Fé Bahá’í: Uma religião moderna

Fé Bahá’í: Uma religião moderna
Emerli Schlögl 15 de maio de 2020

A Fé Bahá’í surgiu em meados do século XIX, na antiga Pérsia, Irã. O Irã é um país do Oriente Médio, seus limites ao Norte são estabelecidos com a Armênia, o Azerbaijão, o Turcomenistão e o Mar Cáspio; ao Leste com o Afeganistão e o Paquistão; ao Oeste com o Iraque e a Turquia; e ao Sul com o Golfo de Omã.e o Golfo Pérsico.

A história inicial do surgimento desta religião teve um homem intitulado Bab (Siyyid’Ali-Muhammad) como anunciador daquele que viria e fundaria a Fé Bahá’í, Mírzá Husayn-‘Alí, conhecido como Bahá’u’lláh.

Estes dois nomes marcam a fundação de duas novas religiões que aos poucos se estabelecem em diferentes localidades: o Movimento Babí e a Fé Bahá’í. As duas religiões estão intimamente entrelaçadas, podemos dizer que o Movimento Babí foi o precursor da Fé Bahá’í.

LASZLO ILYES - Lajes de mármore branco imitam a forma de uma flor de lótus no templo bahá'í em Nova Délhi.

Desde o início, o Movimento Babí e a Fé Bahá’í contaram com a participação de mulheres e homens. Assim, o novo paradigma da Fé Bahá1í estabelecia a igualdade entre os gêneros. Esta ideia não agradou ao sistema vigente, no qual, além de as mulheres não possuírem os mesmos direitos que os homens, deviam guardar silêncio nas reuniões masculinas. O gênero feminino muitas vezes ficava restrito em espaços próprios para tal, enquanto o gênero masculino decidia os rumos do mundo. Esperava-se, pois, que essas mulheres se contentassem em cuidar do lar e dos filhos.

A Fé Bahá’í apresentava propostas libertadoras não somente para as mulheres, como também  para os homens. A vivência da religião Bahá1í estimulava as meninas a estudarem e ocuparem espaços sociais e de transformação ao lado dos homens. Uma discípula de  Báb, segundo Nabil (1983), retirou seu véu em público e falou para um grupo masculino com sua face descoberta. Este foi um alto de grande significado simbólico, que anunciava um projeto de rompimento da submissão e do silêncio que era imposto às mulheres. Os homens, naquele momento, reagiram com grande fúria e indignação.

A Fé Bahá1í se organizou enquanto religião  a partir do momento em que  Bahá’u’lláh se proclamou como aquele que havia sido anunciado pelo Báb, a partir deste dia a data é  festejada em todo o mundo pelos seguidores bahá’ís  A religião se estabeleceu e se organizou sobre  princípios bem definidos, que foram  ganhando visibilidade internacional na medida em que pessoas bahá’ís passam a viajar pelo mundo a fim de divulgar os ensinamentos da Fé, pessoas importantes para a história da religião e que receberam, algumas delas, o título de “ Mãos da Causa de Deus”.

Conforme Hatcher e Martin (2006, p. 95), os ensinamentos básicos da Fé Bahá’í se fundamentam em três princípios:

  • A unidade de Deus. Deus é um só para toda a humanidade, porém aparece com nomes diferentes em diversas culturas do mundo.
  • A unidade da humanidade, em que todos são iguais e possuem o mesmo valor perante Deus.
  • A unidade fundamental da religião, todas as precisam se unir por meio de diálogo inter-religioso estabelecendo harmonia e respeito para com a religião de seus semelhantes.

Foi a partir destes pontos fundamentais que se construiu toda a mensagem bahá’í. Para os bahá’ís acreditar na unidade de Deus, significa afirmar que existe um único Deus criador, onipotente e perfeito. Eles entendem que Deus é conceituado e compreendido de diferentes formas em diversas religiões, mas que estas vestimentas são apenas aparências originadas por influências culturais diversas, pois em essência Deus seria o mesmo.

Deus é compreendio pelos bahá1ís como Uno e Verdadeiro. Para eles: Cristo, Moisés, Muhammad,  Bahá’u’lláh, entre outros, são todos  profetas e mensageiros de um mesmo e único  Deus. “São como uma alma e um corpo, como uma luz e um espírito. Pois Eles surgiram para proclamar a Causa de Deus e estabelecerem as leis da sabedoria divina” (QUIGLEY; SEARS, 2005, p. 21).

Explica-se que Deus se revela de modo progressivo, que surge em diferentes contextos geográficos e históricos a fim de ensinar os seres humanos e que estes ensinamentos são revelados de acordo com o  que as pessoas podem compreender, naquele momento histórico e espaço geográfico específico.

Hatcher e Martin (2006) afirmam que cada revelação de Deus vai se tornando mais complexa e completa que a anterior.

Os bahá’ís anseiam pela união de todas as religiões, e pelo reconhecimento de que há uma mesma fonte alimentando a cada uma delas. Possuem uma proposta de paz e de fraterna convivência entre os diferentes. Para Hatcher e Martin (2006) a unidade humana implica necessariamente na unidade entre as religiões.

A humanidade não deve se dividir motivada por diferenças físicas, de linguagem, religião ou de idioma. A unidade da humanidade baseia-se em reconhecer os direitos igualitários entre todas as pessoas, homens ou mulheres. Para os bahá’ís a alma não tem sexo, a diferença entre homens e mulheres acontece apenas quando a alma vem à existência física.  Baseando-se nessa compreensão, repudiam qualquer forma de submissão das mulheres em relação aos homens. Considerar um gênero como inferior ao outro é inaceitável para um bahá’í.

Além da preocupação com os seres humanos, eles também defendem as relações de  respeito aos animais. Todas as formas de vida são vistas como expressão da natureza divina.

Para os bahá’ís a prática da oração é fundamental, é tida uma forma de dialogar com Deus.  “Segundo o ponto de vista bahá’í, a prece faz entrar em ação forças superiores até agora relativamente pouco conhecidas” (ESSLEMONT, 1984, p. 95).

Os preconceitos estão na base das desavenças e guerras, consoante bahá’í, e é por isso que eles acreditam que se deve buscar o aprimoramento pessoal, pois entendem que os preconceitos de gênero, religião, classe social e raça são impeditivos da instauração de uma sociedade pacífica e justa.

Como instrumento para combater preconceitos e superstições, os bahá’ís realizam uma verdadeira aliança com o conhecimento científico, chegando a perceber nele um “dom de Deus”, uma vez que pode ajudar o ser humano em sua busca pela verdade. A ciência pode, nesta perspectiva, ser utilizada também como meio para atingirem um de seus grandes objetivos que é a unidade de toda a humanidade, “o estabelecimento de uma paz universal, permanente, como a meta suprema de toda a humanidade” (QUIGLEY; SEARS, 2005, p. 120).

A Fé Bahá’í possui uma forma de organização que compreende a existência de um tribunal internacional que funciona atuando como árbitro em questões de disputas, visando um maior entendimento e harmonia entre as partes.       Cáceres e Marzo (1989) afirmam que os bahá’ís definem o Convênio como a aliança feita entre Deus e a humanidade, e distinguem dois tipos de Convênio, chamados de o Convênio Maior e o Convênio Menor. O Grande Convênio significa a promessa feita por Deus: de que enviaria Manifestantes para guiarem e instruírem os seres humanos. O Convênio Menor significa a promessa de fidelidade entre os Manifestantes de Deus e seus seguidores. No caso específico da Fé Bahá’i, não se pode aceitar o Convênio de Bahá’u´ll’lláh sem aceitar conjuntamente, ‘Abdu’l-Bahá (filho de Bahá’u´ll’lláh), Shogi Effendi Rabbani (neto de ‘Abdu’l-Bahá) e a Casa Universal da Justiça. Não aceitar qualquer um deles significa tornar-se um rompedor do Convênio.

Existem algumas datas celebrativas, um calendário que deve ser seguido apontando para festividades importantes, como por exemplo: o ano novo bahá’í.  Não possuem muitos ritos, porém a peregrinação à casa de  Báb e Bahá’u’lláh é considerada um rito importante. Festejam casamentos e também se reúnem para a prática de orações e celebrações.

Resumindo, pode-se afirmar que um bahá’í deve estimular a livre investigação, o aprimoramento da ciência, a conquista da liberdade feminina, dedicar-se ao trabalho honesto, cultivar e valorizar a arte e a educação. Deve-se  evitar o  uso de bebidas alcoólicas e entorpecentes.

Para um bahá’í  é importante cultivar o amor para com todos e reconhecer que  Bahá’u’lláh  foi o portador da mensagem de Deus para a nova era, também é necessário praticar a devoção, a generosidade e  reconhecer no amor a tudo e todos  a expressão de amor a Deus, origem de tudo e de todos.

No Brasil, a difusão da Fé Bahá’í  teve a marca do trabalho de uma mulher, Leonora Armstrong, que se tornou conhecida pelo título de “ Mãe Espiritual da América do Sul”,  em sua trajetória com o objetivo de divulgar a religião, estabeleceu moradia no Brasil e dedicou sua vida ao trabalho da causa , a fim  Fé Bahá’í se estabelecesse também neste país.

Conforme Marques (2006), Leonora Armstrong faleceu na Bahia, em Salvador, aos 84 anos, mas tempos antes de falecer deixou uma mensagem gravada para a Conferência Latino Americana da Mulher, realizada em Brasília no mês de outubro de 1980.

Eis o desafio de cada mulher hoje: somente se ela ensinar a seus filhos e filhas qualidades espirituais, se neles incutir  o amor a Deus, poderá ela prepará-los para estabelecer a civilização espiritual, a civilização Divina, a qual haverá de superar a material, a qual trará luz à lâmpada da civilização material, uma lâmpada tão bela, mas que agora está vazia, em escuridão total. Somente deste modo, poderá a mulher se tornar verdadeiramente luz da geração futura (ARMSTRONG in MARQUES, 2006, p. 407)


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ESSLEMONT, John E. Bahá’ú’lláh e a nova era. São Paulo: Palas Atena, 1996.
CÁCERES, Aldo Marcelo; MARZO, Luis Javier Ryes. La Fe Bahá’í. Una nueva religión mundial? Madrid: Ediciones Religión y Cultura, 1998.
HATCHER, Willian; MARTIN, Douglas. A Fé Bahá’í: o emergir da religião global. São Paulo: Editora Planeta Paz, 2006.
SEARS, William; QUIGLEI, Robert. Lua Getsinger. São Paulo: Editora Bahá’í, 2005.
SCHLÖGL, Emerli.   Conformação Simbólica das espacialidades arquetípicas feminias: um estudo das comunidades Bahá1ís de Curitiba e região-Paraná. Tese de doutorado. UFPR, 2012.
MARQUES, Gabriel (org). Leonora Armstrong. A mãe espiritual da América do Sul e do Brasil. Memória &Cartas. São Paulo: Editora Bahá’í do Brasil, 2006.
NABIL. La Narración de Nabíl. Abreviada por Zena Sorabjee. Buenos Aires: Editorial Bahá’í Indo. Latinoamericana. 1983.
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