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Racismo religioso como um componente geográfico

Racismo religioso como um componente geográfico
Pedro Dias 19 de março de 2020

A abordagem espacial do elemento religioso tem como pressuposto inicial a faculdade de revelar determinados moldes, esses modelos são responsáveis pela formação e pela classificação de grupos sociais. Para pensar a categoria de espaço nós retomamos Henri Lefebvre, em seu texto A produção do espaço. Nessa perspectiva, podemos pensar espaço como “um conjunto indissociável, solidário e contraditório, de objetos e sistemas de ações, não consideradas isoladamente, mas como um quadro único na qual a história se dá’’. Assim, o espaço se apresenta em constante mudanças. Essas alterações estão relacionas às interações e signos que o sujeito concebe a ele.

© Janine Moraes
Foto: Janine Moraes

Pensar a estruturação da vida do indivíduo a partir da dimensão religiosa, principalmente em seu contexto social, admite uma relação entre a causa e o efeito. Diante dessa busca por sentido, podemos pensar a religião com um ato de restituir o elo que se perdeu.

No período colonial, a estruturação religiosa no Brasil foi imposta pela Coroa Portuguesa através dos processos alicerçados numa economia escravista e a constante busca por territórios aliados ao catolicismo. Essa era a única religião autorizada para práticas de cultos, que automaticamente resultava na deslegitimação das crenças e celebrações dos indivíduos que ocupavam o território brasileiro anteriormente a chegada dos colonizadores.

A partir de 1889, diante do processo da Proclamação da República, juntamente com o desvínculo de Portugal, ocorre uma ressignificação do Estado. Essa atualização admite a laicidade oficialmente. Diante disso os artigos 1º ao 5º do Decreto n.º 119-A, de 07 de janeiro de 1890 discorrem sobre a democratização e a liberdade de crença, juntamente com a escolha do indivíduo em praticá-las ou não.

Acreditamos que, contemporaneamente, as compreensões sobre a aplicabilidade e a efetividade das leis que asseguram o direito às práticas religiosas, em sua pluralidade, são violadas. Os ataques às religiões de matrizes africanas — Umbanda, Candomblé e Quimbanda, por exemplo — são um reflexo da intolerância religiosa atrelada, de modo pontual, às questões raciais.

Para pensar a intolerância, nos aproximamos de Paulo Meneses em seu texto Filosofia e tolerância, isto é, na percepção dessa conduta materializada nas “atitudes de pessoas que possuem uma ideia verticalizada sobre determinados assuntos, resultando assim na anulação do outro, não permitindo que o diferente apareça e interaja com os fluxos culturais/sociais.”  Nesse sentido, pensamos que a sociedade que alicerça na construção de grupos que se anunciam como hegemônicos, está atravessada pela dinâmica da intolerância. Esse espaço tem como fator predominante a agressividade, sobretudo, quando esses grupos hegemônicos tentam anular a vivência, a experiência e religião do que eles demarcam como o outro.

Se considerarmos a intolerância como uma forma de praticar violência, na discussão acerca da experiência religiosa, nós perceberemos inúmeros ataques originários dessa percepção turva de superioridade.

A intolerância religiosa, que tem em sua estrutura o racismo, propõe uma negação ao direito de manifestar os ritos, cultos e posicionamentos sociais das religiões de matrizes africanas. O contraditório dessa rejeição está na formação da sociedade brasileira, tendo em vista a sua pluralidade original.

Visto isso, como podemos construir uma ponte de diálogo entre àqueles que colonizaram e em contra ponta os resultantes desse processo, os colonizados? Nós também colocamos em relevo os dispositivos racistas que delimitam os espaços, isto é, que operam na construção de um território ainda colonizado, sobretudo, por interesses de poder, em nome da religião.

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