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Ciências da religião: o que é isso, afinal?

Ciências da religião: o que é isso, afinal?
24 de novembro de 2020 Flávio Senra

Mat Reding

Muitos são os estudos sobre o que se convencionou chamar religião ao longo dos séculos. Os mais antigos estudos estão associados às disciplinas teologia e filosofia. Em diversas outras áreas do conhecimento também encontramos disciplinas que estudam religiões. As mais conhecidas são, certamente, a História da Religião, a Sociologia da Religião, a Antropologia da Religião e a Psicologia da Religião. Também poderíamos acrescentar a Geografia da Religião, entre outras mais recentes. Além disso, há várias correlações entre temas diversos e a religião, tais como arte, literatura, política, gênero, etc. Mas, afinal, o que é a disciplina que no Brasil é majoritariamente conhecida como Ciências da Religião?

Não é possível uma aproximação a essa questão sem nos referirmos ao objeto-sujeito desses vários estudos acima descritos. O que compreender por religião? Como considerar tal objeto? Certamente, estamos muito longe de chegarmos a uma definição cabal sobre o que venha a ser religião. Do sentido etimológico do termo às várias concepções advindas das pesquisas acerca do fato religioso, bastaria para nosso interesse o reconhecimento de que se trata de uma realidade complexa. Sendo uma produção cultural, o fato religioso não se esgota na análise obtida sob um único viés. Como todas as produções humanas, o fato religioso exige múltiplos olhares aproximativos.

Com esse princípio em tela, fica evidente que nenhuma área de conhecimento dará conta, sozinha, do estudo da religião. Ademais, pelos compromissos próprios de cada área com o seu tema central (sociologia, antropologia, psicologia, etc.), o estudo da religião acaba por ser abordado como um reforço a teorias alheias ao próprio fato religioso. Seria a religião redutível ao sociológico, ao político ou ao psicológico? Parece-nos, como cientistas da religião, algo parcial e incompleto para os objetivos a que nos propomos. Não obstante, todas essas reflexões são extremamente relevantes e necessárias para os trabalhos que desempenham cientistas da religião.

Para superar tal redução, entendemos por Ciências da Religião a disciplina que desenvolve, articula e integra, segundo o método interdisciplinar, as abordagens empírico-sistemáticas sobre o fato religioso. O ponto de partida dessa disciplina, que como tal há de se compreender estritamente no âmbito acadêmico-científico, considera que o estudo do fato religioso demanda um método próprio e adequado ao seu objeto-sujeito, capaz de considerar a totalidade do fenômeno em seus aspectos constitutivos e em sua interrelação com outros saberes e realidades. Portanto, interessa a cientistas da religião os fenômenos empiricamente verificáveis.

Em se tratando de uma disciplina, reconhecemos o largo esforço de um século e meio de investigações e trabalhos acadêmicos que promoveram a consolidação do método da disciplina Ciências da Religião. Ainda que a nomenclatura seja diversa desde a sua origem, não apenas no Brasil, mas também em nível internacional, podemos reconhecer, desde a proposta da Religionswissenschaft, proposta por Friedrich Max Müller, um norte a guiar o trabalho de cientistas da religião. Os princípios teórico-metodológicos do método de trabalho das Ciências da Religião, considerados desde os primeiros trabalhos, apontam, na síntese de Joachim Wach, para uma disciplina que desenvolve seus estudos segundo uma abordagem empírica e uma abordagem sistemática. Antes de avançar nesse aspecto, cabe reforçar que o objetivo dessa disciplina é a descrição e a teorização de fatos religiosos concretos: textos, imagens, sistemas de atos, doutrinas, regimes de conhecimento, projetos axiológicos coletivos, comunidades, pessoas, experiências passíveis de observação.

Como destacamos acima, a disciplina Ciências da Religião é, por um lado, uma disciplina de abordagem empírica. Sua perspectiva não condiz com a especulação sobre o valor de uma dada experiência, a validade de uma proposição de fé professada, a adequação interna ou externa dos projetos axiológicos e dos regimes de conhecimento de grupos ou indivíduos em relação às suas crenças. Nesse sentido, a disciplina Ciências da Religião não desenvolve uma consideração normativa sobre o seu objeto-sujeito. Cientistas da religião se interessam pelas práticas vividas, pelos objetos, pelos cultos, pelo processo que faz uma dada experiência ser assumida como norteadora da globalidade dos sentidos individuais e coletivos.

Contudo, por outro lado, esse caráter empírico-descritivo da nossa disciplina não é suficiente para o atendimento das exigências de compreensão do nosso objeto-sujeito. Cientistas da religião necessitam enfrentar a tarefa da teorização própria do fazer científico, uma busca pelo geral. Assim, descrições de fenômenos particulares, elaborados a partir da abordagem empírico-descritiva, analisados a partir de si mesmos ou em perspectiva comparada, são tratados por cientistas da religião de maneira transversal, problematizando a descrição do particular e apontando possíveis relações ou aproximações em vista de uma compreensão de totalidade do fenômeno investigado. De tal modo, a disciplina colabora com seu método próprio para a compreensão dos fatos religiosos.

Importa destacar que as técnicas de pesquisa empírico-descritiva e de pesquisa sistemática dos fatos religiosos são compartilhadas da grande tradição de estudos teórico-metodológicos das ciências humanas e sociais aplicados aos fatos religiosos.

Considerando que a disciplina já conta com 150 anos, desde as já mencionadas conferências de Max Müller, cuja tradução para o português, feita por Brasil Fernandes de Barros, está disponível pela Editora Senso; considerando o histórico de consolidação da disciplina desde a instalação de várias cátedras e centros de estudos pelo mundo (no Brasil já levamos 50 anos desde que, na Universidade Federal de Juiz de Fora/MG, se estabeleceu o primeiro Departamento e curso da disciplina); já deveríamos talvez ter superado a fase de estranhamento quanto ao perfil e legado dessa disciplina no meio acadêmico e, particularmente, no meio universitário. Outras disciplinas com o mesmo tempo de consolidação ou apenas um pouco mais do que a nossa disciplina já estão bem melhor consolidadas e têm as suas bases muito mais interiorizadas pelos membros de suas comunidades. Inclusive, algumas disciplinas identificadas com o mesmo … da religião, gozam de compreensão melhor definida e interiorizada pela comunidade acadêmica. Não é por falta de delimitação teórico-metodológica construída ao longo da tradição da disciplina que notamos certa fragilização na autocompreensão que dela se tem no âmbito da comunidade acadêmica dedicada às ciências da religião no país.

Em seu histórico nacional, notamos que a apropriação do nome da disciplina como Ciências da Religião (incluída aí a questão da particularidade do “s” introduzido no termo Ciência em nosso país) parece não ter sido acompanhada da apropriação de sua tradição e delimitação disciplinar. Pesquisadores e pesquisadoras de nossa área no Brasil têm debatido esse aspecto e oferecido material relevante para o debate. Parte desse esforço pode ser consultado na obra Epistemologia das Ciências da Religião, publicada pela Editora CRV. Na PUC Minas, no Grupo de Pesquisa Religião e Cultura, do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, o Prof. Fabiano Campos e eu, bem como os estudantes Maurílio Ribeiro, Tatiane Almeida, Amanda Alves e Leandro Castro, temos procurado compreender esse processo. Questionamos o status interdisciplinar que não parte de uma definição da disciplinaridade das Ciências da Religião. Como destaca Tatiane Almeida na obra acima destacada, não existe interdisciplinaridade fora da disciplinaridade. O que isso significa para as Ciências da Religião? Nos parece que não é possível avançar como disciplina sem considerarmos os princípios básicos, as abordagens reconhecidas e o legado construído pela tradição de debates teórico-metodológicos que lhe são próprios.

Curiosamente, nossa disciplina se vê muitas vezes confundida com a Teologia e não poucas vezes com a Filosofia da Religião. Não há futuro para um fazer acadêmico metodologicamente inconsistente e, em alguns casos, religiosamente militante e interessado falseado de interesse científico. Nada tem de interdisciplinar a simples juntada de saberes sobre religião, meras considerações ou aproximações teórico-metodologicamente desarticuladas. Não é assertivo nem contribui para a sua consolidação banalizar a disciplina como um mero agrupamento desarticulado de saberes sobre religião.

Perguntar-se pelo que seja a disciplina Ciências da Religião nos parece extemporâneo, embora seja necessário. Já deveríamos ter isso muito bem compreendido. Porém, tal necessidade se dá pelo fato de nosso trabalho precisar ainda ser melhor discutido e nosso fazer acadêmico não ser falseado por outras abordagens e interesses propriamente religiosos.

Por fim, não poderia deixar de considerar o compromisso da nossa disciplina que, além de ser ciência básica é também ciência aplicada. A contribuição das pesquisas, dos processos de teorização para o aprofundamento da compreensão dos fatos religiosos não devem perder de vista a contribuição dessa ciência para a superação de inúmeros desafios sociais relativos a questões sociais, políticas e econômicas; questões relativas ao diálogo inter-religioso e intercultural; cultivo de uma cultura de respeito à diversidade religiosa; diversidade étnico-racial e de gênero; educação e religião.

Texto publicado originalmente como editorial na revista Interações, v. 15, n. 2, 2020.

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