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Ciências da Religião: autonomia e cientificidade

Ciências da Religião: autonomia e cientificidade

Toda disciplina científica está inserida em um contexto histórico, político e acadêmico. Nesse sentido, os pressupostos que garantem sua identidade e autonomia variam de acordo com os fatores externos que com ela interagem. O termo epistemologia traduz diversos movimentos em uma comunidade de pesquisadores/as: as reflexões sobre o que é e como se pode conhecer; a história de uma disciplina; sua especificidade; os métodos e os trâmites políticos acadêmicos, entre outros. No caso das Ciências da Religião (usamos aqui a forma como a disciplina é majoritariamente conhecida em nosso país), os debates sobre sua identidade teórica e metodológica tiveram início na Alemanha, com Max Müller, na segunda metade do século XIX. Posteriormente, o debate foi retomado na Holanda por Cornelis Petrus Tiele e por Chantepie de la Saussaye. Importante ressaltar a contribuição de Joachim Wach nesse processo fundante. Os quatro autores mencionados podem ser considerados os fundadores e sistematizadores das Ciências da Religião.

O marco inicial das Ciências da Religião no Brasil ocorre no final da década de 60, na Universidade Federal de Juiz de Fora – MG. A disciplina, ao que parece, tem se consolidado no país com aspectos particulares: uma estreita relação com a Teologia, um corpo docente advindo de outras áreas e uma constituição à margem dos debates epistemológicos firmados na Europa no século XIX. Mais uma vez, enfatizando o caráter histórico das teorias epistemológicas, a disciplina desenvolve sua autonomia se relacionando com o contexto político, religioso e acadêmico do país.

Ao nos referirmos à autonomia e à cientificidade das Ciências da Religião, se faz necessário uma distinção de teor metodológico e histórico: por um lado, a configuração da disciplina forjada no século XIX e início do XX e, por outro, a identidade própria desse campo do saber no solo brasileiro. Nesse artigo serão apresentados os pressupostos básicos que garantem a autonomia e cientificidade das Ciências da Religião, de acordo com a abordagem de seus autores clássicos. Desse modo, discorreremos sobre quatro aspectos: o objetivo e objeto da disciplina; a abordagem empírica; a abordagem sistemática e a abertura ao diálogo com outras disciplinas.

Primeiramente, tratemos do objetivo e do objeto das Ciências da Religião. É sabido que diversas áreas do conhecimento se atêm ao estudo dos fatos religiosos. O que justifica a articulação de uma nova disciplina dedicada a essa temática? O que confere a justificativa de criação de uma nova área é sua especificidade tanto em suas metas quanto no trato de seu objeto de interesse. As Ciências da Religião, desde o século XIX, se dedicam a investigar todas as religiões, em suas manifestações específicas, históricas e plurais. Para isso, se articulam a partir de duas abordagens: a empírica e a sistemática. A partir do interesse em investigar e produzir teorias sobre todos os dados religiosos, sem exclusões, os/as cientistas da religião são convocados a se debruçar sobre a diversidade das produções religiosas dos seres humanos.

Ainda sobre o objeto da disciplina, podemos nos perguntar: É possível ter acesso aos dados religiosos? As operações internas dos sujeitos são acessíveis aos pesquisadores e às pesquisadoras? De acordo com os autores clássicos das Ciências da Religião, os dados religiosos se dividem em duas naturezas: uma história interna, que permanece no nível da relação entre sujeito e sua realidade religiosa, e a outro aspecto que diz respeito à exteriorização dessas relações. Nesse sentido, as operações subjetivas do ser humano com o que considera seu transcendente resultariam em manifestações sensíveis como, por exemplo, danças, textos, arte, depoimentos, ritos. A esses dados, cientistas da religião são capazes de ter acesso e produzir conhecimento.

As manifestações dos sentimentos religiosos que ocorrem na subjetividade das pessoas, se apresentam como o objeto-sujeito das Ciências da Religião. Desse modo, de que forma podemos abordá-los? Qual a importância do contato empírico para a produção de conhecimento pela ótica das Ciências da Religião? Como foi dito acima, a abordagem empírica – aspecto consensual nas reflexões dos autores clássicos da disciplina – desempenha a função da coleta de dados para análise e interpretação. Porém, colher dados não configura especificidade a uma área. O que faz da coleta de dados empíricos, um constitutivo das Ciências da Religião é a preocupação com a produção de um conhecimento que se orienta pelos movimentos religiosos concretos produzidos por mulheres, homens e crianças. Nesse sentido, assumir a abordagem empírica, no caso das Ciências da Religião, é se ater às particularidades e dinamicidade das produções históricas e culturais do ser humano. É a abordagem empírica que garante à humanidade, a particularidade e transitoriedade de nosso objeto-sujeito.

A disciplina se configura como empírica e deve agir como tal, porém, não se limita à descrição e coleta de dados. Desse modo, a abordagem sistemática se faz necessária. Como são elaboradas as teorias sobre os dados investigados? De que forma a abordagem sistemática se integra à abordagem empírica? Em termos gerais, o ramo empírico das Ciências da Religião colhe e trata os dados religiosos concretos e a particulares, já o ramo sistemático tem a função de classificar e comparar – em termos metodológicos e teóricos – o material disposto pela abordagem empírica. É a partir da abordagem sistemática que cientistas da religião criam as teorias, comparando e interpretando os dados dispostos na esteira das manifestações sensíveis das religiões. Em termos metodológicos, a produção de conhecimento das Ciências da Religião perpassa pelos seguintes procedimentos: 1) Aproximação: as hipóteses aproximam o/a pesquisador/a aos dados religiosos; 2) Coleta: o contato empírico confronta as ideias iniciais; 3) Classificação: categorias são identificadas a fim de facilitar a percepção dos dados; 4) Interpretação: as teorias são produzidas a partir do diálogo com outras disciplinas.

Compreendidas as abordagens, se faz necessário apresentar a constituinte dialógica das Ciências da Religião. Qual sentido de se abrir ao diálogo com outras disciplinas? A interação entre Ciências da Religião e outras áreas anula a autonomia da disciplina? O objetivo das Ciências da Religião em assumirem-se dialógicas, acentua a preocupação da disciplina em propor um discurso articulado sobre os fenômenos religiosos do ser humano. Por ser um estudo que se orienta pelas perspectivas epistemológicas das ciências humanas, as particularidades do objeto-sujeito devem orientar seu debate teórico e metodológico. O diálogo entre disciplinas assume que o ser humano, em sua individualidade e complexidade, requer um discurso aberto que não reduza suas possibilidades. Em termos atuais, a interdisciplinaridade assegura que nenhum discurso unilateral poderá abarcar a complexidade do ser humano. E, por esse motivo, só uma ciência empírica, dialógica e aberta poderá assumir e produzir um conhecimento compatível com as múltiplas manifestações religiosas produzidas pelo ser humano no decorrer da história.

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Por fim, compreendido os pressupostos básicos das Ciências da Religião, se faz necessário apresentar ainda alguns questionamentos sobre a identidade, sobrevivência e manutenção da disciplina no Brasil: Quais são as diretrizes da reflexão epistemológica das Ciências da Religião no Brasil? Qual lugar da tradição acadêmica europeia das Ciências da Religião para os estudos desenvolvidos no Brasil? Haveríamos de assumir a história da disciplina no Brasil e a partir dela consolidar um estatuto epistemológico próprio e adequado ao campo religioso brasileiro? A diversidade religiosa brasileira está bem representada nos cursos e programas pós-graduação em Ciências da Religião? Há igualdade de gênero e etinico-racial na discussão teórica e epistemológica da disciplina? As teorias utilizadas nas pesquisas atendem ao estudo do campo religioso brasileiro?

Os questionamentos aqui apresentados nos provocam a assumir o protagonismo na história epistemológica das Ciências da Religião no Brasil. É necessário, com base na tradição consolidada no século XIX e início do século XX, vislumbrar novos caminhos, tendo em vista nossa história, nossos personagens e a singularidade e diversidade do campo religioso brasileiro.


Referências 

MÜLLER, Friedrich Max. Chips from a German Workshop: essays on the Science of Religion. London: Longmans, Green, and Co., 1867. v. 1.
MÜLLER, Friedrich Max. Introduction to the Science of Religion: four lectures delivered at the Royal Institution. With two essays on false analogies, and the philosophy of mytology. London: Longmans, Green, and Co., 1873.
SAUSSAYE, Chantepie de la. História das religiões. 2. ed. Lisboa: Editorial Inquérito, 1940.
TIELE, Cornelis Petrus. Concepção, objetivo e método na Ciência da Religião. Rever, São Paulo, v. 18, n. 3, p. 217-228, 2018.
TIELE, Cornelis Petrus. Elements of the Science of Religion. Part I: Morphological. Edinburgh; London: William Blackwood and sons, 1897. v. 1.
WACH, Joachim Ernst Adolphe Felix. Os ramos da Ciência da Religião. Rever, São Paulo, v. 18, n. 2, p. 233-253, maio/ago. 2018.
WACH, Joachim. Introduction to the History of Religions. Edited by Joseph M. Kitagawa and Gregory D. Alles. London: Macmillan Publishers, 1988.