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Ciências da religião e suas contribuições filosóficas para tempos de pandemia

Ciências da religião e suas contribuições filosóficas para tempos de pandemia

Isolamento social obriga práticas religiosas dentro de casa (Foto: Douglas Caputo)

A área da Ciências da Religião no Brasil ainda está em construção. No entanto, é inegável a importância de suas funções desempenhadas para a sociedade, em diversos âmbitos. Isso se deve ao fato de que o (a) cientista da religião investiga o fenômeno religioso em suas múltiplas aparições na sociedade. Isto é, as mais diversas manifestações do sagrado, são manuseadas pelos pesquisadores de forma científica, o que possibilita compreender melhor as facetas antropológicas que compõem as espiritualidades – religiosas ou não.

Tendo em vista que a mesma não possui um único método de abordagem, esse campo de estudo assume um caráter multidisciplinar que o destaca e se difere das demais áreas de conhecimento. As Ciências da Religião percorrem caminhos nas áreas da saúde como psicologia e medicina, mas também está presente na literatura, história, geografia e antropologia, sociologia e filosofia.

Essa interdisciplinaridade contribui para que a sua leitura de mundo seja útil, ao passo que seu olhar está treinado para a percepção de diversos pontos em que o fenômeno religioso permeia: educação, cultura, economia, política, arte e etc.. Exatamente por isso, o (a) cientista da religião é um indivíduo qualificado, que tem muito a contribuir nesse momento peculiar em que o mundo vive.

Dentre as perspectivas possíveis a serem adotadas na área, destaca-se a filosofia, tendo em vista que a mesma pode oferecer um ponto de vista bastante enriquecedor para os tempos de pandemia.

O primeiro motivo pelo qual a filosofia se faz uma alternativa viável, é o fato dela ser por natureza igualitária. A filosofia preocupa-se exclusivamente com a racionalidade por trás da reflexão, da análise e do discurso, não necessita (ou não deveria necessitar) de dogmas inquestionáveis ou pontos de vista radicais que podem excluir, discriminar, segregar ou produzir intolerâncias. Por isso ela é tão democrática: qualquer ser humano, independente de seu credo ou não credo religioso pode desfrutá-la.

O segundo motivo, é ilustrado segundo o filósofo grego Sócrates, que afirmara, há cerca de 2400 anos atrás, que a verdadeira filosofia deve preparar-nos para a morte. E isso em um primeiro momento pode ser pensado como uma utilidade vaga ou mesmo abstrata, porque não se está normalmente preparado, ou esperando a morte. Geralmente não se acorda pela manhã e ao sair de casa se depara com pensamentos como “será que eu vou morrer? ” ou “será que eu vou perder alguém? ”.

Mas agora, diante da crise sanitária, a máxima socrática se encontra extremamente útil, pois hoje convive-se com a morte diariamente, na televisão depara-se no jornal com o número de mortes, ao sair de casa a preocupação constante é a de contrair a doença e contaminar familiares, por exemplo. É possível dizer que nunca esteve tão presente no século 21 a noção generalizada de que a qualquer momento, as pessoas podem morrer, independentemente de sua nação, credo, distinção, classe, e etc.

Diante disso, como a filosofia pode nos ajudar a estar preparado, e estar apto a entender de forma racional esse fato? Existem alguns ensinamentos a serem tratados a seguir, não são a única forma possível de pensar sobre o assunto, mas certamente fornecem bases para compreender esse momento de dar mais valor à vida e estar preparado pela morte.

Uma escola filosófica do período romano chamada Estoicismo, visava a sabedoria através da prática, e não somente da atividade intelectual. A filosofia para eles era um modo de vida, eles buscavam aplicar a filosofia em seu cotidiano. A principal função da filosofia para esse grupo de pensadores, é o que chamamos de “terapêutica das paixões 1O termo “paixões” oriunda de um termo grego “pathos”, que para eles significa tudo aquilo que traz desequilíbrio em nossa alma. Todos os impulsos irracionais, desmedidos em nosso interior são chamados de paixões, o significado mais preciso do termo seria impulso cego que arrasta e movimenta os seres. Exemplos: estresse, ansiedade, depressão, medo da morte e entre outros, que acabam nos aprisionando, nos deixando tristes, angustiados e até mesmo desesperados.”. Para conseguir controlar esses impulsos, atingir, então, a tranquilidade da alma (ataraxia), a sabedoria de vida, eles praticavam o que o filósofo francês do século 20, Pierre Hadot chama de “exercícios espirituais”.

Para os estóicos, o sofrimento humano advém de algumas atitudes e pensamentos equivocados que se adquire ao longo da vida. O primeiro deles é quando o indivíduo não se sabe distinguir o que está em seu controle e o que não está em seu controle. Epiteto, um filósofo adepto dessa escola, dizia que tudo que está sob o domínio das pessoas são suas ações, falas, pensamentos e atitudes. E tudo que não está em seu domínio são as ações externas, as falas alheias, os pensamentos e atitudes de outrem. O indivíduo deve se preocupar somente com o que está sob seu controle, e o que não está não deve ser motivo de sofrimento, pelo simples fato de que não está em seu domínio modificar tais coisas, então de nada adiantaria o incômodo.

O segundo pensamento que pode gerar sofrimento é o de inconscientemente agregar juízo de valor aos acontecimentos na vida dos seres humanos, porque para os estóicos, tudo é uma questão de opinião. Para esses filósofos os acontecimentos em si não são bons nem ruins, o que os torna bons ou maus são as opiniões emitidas sobre eles.

De forma resumida, eles propõem que ao invés colocar emoções humanas sobre as coisas que acontecem, deve-se encarar que em si, esses acontecimentos não são bons nem ruins, são na verdade naturais 2Natureza para o Estoicismo significa uma ordem cósmica racional que rege o universo, e os seres humanos são uma mínima fração desse todo. Por isso, todos os fatos são naturais e de certa forma “neutros”, como quaisquer outros.. Por isso, o bom e ruim são apenas opiniões, juízos de valor, são coisas que agregamos aos fatos que ocorrem com a gente.

E por que isso tem a ver com perceber o que está no domínio do indivíduo e o que não está? Porque a partir do momento em que se sabe que tudo é a opinião que se coloca, e que se tem o domínio sobre suas emoções e pensamentos, algo que em um primeiro momento foi visto como negativo, poderá se tornar indiferente ou mesmo positivo. Ou seja, alguma coisa que até então trouxe ou trará grande sofrimento, é passível de ser modificado porque isso está no controle do sujeito.

Quando acontece algo durante a vida de um ser humano que o mesmo se depara com uma surpresa, uma contingência ou vicissitude, os estóicos dizem que é preciso estar preparado para recebê-las. A função da filosofia é justamente ajudar diante das contingências desagradáveis que fazem parte da vida de todos os indivíduos. O Estoicismo recomenda adquirir uma postura de serenidade e equilíbrio diante das mesmas, tendo em vista que isso sob domínio do indivíduo.

A terceira e última, mas não menos importante, é a meditação que os estóicos propõem para aliviar o sofrimento e o medo da morte. A máxima socrática dita anteriormente foi algo que os estóicos se apropriaram muito sabiamente. Sêneca, talvez o mais conhecido pensador dessa escola, dizia que em um primeiro momento, pode parecer inútil aprender sobre algo que só será usado uma vez. Mas que, na verdade, sempre temos que nos preparar para aquilo que não conhecemos.

O Estoicismo utilizado nessa elaboração pode ser equiparado a um exercício da liberdade.  Essa liberdade consiste no fato de que o indivíduo passa a ter consciência de que a morte faz parte da ordem natural do universo, ordem essa possuidora de harmonia e equilíbrio. A “terapia” está na transição de uma visão particular, limitada, como emoções e sensações humanas, que causam sofrimento e infelicidade a priori, para uma visão natural, universal, inclinada à percepção da existência com o sentido cósmico da vida.

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É possível afirmar que essa perspectiva filosófica está diretamente relacionada ao exercício de viver o momento presente. A meditação sobre a morte estóica é um exercício de viver um dia de cada vez, consciente de que se faz parte de um universo infinitamente maior. A meditação sobre a morte se inicia no primeiro exercício de perceber o que está em nosso controle e o que não está, depois passa para o crivo de que tudo é opinião, e por fim chega na consciência plena de que a mesma é um fato inevitável, e o que resta então é viver, dar sentido para a vida, e estar intensamente presente no agora.

Diante do exposto, os filósofos estoicos ensinam, através de suas meditações e exercícios espirituais, a viver de forma mais serena perante as vicissitudes da vida, a partir da capacidade de distanciar daquilo que não está sob controle. Porém, a partir disso pode-se indagar: Se não se deve preocupar com o que não está no domínio, a alternativa é calar-se diante de um ato de injustiça, de irracionalidade, de intolerância, preconceito, e até mesmo perante posturas antidemocráticas em que se vive agora?

A resposta é não. A partir das coisas desagradáveis que ocorrem, está nas mãos dos indivíduos o diálogo com o próximo, de conscientização, ou mesmo o ato de educar, e tentar transformar a realidade a partir das posturas que se pode adquirir.

O filósofo francês Michel Foucault em seu livro “a hermenêutica do sujeito” definia a filosofia do estoicismo como ética do cuidado de si. Cuidar de si mesmo é justamente esse aperfeiçoamento que os estóicos tinham de buscar ser pessoas melhores, e para Foucault, quando é exercido esse cuidado individual, automaticamente, isso se reverbera ao próximo. O cuidado de si é também o cuidado com os outros, pois quando são exercidas boas atitudes, dá-se e exemplo com bons valores, afetando todos os que estão na mesma vivência social. Sendo assim, não trata de ignorar o que não é externo e fora de controle, mas de perceber dentro das coisas que estão inseridas em seus domínios, quais seriam as posturas éticas, corretas, justas, e buscar cumpri-las. A partir disso, pode-se vislumbrar pessoas mais tolerantes, tranquilas, serenas que tiram melhor proveito das coisas que as ocorre ao ver com mais clareza tudo que as cerca.

Diante da perspectiva apresentada, pode-se lidar melhor com os problemas apresentados nestes tempos de pandemia, aprendizado este que não serve apenas aos cientistas da religião ou aos filósofos, mas sim a toda sociedade, uma vez que podem desfrutar dos benefícios de uma postura mais serena, tranquila, ética e empática que a escola do Estoicismo traz em seus ensinamentos de sabedoria de vida.


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Notas

  • 1
    O termo “paixões” oriunda de um termo grego “pathos”, que para eles significa tudo aquilo que traz desequilíbrio em nossa alma. Todos os impulsos irracionais, desmedidos em nosso interior são chamados de paixões, o significado mais preciso do termo seria impulso cego que arrasta e movimenta os seres. Exemplos: estresse, ansiedade, depressão, medo da morte e entre outros, que acabam nos aprisionando, nos deixando tristes, angustiados e até mesmo desesperados.
  • 2
    Natureza para o Estoicismo significa uma ordem cósmica racional que rege o universo, e os seres humanos são uma mínima fração desse todo. Por isso, todos os fatos são naturais e de certa forma “neutros”, como quaisquer outros.