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A mistagogia e o sopro revolucionário que tudo liberta

A mistagogia e o sopro revolucionário que tudo liberta
15 de julho de 2020 Rosemary Fernandes da Costa

Estamos em tempos nos quais a pergunta sobre a presença e a implicação de Deus na história do ser humano e do mundo retorna cotidianamente. Há quem desista das afirmações sobre Deus ou deuses e direcione sua narrativa de sentido para a história, para a natureza, para a dimensão imanente da vida. Há quem escolha o caminho agnóstico, como opção para tantas dúvidas e opções apresentadas pelo pensamento contemporâneo. Há quem escolha um abraço macroecumênico, observando e acolhendo as muitas possibilidades de expressões de diálogo com o Sagrado presentes nas culturas. Há ainda quem encontre em um caminho religioso seu jeito de dar sentido à vida em sua dimensão mistérica.

Mas há também algo em comum em todas essas possibilidades. Nesses tempos, chamados modernos, o ser humano privilegia a experiência pessoal e, a partir dela, busca encontrar uma compreensão sobre a vida, seus mistérios, suas possibilidades e desafios a cada momento histórico.

Como professora de Ensino Religioso, como teóloga e assessora de processos educacionais, pastorais e comunitários, observei como uma determinada questão fundamental ecoava em cada ambiente e as muitas buscas para dialogar com cada realidade: como podemos contribuir na construção de pessoas fraternas, solidárias, justas, conforme os valores evangélicos?  Muitas vezes, vi as equipes se debruçando em formações de fins de semana ou meses, em estudos e seminários, em novos planejamentos, em novas formas de integrar pedagogia e pastoral, em novas formas de celebrar a sacralidade da vida. No entanto, algo me saltava os olhos e me interpelava nesses processos: a sensação de que não chegavam ao eixo referencial, ao fundamento de suas questões.

Foi então que me encontrei com inspiração nova e antiga, uma fonte, um princípio que ativa e dinamiza a vida: a mistagogia. A mistagogia é uma forma de compreender e de dialogar com a dimensão do Mistério. Chegou a mim como um sopro do Espírito me dizendo – é por aí! O diálogo entre o ser humano e o sagrado é dinâmico, é constante, é processual. Não se dá de uma vez por todas, é sempre um caminho de iniciação. E sabe por quê? Porque ele principia e se movimenta no próprio Mistério, e esse Mistério está antes, durante e depois. Esse Mistério orienta e conduz, mas é também livre e amoroso.

Caminhemos um pouco mais nessa compreensão que nos alcança como água que brota da fonte, das fontes primitivas, das fontes que bebem na experiência dos discípulos de Jesus. Essa fonte já percorreu muitos caminhos na história e, por isso mesmo, não nos deteremos nos afluentes, mas voltaremos a ela, para, com as mãos em concha, bebermos nesta água pura, que brota das primeiras comunidades cristãs, e que hoje sabemos que se faz presente nas mais diversas experiências religiosas das culturas espalhadas pelo mundo.

É uma palavra que já convida a olhar mais de perto: mistagogia. Uma combinação de dois termos: mystes + agein : mistério + conduzir. São dois vocábulos gregos que, ao se unirem, carregam um sentido profundo: o enraizamento no conceito de mistério e a ação mediadora, de aproximação deste mesmo mistério. Então, poderíamos dizer que a mistagogia é uma experiência dialógica entre o Mistério, aquele que acolhe o Mistério e aquele que conduz a mediação para esse encontro.

Pressupõe que o Mistério principia a comunicação, ele se revela, transborda de si mesmo, se entrega. O ser humano acolhe o Mistério que se revela e, para isso, precisa estar disponível, na escuta, na abertura para essa percepção e orientação. O terceiro elemento é o da mediação: aquele que conduz. É como alguém que faz a ponte, que liga, ou melhor, que re-liga, pois acreditamos que estamos sempre ligados ao sagrado, mas tantas vezes nos distraímos, nos dispersamos, ou não estamos com as condições e predisposições para essa comunicação.

Não se trata de uma metodologia, mas do próprio fundamento da ação mediadora. Aquele que conduz o processo se dá conta de que ele é mediador, e não iniciador, e que o Mistério não apenas principia o convite, mas ele também está presente nas pessoas, na história, nos acontecimentos, nas expressões culturais e, assim, toda a vida é plena de sinais do sagrado. Ele está no início, no durante, na meta. É passado, presente e futuro. Seu dinamismo é constante, criador, imprevisível, mas sempre processual e amoroso.

Indicamos nesta reflexão três princípios ativos: o caminho, a experiência e a liberdade. Vejamos brevemente como cada um deles se entrelaça na mistagogia.

O princípio do caminho é central na mistagogia. Ela é processo, itinerário, trajetória, caminho. Afirma que cada pessoa tem o seu ritmo, sua dinâmica de abertura e acolhida do Mistério. Inaugura uma nova realidade na experiência pessoal: a experiência de ser habitado pelo Mistério, de ser orientado internamente pelo Mistério, que é fonte de vida, e que, concomitantemente, não se impõe como definitivo, mas respeita a liberdade e o processo pessoal de acolhimento dessa fonte de amor.

Em tempos modernos, de revisão das subjetividades e de diálogo crítico com as instituições, algumas características não podem ser deixadas de lado, como o primado da experiência, o tema da liberdade, do respeito à identidade, à originalidade e à autonomia. E nesse ponto se entrelaçam mais dois princípios fundamentais: a experiência e a liberdade.

O princípio da experiência é fator determinante na mistagogia. Toda a metodologia fundada nesse dinamismo terá como escopo a experiência, seja preparando-a, favorecendo-a ou potencializando-a. Para exemplificar, ao preparar um encontro, o mediador vai se colocar em atitude de escuta profunda, do Sagrado presente em cada uma das dimensões de seu trabalho – nele mesmo, nas pessoas com suas memórias, histórias, registro, expectativas, no contexto, nas linguagens. Enfim, o mediador se torna ouvinte e intérprete da complexidade na qual ele está imerso, mas também disponível, como re-ligador, como ponte. Dessa forma, ele inicia um processo de seleção de conteúdos, linguagens e sinais, que possam ser condutores do Mistério.

E aqui caminhamos para o terceiro princípio nesse processo, que é a tão desejada, sonhada e fundamental: liberdade. A dinâmica mistagógica nos fala da alteridade radical de um Mistério que se autocomunica na mais plena amorosidade, mas também na mais absoluta liberdade. A teóloga Maria Clara Bingemer, em seu artigo A Sedução do Sagrado, reflete sobre este tema, afirmando que o Mistério que se revela é Outro, é alteridade, que se entrega, mas resiste a toda tentativa de manipulação, em categorias ou imagens definitivas. O Mistério que se revela permanece insondável e nos impulsiona, nos faz desejar prosseguir nesse conhecimento, conduzindo à caminhada cotidiana.

Marcial Maçaneiro, em seu livro Eros e Espiritualidade, se dedica a refletir sobre a espiritualidade como experiência de acolher e ser conduzido pelo Mistério. Nesse processo, ele considera que a pretensão racional dá lugar à acolhida do Mistério na sua simplicidade, imprevisibilidade e desconcertos do cotidiano. A lógica dá lugar à mística, ao processo mistagógico. Estamos diante de uma costura complexa, de um patchwork no qual uma peça não tem sentido sem a outra, em que a dialogia é o único sentido e essa tem, por base, a liberdade radical de cada elemento presente nesta dinâmica.

Deus é livre, o amor é livre, a pessoa é livre. A realidade é constituída por uma rede de relacionamentos dinâmicos. Cada ação é, ao mesmo tempo, movimento de continuidade e também imprevisivelmente responsivo. Imaginemos que revolução é esta. A revolução do amor radical, que não nos abandona sem mais, mas que está aí, presente, impulsionando, orientando, mas sem jamais se impor como definitivo.

Essa acolhida, da mistagogia como caminho, é a grande revolução que movimenta a cada um de nós e a todos nós, pois estamos juntos neste movimento. Já nos sabemos não apenas sujeitos, mas intersujeitos (configurados intersubjetivamente). Já nos sabemos não apenas pessoas, mas conexão profunda com todos os seres. Já nos sabemos presente, mas também ancestralidade e escatologia.

A experiência mistagógica é água pura, renovadora, fontal. Ela emerge da terra, da água, do Espírito que tudo sopra e revoluciona. Ela emerge do âmago do ser livre e, ao mesmo tempo, ela integra, unifica e articula. Karl Rahner, um dos primeiros teólogos contemporâneos a resgatar o tema da Mistagogia como central para a experiência pessoal, sublinha que a mistagogia é “apelo irrompido do mais íntimo âmago da pessoa humana agraciada”.

E, para não deixar de lado a mistagogia que está presente no chão de nosso povo, deixamos aqui os versos do poeta Luiz Carlos da Vila, na composição Por um dia de graça, que encontra dentro da realidade as sementes que irão germinar felicidade. Não se aliena nem para na desesperança. Ao contrário, afirma a vida que nasce das mãos que trabalham em cada palmo de chão. Encontra resistência, mas percebe os sinais já presentes da fidelidade amorosa que orienta o agir humano e suas escolhas fundamentais. Não se sente só, não se sabe só. Caminha em relação com a proximidade sagrada, com a grande família humana e com o universo. Harmoniza os dados do passado com o agir presente e a esperança futura. Não como uma equação lógica, mas como mistério complexo e tecido no plano amoroso de Deus.

 

Um dia, meus olhos ainda hão de ver na luz do olhar do amanhecer sorrir o dia de graça

Poesias, brindando essa manhã feliz, do mal cortado na raiz, do jeito que o mestre sonhava

O não chorar e o não sofrer se alastrando, no céu da vida o amor brilhando,

A paz reinando em santa paz

Em cada palma de mão, cada palmo de chão, semente de felicidade

O fim de toda a opressão, o cantar com emoção, raiou a liberdade

Chegou o áureo tempo de justiça, ao esplendor do preservar a natureza,

Respeito a todos os artistas.

A porta aberta ao irmão, de qualquer canto e qualquer raça

O povo todo em louvação por esse dia de graça!

 


Referências Bibliográficas
BINGEMER, M. C. L. A Sedução do Sagrado. In: CALLIMAN, C. (org.) A Sedução do Sagrado. Petrópolis: Vozes, 1998.
COSTA, R. F. O caminho da mistagogia: uma mística para nossos tempos. In: HORIZONTE – Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião, Místicas Religiosas e Seculares. 10, n. 27, Belo Horizonte: PUC/Minas, 2012.
MAÇANEIRO, M. Eros e Espiritualidade. São Paulo: Paulus, 1997.
RAHNER, K. O desafio de ser cristão. Petrópolis: Vozes, 1978.
VILA, Luiz Carlos. Por um dia de graça. Música Popular Brasileira, Rio de Janeiro, 1980. Foi composta para o Grêmio Recreativo de Arte Negra e Escola de Samba Quilombo, um centro de resistência da cultura popular.

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