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Entre o proselitismo religioso e o mergulho nas ondas da secularização: uma pequena nota acerca do segmento evangélico brasileiro e seus dissidentes

Entre o proselitismo religioso e o mergulho nas ondas da secularização: uma pequena nota acerca do segmento evangélico brasileiro e seus dissidentes
15 de maio de 2020 Diogo da Silva Cardoso

O fenômeno evangélico brasileiro: um exercício de reflexão

A partir das evidências de que o campo evangélico brasileiro destoa ou mesmo subverte a tese evolucionista e eurocêntrica sobre o fim ou enfraquecimento da religião nas sociedades ocidentais, podemos seguir o raciocínio de Jorge Moniz (2017) que, de forma brilhante, esmiúça os problemas advindos da teoria da secularização e seus rebatimentos no campo intelectual e nas lideranças religiosas. Moniz nos alerta sobre as ideias tendenciosas que permeiam a teoria da secularização, especificamente na sua versão weberiana. Essas “críticas-tipo”, no fundo, remetem às falácias das narrativas secularizantes que desvirtuam as propriedades do conceito que, a rigor, tem o potencial de elucidar as dinâmicas da nossa contemporaneidade radical (FABIAN, 2013).

Jorge Muniz é um dos autores que defenderá uma visão mais complexa e realista sobre o fenômeno da qual os evangélicos e seus dissidentes e subversores são parte dessa complexa e intrincada teia de relações e significados (GEERTZ, 1989):

[…] as atuais genealogias do vocábulo não reconhecem devidamente que a formação da secularização se encontra ligada, de forma indelével, às transformações internas da cristandade europeia, da revolução papal, da Reforma Protestante ou do protestantismo evangélico estadunidense. Ou seja, não exaltam suficientemente a ideia de que a secularização se inicia e desenvolve através das mudanças de larga escala que ocorreram no Ocidente. Essa necessidade de sublinhar a relevância das experiências políticas, sociais e religiosas ocidentais é, para Lechner (1991, p.1116), “etnocêntrica”, pois ignora as sociedades (não cristãs) nas quais esses eventos históricos tiveram um impacto relativamente reduzido. O argumento dos críticos é que a tese da secularização se torna problemática quando generalizada como um processo universal de desenvolvimento social e quando analisada à luz de outras áreas religiosas ou civilizacionais (Moniz, 2017, p. 86).

Seguindo o jargão “evangeliquês”, no campo de batalha “espiritual” e “social” que perfaz o ethos evangélico, há um conjunto heterogêneo e difuso de iniciativas para-eclesiásticas e individuais, engajadas na promoção de suas atividades e pensamento religiosos através do uso intenso das mídias sociais. Cria-se comunidades virtuais e páginas pessoais para debater temas polêmicos e fortalecer coletivamente a fé e crença dessa coletividade disforme, com base em suas expressões artísticas, teológicas e intelectuais destoantes em relação a cultura evangélica. Composta, sobretudo, por jovens dissidentes de denominações evangélicas, mas que vem agregando nos últimos anos um grupo significativo de pastores e ex-pastores, missionários, músicos e outros intelectuais.

Essas comunidades e agentes religiosos alternativos propõem seguir os rastros do seu tempo (zeitgeist), tentando absorver as atmosferas culturais alternativas e os conhecimentos emergentes. Analogamente, tamanha exposição midiática garante um ciclo de manutenção da imagem e de divulgação massiva dos seus trabalhos e dos parceiros. Em suas falas, há muito da crítica do modus operandi, das disparidades sociais e das injustiças que, em parte, são negligenciadas ou apoiadas deliberadamente por setores evangélicos. Uma crítica e engajamento de fundo ora provinciano, ora cosmopolita, que explicita os valores de urbanidade presentes na configuração desses grupos e na performance dos líderes carismáticos.

Culto Fé, 23.08.16. Imagens do Canal Youtube André Valadão.

Além das preocupações com comportamento, gosto musical, preferências políticas, dogmatismos, formação de lideranças (discipulado) etc, a crítica desses agentes não deixa de fora a reflexão sobre as condições da existência humana. É uma fala alinhada com a atmosfera intelectual e política das metrópoles e cidades médias. A fala da maioria desses líderes evangélicos e alternativos emanada de uma cidade grande, notadamente no eixo Sudeste-Sul.

Nas redes e canais aleatórios do mundo digital, os agentes ora denominados alternativos, dissidentes desigrejados ou outro rótulo de cunho estigmatizante, vão se organizando e adquirindo autonomia nos seus saberes e fazeres religiosos. Em contraste com os jovens evangélicos de orientação mais “denominacionalista”, a estratégia segue o ritmo e costumes do espaço eclesial, visando os interesses da coletividade e a imagem da instituição. Nesse ponto, as divergências seguem a lógica binária entre os grupos que seguem processos mais normativos (as “igrejas convencionais”) e aqueles que optam por atitudes mais espontâneas, antiestruturais, vitalistas, quase atingindo o status de um dandismo ascético-religioso. É o caso dos grupos que estão fora da órbita das denominações tradicionais e do movimento neopentecostal (ainda que flerte com ele em alguns pontos). Em texto anterior sobre os movimentos dos jovens crentes indignados, relatei que:

Pelo fato do movimento aderir à onda filosófica vitalista, então as águas que movem o moinho do underground cristão e de outros ramos não-convencionais partem de situações nas quais as fronteiras são extremamente porosas, simbólicas. Com isso, e baseado na minha experiência de campo e como ex-integrante do movimento, quero dizer que os fiéis e líderes undergrounds transitam fortemente por entre comunidades alternativas e evangélicas, firmam parcerias seja com evangélicos ou pessoas seculares, e lutam por visibilidade tanto no underground quanto no mainstream (CARDOSO, 2013, p. 155).

O campo evangélico é diverso, fluido e com diferentes tipos de interesse e investimento. Uma economia política do sagrado dos evangélicos é o primeiro passo para construir as bases de uma análise ampla do fenômeno no território brasileiro. A esfera digital/midiática ampliou a atuação dos evangélicos em todos os setores da sociedade, trazendo-os para a esfera pública. Uma ambivalência ao identificarmos que, nas práticas rotineiras dos evangélicos, ainda há uma tendência a concentrar os encontros e ações no interior das instituições.

Em virtude dos caminhos tortuosos que o movimento vem tomando em todos os contextos, sejam eles metropolitanos ou nas cidades médias e áreas rurais, os evangélicos hoje são mais que uma “grande minoria” religiosa (JUNGBLUT, 2007) ou um aglomerado de sub-ramos e coletividades cristãs. Aliás, chamá-los atualmente de grande minoria é quase um ultraje, dada a escalada de importância desse campo nos processos sociopolíticos e econômicos, gerando transformações profundas na ordem social brasileira.

Para finalizar, fico com a hipótese de que, para compreender os movimentos evangélicos na sua plenitude, é necessário captar suas propriedades e dinamismos por meio da reconstrução teórico-conceitual das quatro esferas da existência humana que, de forma indelével, norteiam qualquer configuração religiosa: estética, moral, lógica e dialética. Em uma outra perspectiva, Luiz Sampaio chamou essas esferas existenciais de lógicas (SAMPAIO, 1997), sendo a conexão entre elas chamada pelo autor de lógica hiperdialética quinquitária. Um conceito instigante e, ao mesmo tempo, enigmático.

Em uma rede de agenciamentos tão diferenciados e difusos como as dos subsegmentos evangélicos, diferenciar ações propriamente estéticas (bandas musicais, intervenções juvenis, momentos de catarse espiritual, glossolalia) com ações de estofo lógico-formal (congressos, seminários de normatização da leitura bíblica, regras no interior dos espaços eclesiais). Das alas mais conservadoras às cenas undergrounds criadas nas grandes cidades, os evangélicos e seus críticos (incluídos ou não no movimento, mas que mantém a fé e atitudes evangelísticas) são uma peça-chave para compreender as espacialidades brasileiras contemporâneas, os territórios sagrados instaurados dentro e fora dos muros das igrejas (montes de oração, sítios pertencentes a igrejas, casas de oração, ocupação de praças) e os mecanismos que permitiram a esses agentes acessar distintos campos de influência da sociedade.

A política é, nos dias atuais, o campo que mais gera controvérsias ao se abordar a “questão dos evangélicos”. Porém, sob uma outra lente, podemos ir além dos estereótipos e rotulações para captar, numa dimensão lógica e ancorada na epistemologia da complexidade, as diligências e frequências de um movimento que reflete as dinâmicas de uma sociedade plural e plenamente aberta às influências externas de toda ordem.


Referências
CARDOSO, Diogo da Silva. Indignados com o mundo, transtornados com o institucionalismo: a geografia do underground cristão brasileiro na era pós-secular e pós-cristã. RA’EGA. n. 27. p. 140-175. 2013. Disponível em: ˂https://bit.ly/2ygYm51˃. Acesso em: 11 out. 2019.
FABIAN, Johannes. O Tempo e o Outro: como a antropologia estabelece seu objeto. Petrópolis: Vozes, 2013.
JUNGBLUT, Airton Luiz. A salvação pelo rock: sobre a “cena underground” dos jovens evangélicos no Brasil. Religião e Sociedade. n. 27(2). p. 144-162. 2007. Disponível em: ˂https://bit.ly/2F8kxQV˃. Acesso em: 06 nov. 2019
MONIZ, Jorge Botelho. As falácias da secularização: análise das cinco críticas-tipo à teoria da secularização. Política & Sociedade. n. 36 (16). 2017. Disponível em: <www.periodicos.ufsc.br/index.php/politica/article/view/2175-7984.2017v16n36p74>. Acesso em: 10 jan. 2020.
SAMPAIO, Luiz Sérgio Coelho. A grande tarefa de nosso tempo: uma nova filosofia. 1997. Disponível em: ˂https://bit.ly/2NclW7u˃. Acesso em: 27 dez. 2019.

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