Práticas e representações no espiritismo brasileiro

Práticas e representações no espiritismo brasileiro
Cleusa Maria Fuckner 15 de maio de 2020

O Espiritismo como doutrina, surgiu na França, a partir de 1857, quando um intelectual e pensador da educação francesa, Hippolyte Léon Denizard Rivail, adotando o pseudônimo de Allan Kardec[1], publicou sua primeira obra de cunho religioso denominada “O Livro dos Espíritos”. Nos anos seguintes, ele publicou as outras  obras que compõem as cinco obras básicas da Doutrina Espirita[2]. O termo Espiritismo foi criado por Kardec para diferenciar a Doutrina dos Espíritos de outras práticas espiritualistas que sempre existiram na História da humanidade[3].

O Livro dos Espíritos chegou ao Brasil em 1865, sendo lido pela camada populacional erudita da sociedade, visto que aqui chegou em francês, assim como as demais obras básicas; só mais de uma década depois foram traduzidas para o português.

O Rio de Janeiro, no século XIX, além de capital administrativa, era também o principal centro cultural brasileiro que mantinha laços com os países europeus, principalmente com a França.  A cultura francesa era o modelo de inspiração para os membros da alta sociedade, que também se preocupavam em romper laços com as culturas indígena e africana presentes no país.  As informações sobre a doutrina que ainda estava sendo codificada por Kardec, começaram a ser divulgadas entre os intelectuais do Rio de Janeiro, que absorveram, de forma conjunta, seu caráter tanto filosófico e científico, quanto religioso, visto que estes aspectos se relacionavam aos ideais liberais, especialmente à questão da igualdade entre os homens, preservando, todavia, alguns valores tradicionais do cristianismo, em especial a caridade.

Esta atração pela cultura francesa foi um dos fatores decisivos para a leitura das obras de Kardec em francês e posteriormente em português. Com a organização gradativa dos grupos de estudo e depois dos centros espíritas, houve a divulgação da doutrina. Analisando a literatura espírita, percebemos que o conhecimento da Doutrina Espírita trouxe ao país uma visão muito diferente do que aqui era conhecido por religião, visto que o Espiritismo, desde o seu início, se identificava como Filosofia, Ciência e Religião. Mas, tal qual na Europa, despertou aqui uma forte oposição, tanto da área médica quanto, e principalmente, da Igreja Católica.

Até a metade do século XX, o movimento espírita passou por forte oposição no Brasil, tendo, inclusive, sido alvo de uma cruzada da igreja católica contra a doutrina. Documentos eclesiásticos recomendavam que católicos não frequentassem escolas e hospitais espíritas.  Lembrando Costa: “O clero no Brasil identificava “grandes inimigos a serem combatidos nos campos político e religioso. Nos primeiros os comunistas e os socialistas e, no segundo, os protestantes e os espíritas, todos eles frutos do liberalismo” (2001, p. 81).

Após o Concilio Vaticano II, a igreja passou a tolerar o Espiritismo, que foi aos poucos conquistando espaço na sociedade brasileira, sendo aceito e convivendo com as demais religiões. Dados de pesquisa mostram que, atualmente, as pessoas que se identificam como praticantes do Espiritismo estão em maior parte entre as camadas mais escolarizadas da sociedade brasileira.

É comum as pessoas se dizerem espíritas, mas reforçarem que é o espiritismo kardecista, ou de mesa branca, ou seja: ainda existe a dificuldade de aceitação das religiões que são espiritualistas, mas de outra matriz, que não a europeia. É possível compreender esta ação pensando, como Chartier aponta, que “as representações coletivas e simbólicas encontram na existência de representantes, individuais ou coletivas, concretos ou abstratos, as garantias de sua estabilidade e de sua continuidade”. (2006, p. 38).

Assim como na Europa, ocorreu, aqui, uma polêmica sobre o conceito espírita. Seria o Espiritismo uma religião, uma doutrina ou somente uma filosofia com princípios morais?  O Espiritismo é uma doutrina de cunho científico, filosófico e moral. Quanto a este aspecto adota o moral do Cristo, liberto dos dogmatismos seculares, o que lhe fornece um matiz religiosos, razão pela qual é também visto como uma religião.

Em países europeus, como a França, Suécia, Itália, Alemanha e Espanha, bem como nos Estados Unidos, predominou o caráter científico-filosófico do Espiritismo. No Brasil, em razão das questões sociais do século XIX, com a ausência quase total de infraestrutura para saúde e educação, agravada pelo fato de que grande parte da população era formada por escravos libertos que viviam em condições precárias, a beneficência se destaca nas ações dos espiritas, concomitante a forte atuação no processo educativo moral, por intermédio de palestras e estudos o que acabou por  caracterizar o espiritismo como movimento religioso.

Um dos fatores que permitiu a expansão do Espiritismo no Brasil é que ele não se colocava como uma doutrina fechada, mas a partir de princípios centrais para o pensamento religioso: a existência de Deus, a imortalidade da alma e a evolução espiritual através da reencarnação que se colocavam como uma proposta a ser evidenciada, fundamentada no método cientifico e com base na racionalidade. O Espiritismo não é resultado de uma revelação profética, mas de uma sistematização do conhecimento transmitido pelos espíritos, resultante do processo mediúnico e submetido a análise da razão.

A ação espírita no contexto nacional se consolidou por meio das instituições de ensino e da assistência médica com hospitais, incluindo atendimento com homeopatia e   psiquiatria. Uma das características dos espíritas ao longo do século XX, no Brasil, foi a preocupação com a educação e a pesquisa na área de ciências humanas preponderantemente.[4]

Estudando as obras pedagógicas de Rivail, foi possível compreender as especificidades de uma educação de parâmetros espíritas, ainda que ele não foi o criador de uma proposta de educação espírita propriamente dita. Precisamos lembrar que Rivail, ao se afastar da educação formal na França[5] e dar início ao processo que levou à codificação das obras do Espiritismo, amplia a sua própria experiência educativa, e por meio dessas obras desvela uma nova compreensão do conceito de caridade, notadamente a de cunho moral, como processo educativo. A obra básica da doutrina traz os princípios da educação e, mais ainda, aponta, na questão 685 do Evangelho, que a educação ocorre na perspectiva de “formar caracteres”, visto que segundo esta obra “educação é o conjunto dos hábitos adquiridos”.

Atualmente, a prática espírita se concentra em ações como palestras públicas, o passe mediúnico, o uso da água fluidificada, os grupos de estudo e ação na área da saúde, tanto que existem associações de médicos espíritas de caráter nacional, bem como representações em outros segmentos profissionais.  A chamada evangelização espírita, que corresponde a educação moral consiste em desenvolver pessoas com uma visão que busca a transformação interior e o comprometimento de uma educação ampla no sentido de formação de um homem integral com conhecimento, respeito a si, ao outro e à natureza.  A visão espírita tem na sua essência uma proposta de vivenciar o amor pode ajudar a formar pessoas com ideal e força para agir no mundo e para mudá-lo.


Notas
[1] Hipollyte Léon Denizard Rivail era um nome associado à história da educação e do ensino na França. Rivail afirmara segundo depoimento na Revista Espírita, lançada por ele, que adotara o pseudônimo que a ele fora revelado de uma encarnação anterior quando viveu entre os druidas, que não queria utilizar o prestígio do nome Rivail e também que os conhecimentos da Doutrina Espírita não foram elaborados por ele. O seu papel foi organizar e codificar um conhecimento já existente na história humana.
[2] O Livro dos Médiuns (1861),O Evangelho Segundo o Espiritismo(1864), O Céu e o Inferno (1865),A Gênese (1868).
[3] As concepções religiosas das sociedades orientais, como os Vedas, o estudo dos mistérios entre os gregos aceitando a palingenesia (nascer de novo), as interpretações de Sócrates e Platão, os oráculos, as comunicações registradas pela Bíblia, a compreensão da sociedade egípcia de retorno, os fenômenos considerados bruxaria na idade média, por exemplo, as visões de Hildegard Von Bigen, no século XI, posteriormente Giordano Bruno e Joana d’ Arc, entre outros.
[4]  Em várias cidades brasileiras   formaram-se instituições de ensino e pesquisa. Na cidade de Curitiba, na segunda metade do século XX e XXI,   duas faculdades espiritas ofereceram por décadas  cursos nas áreas da saúde e das ciências humanas.
[5] Rivail,  escreveu propostas de Reforma do ensino, bem como obras didáticas. Quando Napoleão III sobrinho de Napoleão Bonaparte assumiu o governo e retornou o controle da educação para a igreja católica Rivail se afastou, visto que esta ação contradizia os princípios históricos da Revolução Francesa.
Referências
COSTA, Flamarion Laba da. Demônios e Anjos – O embate entre espíritas e católicos na República Brasileira até a década de 60 do século XX. 271f Tese. (Doutorado em História). Curitiba: UFPR, 2001.
CHARTIER. A nova história cultural existe? In: Lopes, Antonio Herculano, Velloso, Mônica Pimenta e Pesavento, Sandra Jathay (org). História e linguagens (texto, imagem, oralidades e representações) Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo; Tradução: Salvador Gentille. 58ª ed. Araras: Instituto de Difusão Espírita, 2004.
_____. O Livro dos Espíritos. Tradução de Matheus Rodrigues de Camargo. São Paulo: EME, 2001.
_____. A Gênese. Os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Tradução de Victor Tollendal Pacheco. Apresentação e notas: J. Herculano Pires. 19ª ed. São Paulo: Lake, 1999.
_____. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução: Herculano Pires. 55ª ed. São Paulo: Lake, 2000. 302
_____. O Livro dos Médiuns; Tradução da 2ª ed.francesa: Herculano Pires. São Paulo: Lake, 1998.
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