A morte nas religiões Ayahusqueiras

A morte nas religiões Ayahusqueiras
Elaine Costa Honorato e Patrick Walsh Netto 6 de janeiro de 2020

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Por ser a única certeza que temos na vida, a morte deveria ser vista como um fenômeno natural. Entretanto, na cultura brasileira, o fim da vida terrestre ainda desperta curiosidades que causam medo, tristeza e, em casos mais extremos, a perda do próprio sentido da vida. Segundo o filósofo Edgar Morin, a consciência sobre o fim da vida causa aos seres humanos um trauma que se manifesta correlativamente pela angústia da morte. Essa angústia que Morin descreve, pode ser refletida como um dos motivos que promovem o encontro entre o homem e a religião, uma vez que as religiões buscam apresentar aos seres humanos uma suposta possibilidade do que  acontece após o término da vida, trazendo aos que se asseguram na religião, um certo conforto.

Nessa perspectiva, apresentaremos como a morte é interpretada e vivida nas religiões ayahuasqueiras, ou seja, onde se utiliza a Ayahuasca em rituais religiosos, conhecida amplamente no Brasil como o Chá do Santo Daime ou “Vegetal”. Num contexto religioso, a ayahuasca é consumida a partir de três matrizes religiosas: Santo Daime, União do Vegetal e Barquinha. E, em cada linha ayahuasqueira, a “morte” é concebida de uma forma distinta.

Diante da temática apresentada, o texto busca retratar de forma sucinta como a “morte” é vista nas religiões ayahuasqueiras bem como informações relacionadas a morte e religião.

O CHÁ PROFESSOR; LOCAIS DE CONEXÕES TRANSCENDENTAIS ENTRE O EU INCONSCIENTE E AS INCÓGNITAS DO SAGRADO

 A conexão transcendental por meio de elementos da natureza faz parte da história da humanidade. As religiões ayahuasqueiras têm como sacramento um chá, feito a partir de duas plantas, o cipó Mariri/Jagube (Banisteriopsis caapi) e a folha do arbusto Chacrona/Rainha (Psychotria viridis).

A ayahuasca é uma bebida utilizada em contexto ritualístico por povos indígenas da bacia amazônica desde tempos imemoriais. Com a dissolução do Império Inca, o uso ritualístico da ayahuasca passou a ser conhecido por diversos grupos indígenas e, através deles e gradualmente, chegou aos caboclos e seringueiros que viviam na Amazônia. Com o passar dos anos, o consumo do chá foi se ampliando e passou a ser ingerido de forma sacramental em doutrinas específicas trazidas pelos mestres ayahuasqueiros.

No Brasil, a resolução n°1 de 25 de janeiro de 2010 do CONAD (Conselho Nacional de Políticas Sobre Drogas), foi o derradeiro capítulo de uma longa luta pelo direito ritualístico religioso de comungar a ayahuasca. Esta batalha de idas e vindas se iniciou no ano de 1985 quando a então Divisão de Medicamentos (DIMED) do Conselho Federal de Entorpecentes (CONFEN) colocou a Banisteriopsis caapi na lista de substâncias proscritas. Dali se iniciou uma série de estudos por parte do governo brasileiro que resultou na constituição de normas e procedimentos para o uso da ayahuasca para fins religiosos no ano de 2010.

A primeira religião a ser criada dentro de uma linha histórica foi o Daime do Mestre Irineu Serra. Raimundo Irineu Serra era maranhense, neto de escravos e ainda jovem migrou do Maranhão para o Acre para trabalhar no chamado primeiro ciclo da borracha (1879-1912). Mestre Irineu conheceu a Ayahuasca na floresta a partir de trocas comerciais que teve com seringueiros. De pouco em pouco passou a desenvolver atividades espirituais utilizando a Ayahuasca. Na continuidade desse trabalho, passou a ter contato com uma entidade de nome Clara e que foi a sua guia no seu processo de iniciação. Clara revelou a ele que a bebida se chamava Daime, um vocativo, um pedido. Orientado por ela passa a desenvolver regras para a produção e o uso religioso da bebida. Após alguns anos, Irineu Serra mudou-se para a cidade de Rio Branco (AC) e, junto com alguns seguidores fundou o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU) que ficou popularmente conhecido como Alto Santo (MACRAE, 1992).

Na sequência dos seus trabalhos com o Daime, Mestre Irineu auxiliou uma pessoa de nome Daniel Pereira de Mattos a se livrar de um sério problema que tinha com o alcoolismo. Daniel se tornou um seguidor fiel do Mestre Irineu, auxiliando-o no desenvolvimento dessa religião. Pouco mais de um ano que estava bebendo o Daime com o Mestre Irineu, teve uma miração em que recebia um “livro azul de anjos vindos do céu”, recebeu uma missão espiritual e apoiado por Mestre Irineu criou uma nova religião chamada de “Centro Espírita e Culto de Oração Casa de Jesus Fonte de Luz”, conhecida também pela denominação “Barquinha”, nome que carrega o imaginário de uma travessia (vida) por meio de uma “barca”. A travessia é a passagem em vida mediante os obstáculos que nela encontramos. Entretanto, aquele que segue as orientações provindas do chá, traça uma travessia em total segurança.

A UDV foi criada em 22 de julho de 1961 no seringal Sunta, fronteira do Brasil com a Bolívia, do lado boliviano, na altura do Estado do Acre por José Gabriel da Costa, sua família e um grupo pequeno de pessoas. O ambiente hostil e caótico do seringal foi o berço onde se iniciou uma religião de fundamentação cristã e reencarnacionista. Na passagem do ano de 1964 para o ano de 1965, Mestre Gabriel chegou com a família em Porto Velho, dando início nessa cidade a uma nova fase do desenvolvimento dessa religião. Por conta de perseguições por parte da polícia, que considerava o chá um entorpecente, Mestre Gabriel e seus discípulos procuraram organizar institucionalmente a religião com a criação da Associação Beneficente União do Vegetal e, em seguida, com a intensificação da perseguição por parte da polícia, se deu a criação do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (CEBUDV), no ano de 1970. Em 24 de setembro de 1971, o Mestre Gabriel fez a passagem na cidade de Brasília-DF.

A MORTE NO SANTO DAIME, UNIÃO DO VEGETAL E BARQUINHA

A União do Vegetal é uma religião cristã reencarnacionista, isto significa que o ato de se fazer a “passagem” é encarada como um processo natural da existência terrena. Nesta doutrina de fundamentação espírita o que morre é a “matéria”, o corpo físico; já o espírito é eterno. Portanto, os religiosos dessa linha acreditam que a “morte” do corpo físico encerrou aquela encarnação, mas o espírito volta a encarnar quantas vezes forem necessárias até se chegar à “purificação”. Assim, o ato de encarnar em um corpo faz parte de um processo de aprendizado daquele espírito, faz parte de um processo de graduação da sua memória e é por meio de ciclos sucessivos de encarnações que o espírito constrói a sua travessia espiritual cujo objetivo final é tornar o espírito são.

No entanto, na UDV é ensinado que a caminhada espiritual não é um parque de diversões, mas sim um caminho de renúncias e sujeitas a dificuldades. O Vegetal, nome com o qual é chamado a ayahuasca nesta religião, é consumido nos rituais da União do Vegetal para efeito de concentração mental e com o objetivo de evolução espiritual. A concentração mental está ligada ao equilíbrio interior do indivíduo, a busca pelo centro, é a luz do Vegetal clareando os passos do caminho verdadeiro, que na doutrina desta religião significa o caminho de Deus.

A cada ritual em que se comunga o líquido sagrado, a luz do Vegetal orienta e mostra os caminhos que se deve tomar para a evolução espiritual, ou seja, a vivência na terra é uma escola, é uma passagem necessária para se galgar os degraus da evolução. Os ensinamentos provindos do chá bem como as doutrinas provindas dessa linha religiosa, devem ser colocadas em prática, caso contrário, a pessoa pode atrasar o seu processo evolutivo. Na União do Vegetal a morte não é encarada como algo ruim, pois não é levado em consideração o fim da existência naquela matéria como término, mas sim como uma nova possibilidade de evolução. A cada encarnação, uma nova oportunidade de aprendizado para aquele espírito.

Na Barquinha, a concepção de morte não se apresenta inexistente, pelo contrário, no caso da barquinha, o mundo chegará ao fim. Paskoali explica que,

A Barquinha representa, para os membros da comunidade, a Arca de Noé, que conduzirá aos “marinheiros do mar sagrado” (como os integrantes se autodenominam) numa grande viagem, com provas, tempestades, sofrimentos, até alcançarem um plano mais elevado, onde encontrarão a luz e a salvação. Escatologicamente acreditam que o mundo chegará a um fim, e aqueles que estiverem na “Barca” serão salvos, pois estão recebendo as instruções da “luz” de como devem agir para alcançar a salvação. (PASKOALI, 2002, p. 66)

Mediante as informações prestadas por Paskoali, é possível analisar que existe uma diferença entre as linhas da União do Vegetal para com a Barquinha, visto que na União do Vegetal, nota-se uma leveza em relação à morte devido às chances (reencarnação) que se tem na travessia até a chegada ao destino final. No entanto, na Barquinha, a morte é vista como benéfica para os que estão do lado de dentro da “barca”, pois nessa condição, alcançarão a salvação, mas os que não estiverem, encontrarão a morte como todos que escolheram ficar do lado de fora da arca no dia do dilúvio anunciado por Noé.

E, por fim, tendo em vista que a linha do Santo Daime se constitui na oralidade, temos pouca teoria sobre o assunto tratado nesse texto, mas ainda assim analisando os hinos que compõem essa doutrina religiosa, podemos perceber que existe um alinhamento com a doutrina espírita no sentido de se acreditar no ciclo da encarnação. Para a doutrina do Santo Daime este plano espiritual onde as pessoas encarnam é encarado como uma grande escola, um lugar de aprendizado e depuração do espírito. Toda a instrução doutrinária é advinda dos hinários e da compreensão destes por parte dos discípulos do M. Irineu Serra. Existe um hino de autoria do M. Irineu que diz assim: “A morte é muito simples/ Assim vou te dizer/ Eu comparo a morte/ É igualmente ao nascer”. Por meio dessas palavras contidas no hino, podemos inferir que a morte faz parte de um processo natural de um discípulo que segue a doutrina do Daime.

De acordo com as narrativas apresentadas por Oliveira, é possível afirmar que a linha do Santo Daime não traz uma concepção fundamentada na lógica do cristianismo do tipo ocidental, mas muitas das orientações são provindas do uso ritualístico do chá. Nesse sentido, a “morte” tem uma relação de troca com a forma que se busca viver a vida mediante as orientações oriundas do acesso ao líquido sagrado. O chá, é uma espécie de tutorial que orienta o homem para após a morte, seja digno de viver uma vida eterna e feliz. É possível destacar que a morte é um fenômeno dolorido, entretanto é possível se obter conforto na religião e estabelecer concepções que demandam unicamente da fé em acreditar num estágio de travessia em vida.

Referências 

BERNARDINO-COSTA, Joaze (org). Hoasca: ciência, sociedade e meio ambiente. Campinas, SP: Mercado de Letras, 2011.
HARRISON, Peter. “Ciência” e “ Religião”: Construindo Limites – Revista de Estudos da Religião – REVER – Pós-Graduação em Ciência da Religião PUC/São Paulo.
LABATE, Beatriz C. e ARAÚJO, Wladimir S. (orgs.). 2002. O uso ritual da ayahuasca. Campinas.
MACRAE, Edward. Guiado Pela Lua: Xamanismo e Uso da Ayahuasca no Culto do Santo Daime. São Paulo: Ed. Brasiliense, 1992.
MORIN, Edgar. O homem e a Morte. 2ªed. Tradução: João Guerreiro Boto e Adelino dos Santos Rodrigues. Portugal: Publicações Europa-América, 1970.
OLIVEIRA Isabela. Um desafio ao respeito e à tolerância: reflexões sobre o campo religioso daimista na atualidade. Rio de Janeiro, 2011.
PASKOALI, Vanessa Paula. A cura enquanto processo identitário na Barquinha: o sagrado no cotidiano. 2002. Dissertação (Mestrado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo. _________. Navegar é preciso, morrer não é preciso. 1998. Monografia (graduação). Universidade Federal do Acre, Rio Branco.
WALSH NETTO, Patrick. O exemplo na vida de quem prega: uma análise do CEBUDV a partir dos seus sócios. Tese de Doutorado em sociologia. Universidade de Brasília. 2018.
SÉRPICO, Rosana Lucas & CAMURÇA Denizar Missawa. Ayahuasca: Revisão Teórica e considerações Botânicas sobre as espécies. Banisteriopsis Caapi (Griseb.in Mart.) C.V Morton e Psychotria Viridis Ruíz & Pávon, (Monografia) – Universidade Guarulhos, São Paulo, 2006.
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