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A quem serve o racismo religioso?

A quem serve o racismo religioso?
19 de março de 2020 Sidnei Barreto Nogueira

Decidi escrever este texto como uma conversa de terreiro. A ideia de uma conversa de terreiro é um diálogo ancestral. Reunimo-nos em círculo porque a circularidade é valor civilizatório africano, preto, quilombola, ancestral. Trata-se de um diálogo em que todos estão sentados confortavelmente no chão, em um terreno de terra batida e cobertos generosamente pela sombra produzida pelas árvores que estão lá para nos trazer conforto, para amenizar o calor do sol que nos ilumina e que nos permitirá aquele olho no olho, aquele brilho no olhar, a verdade produzida pelos olhos e pela luz do sol. Ali, terra, ar, árvores e as pessoas estabelecem uma relação horizontal e todos se tornam iguais.

Ao centro estão nossos ancestrais, nosso passado, nosso ontem, nossa história, nossa jornada, nossos Orixás, nossos Voduns, nossos Inquices, nossos antepassados, acompanhando e conduzindo todo o nosso diálogo.

Fora do círculo, estão todos aqueles que produziram à margem e nos colocaram nela, marginalizando-nos, excluindo-nos de uma vida artificialmente produzida para servir à subalternização, à exclusão, à escravização de corpos de pretos e pretas, uma ferramenta tecno-semântico-discursiva. Fora do círculo está quem nos destituiu do nosso verdadeiro “eu” e produziu um “eu” apenas para servir a interesses do capitalismo, do neoliberalismo e da necropolítica. A partir da reinvenção de um eu-preto – “denegrido” – artificial é que se produziu a artificialidade. E é essa nova realidade artificial que decide quem pode existir, que deuses e deusas podem ser adorados, como as pessoas devem se vestir, como devem ser educadas, como devem se portar, quem devem amar e, sobretudo, que lembranças ancestrais lhes são permitidas.

A realidade artificial é uma espada forjada artificialmente, e sem a permissão de Ogum, Badagri e Pambu-njila, apenas para cortar a cabeça dos subalternizados e criar uma realidade em que só os escolhidos, também artificialmente, podem existir com seus corpos, mentes e cultura preta.

Agora, a roda de conversa é para que quem está dentro do círculo e para quem constitui o círculo. Para que se veja a verdade sobre quem sequer nos permite ser círculo.

Um círculo que existe e se fortalece por meio da horizontalidade e que existe para servir às continuidades, certamente, se torna um elemento transgressor para uma sociedade falocêntrica, de relações de papel que derretem ao encontrar a água -cristalina- da verdade. Uma sociedade que opta por viver no conforto das mentiras, do artificial, de engodos e trocas desproporcionais.

A pergunta da conversa de terreiro é: a quem serve o racismo religioso?

Como nos alerta o professor de Filosofia da PUC–MG, Thiago Teixeira, o racismo é mesmo uma tecnologia social de destruição e possui alvos específicos. O racismo religioso não admite encontros e reencontros efetivos porque ele precisa da instabilidade e da ausência de mobilidade dos corpos e mentes para decidir quem está dentro e quem está fora, quem é escravo e quem é livre, quem pode falar e quem deve só ouvir, quem deve ter corpos completos e quem deve ter apenas braços fortes, mão flexíveis, mentes rígidas e corpos capazes de carregar o fardo da própria inexistência como ser humano-natureza-ancestral, quem pode existir e quem não pode e, no caso do racismo religioso, em que se pode crer e quem pode crer naquilo que pode. Nesse sentido, o epistemicídio decide que epistemes podem existir e coexistir.

Todavia, é preciso que olhemos com coragem para quem está fora do círculo, fora da conversa de terreiro. Convenientemente, por conta de uma realidade artificial, as pessoas se confundem e nos confundem. O epistemicídio e o racismo como uma tecnologia de destruição social também serve muito bem à um projeto que só acredita e precisa acreditar apenas em linhas paralelas que nunca poderão se encontrar e categorias semânticas excludentes, ou seja, as religiões hegemônicas cristãs e brancas são as únicas que podem existir e só nelas podemos crer. Lembremo-nos que, no Brasil, todas e todos nascem cristãos, brancos e heteronormativos. Quando se rompe com uma destas categorias hegemônicas, você já foi apartado de parte do mundo artificial criado e mantido por “eles”.

O binarismo é o responsável pela manutenção do status quo ante dos pensamentos, também artificialmente, alçados à categoria de hegemônicos. Uma cultura que se crê hegemônica não nasce sozinha. São duas linhas verticais que são forçadas a seguirem em sentidos diferentes. Uma linha é branca, cristã, eurocêntrica, racista, conservadora, rígida, falocêntrica – que se crê maioria-apartada de natureza e até de “Deus” e a outra é não-branca, não-cristã, não-eurocêntrica, antirracista, não conservadora, flexível e resiliente, não-falocêntrica e que se crê natureza e parte constituinte do criador.

Outra questão que está por trás da artificialidade ou de uma realidade criada para servir ao poder branco é a de que, “eles”, os racistas religiosos e seus líderes precisam de uma outra linha paralela não convergente. Porque é por meio da exclusão da alteridade que eles fortalecem seus vínculos e é tão por meio da satanização da alteridade que eles podem se tornar nos salvadores dos problemas criados por eles mesmos. É líquido é certo que grande parte do sofrimento humano é também intencional invenção social de uma suposta maioria que se crê detentora de verdades absolutas e pregada na cruz para salvar todos os outros não pregados nesta mesma cruz, mas que devem viver com resignação agora com doses diárias de pregos que lhes são pregados diretamente na carne, preferencialmente, preta para pagar por uma figura mítica que “os” salvou.

Penso que crer é um direito de todos e as pessoas podem acreditar no que quiserem, mas, quando esta, uma crença, exclui quem não quer receber os pregos e as marteladas de um Deus sadomasoquista, não é direito de quem crê desqualificar e dizimar quem não crê e, se as linhas horizontais não são convergentes, é até paradoxal exigir que tenhamos o mesmo projeto de jornada-mítico-ancestral.

O racismo religioso serve bem a um projeto de poder. Falsos cristãos-políticos, falsos líderes religiosos, líderes religiosos pregados na cruz que agora querem cobrar uma dívida indevida. A epistemologia de terreiro não acredita no salvador cristão, não acredita em um “Deus-branco-sadomasoquista”, não acredita em pecado, não tem relação alguma com o demônio cristão, mas, por meio do racismo, como uma tecnologia de destruição social e de desumanização, deve continuar recebendo as marteladas nos pregos que rasgam a carne preta e devem sangrar muito; de um “Deus” inquisidor e algoz, cujo único desejo parece ser a produção de seres desumanizados e perfeitos dentro de uma ótica que prefere fazer o sangue humano da alteridade jorrar a entender, acolher e respeitar.

O racismo é o culto ao ódio, o culto à satanização do corpo preto com vistas à produção da necessidade de um salvador. Mas a questão que fica é: quem salvará todos que sofrem com o racismo? A nós, meio como um paradoxo e um privilégio, ficam os Deuses pretos e as Deusas pretas que também têm sangrado junto com corpos e mentes de pretos e pretas.

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