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O racismo religioso na convergência de fundamentalismos

O racismo religioso na convergência de fundamentalismos
Leon Patrick Afonso de Souza de Souza 19 de março de 2020

É muito provável que Roma, o centro da Igreja Católica Apostólica Romana, jamais tenha acolhido tantas cores, danças e cantos de povos tradicionais do Sul do mundo como aconteceu em outubro de 2019. Enquanto dentro dos muros do Vaticano os bispos, padres, religiosos, algumas mulheres e alguns representantes de povos amazônicos estavam reunidos na Assembleia do Sínodo para a Amazônia. as ruas próximas à Basílica de São Pedro foram ocupadas por indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, mulheres, missionárias, ativistas comprometidos com a defesa dos povos e da floresta.

A histórica cidade, os templos suntuosos e os olhares disciplinados para uma cultura da conservação sentiram medo quando outras experiências religiosas ecoaram e pediram espaço no centro do catolicismo mundial. Desde o início do Sínodo, os povos amazônicos foram violentados simbólica e fisicamente por parte de grupos ultraconservadores, tanto do âmbito religioso como por parte de governos e do mercado.  A violência se desvelou com mais força no dia 21 de outubro de 2019, quando Alexander Tschugguel, um homem branco, europeu e cristão, fundador de um Instituto que defende a doutrina católica conservadora, invadiu a Igreja Santa Maria em Transpontina, roubou cinco imagens utilizadas pelos povos indígenas nas suas celebrações e lançou-as, uma a uma, no Rio Tibre.

Lançar as imagens de mulheres grávidas nas águas é um aviso direto para os povos que acompanhavam a realização do Sínodo, em Roma: de quem não aceita, não reconhece, não dialoga com experiências distintas. E mais grave ainda, de quem se sente autorizado a violentar histórias, crenças, religiões e conhecimentos. Jogar no rio para aquele homem é o mesmo que fazer desaparecer, sumir, silenciar. Essa é a violência arraigada que define quais experiências religiosas merecem permanecer e, não sendo, quais devem ser assassinadas.

Para potencializar a violência contra as experiências religiosas das comunidades tradicionais, nesse caso dos povos da Amazônia, o discurso ainda é adjetivado com informações rasas que rapidamente se espalharam e encontraram apoio nos fiéis defensores dos cânones, das regras e leis.  Em um dos textos de defesa do lançamento das imagens ao Rio Tibre quem escreve defende que, em nome da história eclesiástica, os católicos têm o dever moral de fazer desaparecer qualquer símbolo, rito ou memória que não seja relacionada à experiência cristã-católica. Para levar a cabo essa tarefa, colocam-se na sua autoproclamada condição de civilizados para definir o que é sagrado e o que é profano, ou ainda, se tomarmos a inspiração de Judith Butler no livro Corpos em Aliança e a Política das Ruas, operam com normas racistas que distinguem entre os que podem ou não ser reconhecidos como humanos. E é possível ir mais além se questionarmos, por exemplo, quais normas racistas operam para colonizar corpos, trajetórias, símbolos e subjugar as experiências religiosas gestadas nas periferias do mundo.

No caso em evidência, o racismo contra os povos amazônicos pode também conectar-se a outras formas de fundamentalismos e violências, tecendo uma complexa luta que não se restringe ao campo religioso, mas desliza, incorpora, orienta projetos políticos e financeiros de ocupação dos territórios da Amazônia. No caso brasileiro, o discurso governamental operante é uma convergência orquestrada de narrativas religiosas, políticas e econômicas em vista do progresso, prosperidade e da salvação.

Desta forma, o roubo de estatuetas sagradas para comunidades tradicionais da Amazônia e a tentativa de fazê-las desaparecer nas águas reforça a prática colonialista que deseja extirpar diferenças e “incluir” todos os “silvícolas”, selvagens e arcaicos no modo urbano, industrial e cristão. Para ocupar territórios com projetos de mineração, hidrelétricas e agronegócio é preciso antes destituir seus símbolos, sua cultura, seu sagrado. A convergência de fundamentalismos assassina laços comunitários e, como assinala Marilena Chauí, “opera provocando e satisfazendo preferências individuais induzidas pelo próprio mercado, as quais seguem a matriz da moda, portanto, do efêmero e do descartável; reduz o indivíduo e o cidadão à figura do consumidor; opera por exclusão”.

Os fundamentalismos renovados cotidianamente e suas mais variadas articulações são um desafio para os movimentos sociais, para repensar a política e para o que defendemos como diálogo ecumênico, inter-religioso e intercultural. Se temos convicções nesses diálogos, precisamos de ousadia para apontar as convergências entre narrativas religiosas, políticas e de mercado que deliberadamente violentam corpos, símbolos, templos, histórias. Apontar e enfrentar com coragem as causas fundamentalistas é uma tarefa árdua, mas que poderá literalmente salvar vidas, reconstruir histórias, celebrar a beleza das diferenças, inventar outras políticas, “realmar a economia”. Ressignificar a humanidade das relações: caminho e compromisso!

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