridade entre esses dois polos do estudo científico das religiões – distintos, mas intimamente relacionados entre si – encontrarão, enfim, a sua definitiva sistematização na tese doutoral (Habilitationsschrift) de Joachim Wach, intitulada Ciência da Religião (Religionswissenschaft), defendida na Universidade de Leipzig em 1922 e publicada em 1924.


Notas

  • 1
    É comum encontrarmos a referência ao ano de 1873 como a data original de publicação desta obra. Mas cumpre sublinhar que o livro Introdução à Ciência da Religião (Introduction to the Science of Religion), de Max Müller, teve sua publicação indevidamente antecipada, de modo que nos Estados Unidos já circulava uma edição não oficial. E o crescente interesse por investigações sobre as religiões realizadas numa perspectiva não mais teológica e que, portanto, escapasse ao crivo tutelar da Igreja cristã, foi responsável pela apressada tradução da obra nas línguas francesa, italiana e alemã.