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Liberdade, juventude e mulher: enfrentamento aos ciclos de violência

Liberdade, juventude e mulher: enfrentamento aos ciclos de violência
15 de julho de 2020 Sarah Suzan

Vivendo sob uma história e cultura de dominação e exploração, a América Latina sofreu intensamente os efeitos do domínio do sistema capitalista. Nesse cenário, como sinal de esperança e ressignificação da ação cristã, a Igreja Católica do continente, a partir da organização popular, anuncia no Concílio Vaticano II (1962 a 1965) seguindo das Conferências episcopais de Medellín (1968) e Puebla (1979) a opção preferencial pelos pobres e pelos jovens². Essas opções possibilitaram ampliar o trabalho que vinha sendo desenvolvido com a juventude, para a construção de uma proposta mais orgânica, onde nasce a Pastoral da Juventude (PJ) em meados das décadas de 70 e 80, e também com inspiração organizacional da Ação Católica Especializada (JAC, JEC, JIC, JOC, JUC), nos anos 60. A partir daí, com o auxílio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), dos pequenos grupos de reflexão e das ações proféticas de muitas lideranças, as práticas libertadoras da Pastoral da Juventude são sinais de vida e esperança na sociedade até os dias de hoje.

A PJ possui um compromisso essencial com a Pedagogia do Oprimido, ou seja, compromisso com a formação integral e a defesa daqueles rostos que são mais marginalizados na sociedade: os(as) jovens, comunidade LGBTQI+, povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas, negros(as), trabalhadores(as) e as mulheres. Tal princípio pastoral faz com que reafirmamos a práxis libertadora, na qual miramos o horizonte, mas sempre com os pés no chão. É com essa pedagogia pastoral que a PJ lança, em 2017, a Campanha Nacional de Enfrentamento aos Ciclos de Violência Contra a Mulher, inspirada e comprometida na defesa da vida das companheiras. Tal gesto pastoral mostra-se como sinal de resistência diante dos contextos patriarcais e conservadores que o mundo atual nos impõe nos diversos âmbitos da sociedade seja ele político, artístico, econômico, religioso, cultural e dentre outros.

Uma grande porção social ainda nos molda – ou tenta nos moldar, para nos induzir a viver num sistema de retrocessos, opressões e de aprisionamento. É tempo de nos libertar! “Liberdade és o desejo que nos faz viver”, parafraseando o compositor Zé Martins. Nesse sentido, é preciso romper com o silêncio e escancarar o grito pela vida daqueles e daquelas que mais precisam, e a campanha nacional nos ajuda nesse exercício libertador.

Campanha Nacional de Enfrentamento aos Ciclos de Violência Contra a Mulher

Participação da Pastoral da Juventude em audiência pública no Senado Federal, debatendo sobre o enfretamento à violência contra a mulher.

Para a Pastoral da Juventude, falar da vida das mulheres é falar de sagrado! A teologia bíblica feminina, as lutas de classe por meio dos movimentos sociais e toda bagagem acumulada da PJ há quase 50 anos, foi solo fértil para a protagonização desta campanha. Para toda a PJ e principalmente para as jovens mulheres que nela participam, tal campanha proporciona a desnaturalização do machismo e do patriarcado estrutural que sustentam a cultura da violência, para assim reconstruir as relações justas e equilibradas, mirando com urgência o horizonte da paridade de gênero.

Além de despertar internamente, na PJ e na Igreja, a sensibilidade do tema, a pastoral visa também a entender e a pautar com ousadia e coragem essa complexidade das violências às mulheres, visto a trágica realidade que vivemos. O cenário nacional que nos é apresentado ainda é de muito sofrimento e barbáries. Em pesquisas, segundo o último “Mapa da Violência: Homicídios de Mulheres” (2015), o Brasil é, infelizmente, o 5º país mais perigoso do mundo para as mulheres viverem. E, falando mais especificamente sobre juventude, aponta-se que a maior incidência de feminicídios concentra-se sobre as mulheres mais jovens, de 18 a 30 anos, e, dentre elas, as negras aparecem como as maiores vítimas. Os noticiários tornaram-se palco de divulgação das crueldades contra as mulheres: espancamentos, estupros, salário reduzido, furtos, desaparecimentos e até homicídios são algumas das manchetes que expõem cada vez mais a comunidade feminina. Porém os noticiários precisam ser instrumentos de denúncia, alertando a todos sobre a necessidade e urgência da conversão de tal cenário, pois a violência contra as mulheres não pode ser reduzida apenas a números, dados ou manchetes, são vidas que precisam ser cuidadas e protegidas.

Precisamos estar atentos às violências que nos cercam, pois chegam a ser muitas vezes minimalistas ou até tidas como “normais” via senso comum. Mas não é! Violência não é brinquedo nem piada. É preciso, para além de reconhecer, enfrentarmos as violências e a campanha nacional nos ajuda nessa perspectiva, abordando as diversas dimensões da violência contra a mulher: simbólica, psicológica, financeira, doméstica, sexual, midiática, física e obstétrica, como também proporcionando uma ação tanto formativa sobre as conjunturas quanto de empoderamento feminino.

Todas as conquistas femininas, até aqui, foram por meio de muita luta e organização, muitas vezes das próprias mulheres: o direito ao voto, Lei Maria da Penha, lei do feminicídio, dentre outras. Mas ainda há muito que se caminhar e conquistar, visto que muitas mulheres necessitam de ajuda e acolhida. Por isso, a criação de redes de apoio, central de acolhimento, rodas de conversa, dentre outras atividades, podem ser ações que promovam libertação na vida de muitos e muitas. Para além disso, é preciso também pensar num novo conceito de masculinidade, ajudando e colaborando com os homens numa desconstrução de saberes sociais impostos pelo sistema capital, reinventando a essência de ser homem para assim gerar uma cultura do bem-viver.

Contudo, percebemos que há um ciclo vicioso social na reprodução daquilo que oprime a vida dos(as) pequenos(as) e oprimidos(as). O Estado não garante as devidas medidas de proteção e sustentação à vida dos(as) que sofrem. Com tal condição, é preciso unir mão com mão e reafirmar a sororidade, a empatia e a fraternidade entre as mulheres e entre todos(as) aqueles(as) que lutam constantemente pela defesa da vida, dos direitos e dos sonhos. Por isso, o impulso para construir a Civilização do Amor envolve a beleza, o profetismo e as diversas criatividades e expressões juvenis. Tudo isso brota da presença do divino na juventude e nas mulheres, pois, sim, Deus também é mulher!


Referências
WALSELFISZ, Julio Jacobo. Mapa da Violência 2015. Homicídio de mulheres no Brasil. FLACSO Brasil: Brasília, 2015.
Pesquisa Instituto Avon/Data Popular, Violência contra a mulher: o jovem está ligado?, São Paulo, 2014
Civilização do amor-Projeto e Missão, 2013. Subsídio da Campanha Nacional da Pastoral da Juventude, 2019.

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