O racismo religioso e a violência pelo “não-dito”

O racismo religioso e a violência pelo “não-dito”
Washington Luís Santos Oliveira 19 de março de 2020

Pensar uma relação entre violência e racismo religioso escancara uma realidade trágica: existem desrespeitos que se desdobram desde o enfrentamento físico, na agressão gratuita que deixa marcas, até à violência subjetiva que é do campo do “não-dito”, que comunica por gestos, olhares, “brincadeiras”, exclusão.

Quando o assunto é as religiões de matriz africana, essa violência é exacerbada e tem por pano de fundo o racismo que, infelizmente, segue firme em uma sociedade que tem dificuldades em compreender e respeitar o outro na sua diversidade.

Esse ato violento que se estrutura pela forma do “não-dito”, nasce, a meu ver, da insuportabilidade da diferença, da incompreensão do que, de fato, seja o rito, o fenômeno religioso em si, a história e o significado das religiões de matriz africana. Isso, aliado ao crime de perpetuar essa dimensão racista e de desvalorização do que é do negro.

Foto: Emanuele Scherer

E o pior é que esses atos parecem ser mais “civilizados”, e, portanto, é mais difícil combater e desfavorece, até mesmo, um enfrentamento direto. É uma violência subjetiva que se manifesta no desprezo, na má vontade, no olhar condenatório quando andamos nas ruas das cidades com parte do nosso sagrado: vestes, contas, cumprindo nossos preceitos, mas ela é percebida.

Há um caráter fascista, danoso, condenatório e até uma dose de covardia, porque é do campo da sutileza, do não-dito, do inesperado e que, portanto, não dá a(o) violentada(o) o direito de defesa instantânea. Me lembro do professor Leandro Karnal quando, versando sobre o racismo, em um congresso, disse que o racismo, (de qualquer modo em que se apresente) é, a um só tempo, “um problema patológico somado à baixa inteligência e a falta de caráter”.

O mecanismo discriminatório que se emprega ao não sentar do lado de alguém do candomblé, da umbanda, do reinado, dentre outros,  no ônibus, por exemplo dá o tom do quanto a pessoa que faz uso desse tipo de violência quer ser notada e passar sua mensagem de racismo religioso, mas sem postura de desgaste. Outro exemplo notável é quando se percebe o famoso falar de “canto de boca” que profere que o sangue de jesus tem poder ou, até mesmo, “queima senhor” (como se o diferente tivesse que ser destruído, logo por um Deus que criara a natureza tão diversa).

Mas se ela é expressa no campo da sutileza, por que afeta? Pelo fato de que, sem palavras, muita coisa se diz. A mensagem é enviada e compreendida por quem sofre tal violência e pior, ela é facilmente desmentida pelo emissor através da sentença “você entendeu errado” ou eu “até tenho amigos candomblecistas, umbandistas”.

Pode-se dizer que há uma falha nos distintos códigos religiosos que favorecem essa escalada da violência e do racismo religioso? Acredito que sim! A comunicação entre fiéis e sacerdotes, no mínimo, não está sendo bem-feita. Se entendermos que a comunicação é viva e simula a consciência de outrem, é possível considerar que ou o recado não está sendo bem dado, ou não tem produzido efeitos. Obviamente, há o não crédito às religiões; a culpa pela explosão do desrespeito; a violência e o racismo religioso, mas creio que seja plausível considerar que, também,  é função delas a importante contribuição social de auxílio na formação dos sujeitos.

Como a ópera Alabê de Jerusalém, de Altair Veloso, traz a refletir, parece que as religiões fugiram do seu papel de archotes (que serve de iluminação), de auxílio na conscientização de quem é o indivíduo na sociedade, para empunhar cassetetes e disseminar o desrespeito que, em alguns casos, chega ao ódio.

A vivência de uma espiritualidade libertadora, que inclusive pode nada ter a ver com uma determinada religião, deve constituir no indivíduo ou grupo uma consciência de pertencimento, de afeto, de cuidado com a casa comum, que é o universo.

Acredito que as religiões de matriz africana sofrem mais com a violência subjetiva porque são a expressão de um povo negro que resiste ao racismo estrutural e (re)existe enquanto ser no mundo apesar das dificuldades.

A superação dessa violência descabida e espontânea tem a ver, sobretudo, com um nível de consciência e respeito sobre o que é o outro e a nossa relação com ele. Nesse sentido, pensar dinâmicas e estratégias que facilitem a luta contra a hostilidade gratuita passa pela educação e por #ConhecerParaRespeitar, de que tanto falo em publicações na Senso e em palestras e atividades em todo país, quando tenho oportunidade.

Afinal, a não uniformidade é que faz o nosso caótico mundo ter graça, mas esse ensinamento precisa funcionar numa tríade que nem sempre conversa: família, educação, e consciência espiritual libertadora.