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O transe, a loucura sagrada e os estados místicos de consciência

O transe, a loucura sagrada e os estados místicos de consciência
15 de maio de 2020 Vladimir Luís de Oliveira

Magias e práticas mágicas possuem um registro indelével na história da humanidade. Razão e espiritualidade, mito e realidade não são conceitos opostos e divergentes ao transitarmos pelo campo do sagrado.

O sagrado seria antes de tudo, uma manifestação encarnada do mito. O transe era o canal pelo qual sacerdotisas e sacerdotes, dos templos antigos, canalizavam as vozes dos deuses. Portanto, na Antiguidade, o transe místico não era considerado doença, mas uma atividade fundamental para organizar o cosmicamente o espírito das cidades, em oposição ao caos e destruição a que estavam constantemente sujeitas, em razão das guerras, saques e pilhagens.

Socrátes, em “Fedro de Platão” descreve brevemente a importância da uma Loucura divina, chamada Maniké, que possuía poderes proféticos e divinos. Seria um estado da consciência transracional que se coloca no mundo mágico dos deuses.

Os oráculos eram lugares sagrados na Antiga Grécia e por meio das sacerdotisas, os deuses se comunicavam com os homens. Por isso, no período Pré-Clássico a consciência sagrada era enfatizada pelos seus poderes mágicos.

José Medeiros Instituto

Na Idade Média, o Estado Místico de Consciência[1] poderia ser visto como heresia ou como santidade. Esta linha sensível entre o pecado e a redenção era determinado pelo poder das lideranças das instituições religiosas. Tribunais Inquisitoriais, não raras vezes, eram a unidade de medida para definir a validade destas manifestações, seja no catolicismo romano ou no protestantismo histórico.

Desde a emergência do pensamento científico no século XVIII e o advento da Psiquiatria no séc. XIX, o transe e Estados Místicos de Consciência passaram a ser classificados como estados patológicos enquanto doença, que precisavam ser veementemente combatidos. As então chamadas possessões eram classificadas no ocidente como histeria, sonambulismo e neurose, registrado nos escritos do médico psiquiatra e sanitarista Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906) no Brasil e pelo psiquiatra haitiano Louis Price-Mars (1876-1969).

A recuperação do conceito da experiência do sagrado e do mito aparece de forma mais organizada com a psicologia profunda em Carl Jung, ao identificar para além do inconsciente individual, a interferência do inconsciente coletivo. Este se materializa na organização da cultura, dos mitos, da religião, da filosofia e da ciência.  Estas imagens primordiais ou arquetípicas que organizam todo o universo simbólico são facilmente identificáveis nas representações religiosas e seus signos, tais como a cruz que aponta em quatro direções, o círculo e a espiral para citar alguns exemplos. Em estados de êxtase ou de sonhos, pessoas afirmam ter contato com estas imagens que podem ser numinosas ou sombrias e que aparecem em pinturas, afrescos e desenhos de mandalas livres. Em outros termos, os símbolos religiosos são a manifestação coletiva de experiências extáticas que passam a ganhar notoriedade e sentido na memória e na história dos povos.

Contudo, a discussão mais radical aparece com os psicólogos transpessoais que defendem a utilização de técnicas respiratórias e substâncias psicoativas como condutores do processo de cura psíquica e realização pessoal.

Estas práticas já eram comuns desde o período neolítico. O uso da cannabis, cogumelos mágicos, rapés, raízes e plantas psicodélicas estiveram presentes em diversas culturas e eram usadas em ritos especiais para transitar a existência do mundo profano ao sagrado.

Neste universo de recuperação da experiência religiosa, antigas e novas tradições se entrecruzam: práticas ayahuasqueiras, neoxamanismos, tantrismos diversos, meditações várias. Religiões tradicionais, que construíram grande parte da representação do sagrado em termos filosóficos e teológicos, parecem gradualmente abrirem espaços a este novo campo de vivências profundas.

A pós-modernidade é um espelho do espírito da diversidade e do sincretismo em diversos níveis. Do outro lado, setores tradicionais das religiões são recalcitrantes ao imperativo da ampliação de vivências do sagrado fora dos limites institucionais.

No fundo, um ser realizado ou opostamente secularizado pelo mundo da vida, parecem se sentir mais livres fora dos templos e Igrejas tradicionais, pois não há limites cósmicos para a transcendência do homo sacer.

Notas

[1] Ainda hoje encontramos referência em livros e artigos como EAC – Estado Alterado de Consciência. Ainda que possam ter sistemáticas e boas explicações, o termo incorre numa descrição etnocêntrica, pois a simples referência de “alterado” designa algo fora da normalidade.

Referências:

GIEBEL, Marion. O oráculo de Delfos. São Paulo: Odysseus, 2013.

BASTIDE, Roger. O sonho, o transe e a loucura. São Paulo: Três Estrelas, 2016.

JUNG, C. G. A vida simbólica. (Vol. 1 e 2). Petrópolis-RJ, 2011.

PASSOS, João Décio; USARSKI, Frank. Compêndio de ciência da religião. São Paulo: Paulinas, Paulus, 2013.

MAUSS, Marcel. A origem dos poderes mágicos nas sociedades australianas. São Paulo: Edusp, 2017.

GROF, Stanislav; GROF, Christina. Respiração Holotrópica. Rio de Janeiro: Capivara, 2011.

VITBSKY, Piers. O xamã. Taschen: Evergreen, 2001.

 

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