Educar para a diversidade

Educar para a diversidade
Fernanda Santos 19 de março de 2020

Não há quem se livre dos tentáculos do racismo em uma sociedade moderna. O racismo nos atravessa por diferentes trajetórias: nosso cotidiano, corpo e ser; faz-nos olhar o diferente como o outro, sem reconhecer sua humanidade. O racismo religioso é uma das performances do Racismo.

A educação habitualmente dispensada aos nossos jovens é enfocada geralmente numa visão eurocêntrica, que, além de ser hegemônica, não leva em consideração a diversidade presente no espaço escolar. Nessa perspectiva, o sistema educacional está vinculado a relações de poder preestabelecidas e mantém a posição subordinada de certos grupos étnicos e raciais.

Especificamente na colonialidade a la Brésil, as religiões de matriz africana são o alvo certeiro do imperativo da supremacia branca. A prática do racismo religioso dá-se sob as bênçãos do Racismo Estrutural e missionada pelo Racismo Institucional que vigora nas escolas, especialmente nas públicas. Os estereótipos e preconceitos transitam livremente alicerçados na estrutura racista que se impunha. Os dogmas e rituais são ridicularizados e rejeitados, marginalizando seus adeptos que os assumem publicamente. O professor Eduardo Quintana em seu artigo Intolerância religiosa na escola: O que professoras filhas de santo tem a dizer sobre esta forma de violência nos alerta que tanto alunos e alunas, como professores e professoras, se vêm impelidos, muitas vezes, em negar a sua filiação religiosa por terem medo de serem discriminados.

É imperioso atentar que a discriminação, como ação imediata do indivíduo, advém de um processo histórico-social imprimido à raça negra e o estabelecimento da supremacia branca. Nesse sentido, a escola renega a alteridade da negritude a partir de padrões hierárquicos estabelecidos pela cosmologia cristã. É por isso que se trata de racismo religioso e não de intolerância, pois não é apenas um simples ato de não concordar com o outro, mas de moldar uma sociedade em que as práticas vistas como subordinadas, a que incluo as religiões afro-brasileiras, são discriminadas, criminalizadas e perseguidas.

Aliado a todo esse processo de subalternização e desvalorização da subjetividade, está o processo de embranquecimento implementado como política pública no Brasil que reforça a negação, apagamento e silenciamento de qualquer forma de manifestação do universo negro. Demissão ou afastamento de profissionais de educação adeptos de religiões de matriz africana ou que abordaram conteúdos dessas religiões em classe; proibição de uso de livros e do ensino da capoeira; desigualdade no acesso a dependências escolares por parte de lideranças religiosas; omissão diante da discriminação, são práticas consequentes e recorrentes no espaço escolar.

Os dispositivos pedagógicos como livro didático e paradidático, as lições orais, o currículo, os rituais escolares, as datas festivas e comemorativas, em geral, são recursos que confirmam o privilégio das identidades dominantes e tratam as identidades dominadas como exóticas ou folclóricas. O teórico cultural jamaicano Stuart Hall em sua imprescindível obra Da Diáspora – identidades e mediações culturais elucida muito bem esta concepção quando diz que “o que substitui a invisibilidade [de uma cultura] é uma espécie de visibilidade cuidadosamente regulada e segregada”.

Nós, educadores, ao privilegiarmos padrões culturais distantes da experiência da maioria de nossos estudantes brasileiros, promovemos a violência simbólica com a discriminação dos valores. Resultando em uma pedagogia que despreza a bagagem de experiências que cotidianamente os estudantes trazem de suas vidas em comunidades para o convívio escolar.

Uma das ferramentas para fazer frente a esse problema e possibilitar a aproximação à diversidade é a efetiva implementação da Lei Federal 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira em toda a educação básica. Distanciarmos das práticas eurocentradas, provocaríamos desconstrução dos rótulos ideologicamente construídos, proporcionando uma convivência democrática entre diferentes grupos e culturas, baseada no respeito à diferença, que se concretiza no reconhecimento da paridade de direitos.

Estabelecer contra memória, contra hegemonia e, verdadeiramente, estabelecer a diversidade tornaria a escola menos danosa a nosso Okàn (coração) e Orí (cabeça).  O respeito à diversidade e às diferentes crenças é um direito fundamental no Brasil e um dos pilares de uma sociedade democrática.  Não se esqueça!