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Espaços Sagrados – Possibilidades de leitura das cidades

Espaços Sagrados – Possibilidades de leitura das cidades
15 de maio de 2020 Edile Maria Fracaro Rodrigues

Cultura é uma totalidade complexa, feita de normas, hábitos, repertórios de ação e representações, adquirida pelo ser humano enquanto partícipe de uma sociedade. É fonte de identidade e configura a afetividade do indivíduo, auxiliando-o a interpretar a existência (MIRANDA, 2011, p.1698).

A diversidade religiosa, advinda da elaboração cultural, sempre esteve presente na história da humanidade, como uma forma de questionar sobre o sentido da vida e da transcendência. De acordo com Corrêa (2008, p. 149), como uma das características mais marcantes do povo brasileiro, a religiosidade “se manifesta de múltiplas maneiras como decorrência de um lado das diferentes religiões praticadas na sociedade brasileira e, de outro, como parte do modo de ser de muitos indivíduos ainda que não professem uma religião em especial”.

A partir das competências para o Ensino Religioso, estabelecidas pela Base Nacional Curricular Comum (BRASIL, 2017), discute-se como favorecer a compreensão da riqueza cultural e religiosa brasileira, proporcionando a reflexão sobre a realidade, numa perspectiva de compreensão de si e do outro.

Rui Silva

Patrimônio material e imaterial

Toda cultura é singular, geograficamente ou socialmente localizada, e é fator de identificação dos grupos e dos indivíduos como também de diferenciação diante dos outros.

Materializa-se no patrimônio material (vestimentas, artefatos, obras de arte, documentos, monumentos, estruturas arquitetônicas) e no patrimônio imaterial (músicas, literatura, linguagem, culinária, rituais, lendas e festas), que foram sendo criados ao longo do tempo e, portanto, representam a história de determinado povo, culinária, da religião, das lendas e mitos, do artesanato e da conduta individual do indivíduo em sociedade.

Uma leitura do espaço em que se está inserido e do patrimônio material e imaterial pode contribuir para o desenvolvimento da identidade cultural e o Sagrado pode se tornar fonte de leitura. Imagens, símbolos, gestos e espaços são os elementos que constituem essa leitura.

Para Eliade (1992), o sagrado se manifesta sempre como uma realidade inteiramente diferente das realidades naturais. As hierofanias, as manifestações do sagrado, podem ocorrer em qualquer coisa, desde em um simples objeto até em uma pessoa, e tendem a estruturar a vivência do ser religioso.

Espaço sagrado

O espaço sagrado pode ser entendido “como um lugar de manifestação ou como uma configuração espacial”, como apontam Pereira e Gil Filho (2012, p. 38). Com base em Cassirer (1994), Pereira e Gil Filho (2012, p. 45) vislumbram três espacialidades do Sagrado:

  1. Espacialidade concreta de expressões religiosas: refere-se ao espaço das expressões materiais. Nela, o espaço sagrado transparece como “palco das práticas religiosas”, visto que está em estreita ligação com a dimensão da percepção;
  2. Espacialidade das representações simbólicas: refere-se ao “plano da linguagem” que se apresenta o espaço sagrado, as percepções são apreendidas nas formas tempo e espaço;
  3. Espacialidade do pensamento religioso: refere-se às várias formas de conhecimento e de convicções do ser religioso, como tradição e sentimento religioso.

A experiência religiosa se manifesta nas ações do devoto, e é no espaço sagrado que se expressa de forma visível esse algo particular e subjetivo. O espaço sagrado, portanto, é lugar de encontro do ser humano consigo mesmo, com seu próximo e com o divino.

Pode-se perceber essa relação do indivíduo com o espaço observando, por exemplo, as religiões denominadas “primitivas”, que com suas práticas animistas, atribuem valores espirituais a elementos da natureza, nos belíssimos santuários de gregos e os romanos, nas monumentais pirâmides, nas colossais estátuas de Buda, encontradas em muitos pontos do Oriente, na tenda negra da Caaba, em Meca, e na Mesquita de Omar, em Jerusalém. Vê-se que por razões teológicas, históricas ou culturais, esses locais são altamente reverenciados pelos adeptos dessas religiões.

No espaço sagrado, para aquele que crê, a vida é compreendida, as forças são renovadas e as esperanças se reforçam e tomam forma. O que não invalida a presença daquele que não crê nesse espaço, pois a tradição, a arte e os aspectos históricos estão nele, presentes e, certamente, podem ajudá-lo em sua formação cidadã.

Cidade-livro

O salto quantitativo-qualitativo do mundo do conhecimento no último século, traz à tona muitas discussões acerca da expansão das dimensões do saber. O/a estudante aprende melhor quando toma parte de forma direta na construção do conhecimento que adquire. As propostas de ensino estão integradas levando em consideração as experiências vividas, relacionadas à realidade de maneira que não se apresentem como matérias de um currículo estanque. Pressupõe-se, assim, que o conhecimento religioso articulado às experiências vividas pelos estudantes pode se constituir em um conhecimento pertinente para compreensão do processo histórico da humanidade.

Segundo Bonafé (2015, p. 111-112), nos novos territórios de escolarização a cidade pode ser entendida como um livro-texto. “Os novos materiais são os espaços, lugares e deslocamentos urbanos, com suas transformações, e a relação dessas mudanças com as novas práticas culturais e sociais

Bonafé aponta ainda que na cidade são produzidos saberes que revelam tensões e conflitos por darem significado às experiências da vida. Para o autor, pelas ruas da cidade “circulam modos de comportamento, valores cívicos e morais, estilos e modos de vida, práticas culturais elaboradas, em relação aos quase construímos significados sobre o sentido de ser cidadão” (2015, p. 111).

Assim, um roteiro turístico pelos espaços sagrados do bairro (templos, cemitérios e lugares hierofânicos) aonde a escola está inserida, por exemplo, é uma abordagem interessante do fenômeno religioso para que oa estudante compreenda como as diferentes tradições religiosas interagem com a natureza na construção de seu espaço, bem como as singularidades dos lugares em que tiveram sua origem: o que as diferencia e as aproxima de outros lugares de outras religiões.

É preciso levar em conta, todavia, o conceito de cidade-livro de Bonafé, que é reencontrar uma leitura crítica da cidade; “não a cidade como excursão escolar, ou seja, como saída pontual, estudo ou exploração, para voltar às quatro paredes da sala de aula, onde o currículo ficou encerrado e imóvel”. É necessário, assim, compreender os modos de organização da sociedade em que se está inserido, as relações de poder, a constituição de conhecimentos religiosos e sua contextualização espacial e temporal.

Enquanto patrimônio da humanidade, o conhecimento religioso, pode proporcionar ao estudante oportunidades de aprendizagem que compreendam os movimentos específicos das diversas culturas (RODRIGUES et al, 2015, p 97).

 

A leitura do Sagrado

 

Na relação entre competências e conhecimentos estabelecidos pela BNCC (BRASIL, 2017), há que se considerar um trabalho integrado entre diferentes disciplinas ou áreas afins, que propicie situações de aprendizagem focadas em situações-problema ou no desenvolvimento de projetos que possibilitem a interação de diferentes conhecimentos.

A expansão dos saberes em torno da diversidade cultural e religiosa amplia o conhecimento religioso, que constitui patrimônio da humanidade, colabora com a formação da pessoa e promove a escolarização fundamental para que oa estudante se aproprie de saberes para entender os movimentos religiosos específicos de cada cultura.

Os conhecimentos produzidos pelas etnias, culturas e religiões podem proporcionar ao estudante oportunidades de aprendizagem que compreendam os movimentos específicos das diversas culturas, cujo substantivo religioso colabora no aprofundamento para o autêntico cidadão consciente da diversidade cultural e religiosa. O reconhecimento do fenômeno religioso, que é um dado da cultura e da identidade de um grupo social, pode promover o sentido da tolerância e do convívio respeitoso com o diferente.

A leitura do Sagrado é a leitura do cotidiano e nesse contexto, então, é preciso propor o exercício de não somente ler o religioso, mas ler o ser humano em sua diversidade de manifestações. Uma leitura que permita ir além da superfície das coisas, acontecimentos, gestos, ritos, normas e formulações, para uma profunda compreensão da realidade da humanidade, da cultura e da cidade.


Referências
BONAFÉ, Jaume Martínez. Na escola, o futuro já não é passado, ou é. Novos currículos, novos materiais. p. 102-111. In: JARAUTA, Beatriz; IMBERNÓN, Francisco (Orgs.). Pensando no futuro da educação — uma nova escola para o século XXI. Porto Alegre: Penso, 2015.
BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Base Nacional Comum Curricular, 2017.
CORRÊA, Rosa Lydia. Teixeira. Cultura e diversidade. Curitiba: IBPEX, 2008.
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: M. Fontes, 1992.
MIRANDA, Mario de França. O cristianismo entre o próximo e o distante no processo comunicativo. In: ALTEMEYER JUNIOR, Fernando; BOMBONATO, Vera Ivanise (orgs.) Teologia e Comunicação: corpo e interfaces cibernéticas. São Paulo: Paulinas, 2011.
PEREIRA, Clevisson Junior; GIL FILHO, Sylvio Fausto. Geografia da Religião e espaço sagrado: diferenças entre as noções de lócus material e conformação simbólica. Ateliê Geográfico, Goiânia, v. 6, n. 1, p. 35-50, abr. 2012.
RODRIGUES, Edile M. Fracaro; JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo; MARTINS FILHO, Lourival José. Perspectivas pedagógicas do ensino religioso – formação inicial para um profissional do ensino religioso. Florianópolis: Insular. 2015.

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